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Os sinais estavam lá: por que ainda não conseguimos impedir o feminicídio em Minas?

Casos registrados nesta semana em BH reacendem debate sobre a dificuldade de identificar relações abusivas antes que a violência chegue ao extremo

Minas Gerais|Cler Santos, do R7

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O feminicídio, segundo especialistas, raramente começa no dia da morte. Redes Sociais/ Reprodução

Nesta semana, Belo Horizonte registrou três graves casos de violência contra mulheres. Dois terminaram em feminicídio e um em tentativa de assassinato. A sequência de crimes mobilizou forças de segurança, chocou moradores e levantou uma pergunta que vai além das estatísticas: por que a sociedade ainda não consegue identificar os sinais de uma relação abusiva antes que ela termine em morte?

A resposta, segundo especialistas ouvidos pela RECORD Minas, passa por um problema que antecede o crime. O feminicídio, afirmam eles, raramente começa no dia da morte. Antes dele, costumam existir episódios de controle, violência psicológica, intimidação e outras formas de abuso que, muitas vezes, passam despercebidas por familiares, amigos e até pelas próprias vítimas.


“A questão é perguntar: por que não estamos vendo os sinais? O que nos impede, o que nos dificulta de ver esses primeiros sinais que vêm aparecendo antes que o fato do feminicídio, antes que a morte, antes que a tentativa de morte aconteça?”, questiona a psicanalista Andréa Guimarães. Para ela, é preciso um processo de “letramento” da sociedade para reconhecer esses comportamentos ainda no início da relação.

Os três casos registrados nesta semana ilustram justamente essa dificuldade. O primeiro deles envolve a capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo. Ela chegou sem vida ao Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, apresentando diversas lesões pelo corpo consideradas incompatíveis com a versão inicial de um acidente doméstico. O principal investigado é o marido da vítima, o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, que foi quem a levou ao hospital. Ele foi preso e nega ter cometido o crime. A investigação apura o caso como feminicídio.


Poucas horas depois, outro caso voltou a chamar atenção. Stifanie Ribeiro Silva, de 35 anos, foi encontrada morta sobre a cama do apartamento onde morava, em Belo Horizonte. O quarto estava revirado. O namorado dela, André Júnior Silva de Carvalho, de 24 anos, apontado inicialmente por vizinhos como principal suspeito, confessou o crime e permanece preso.

Na mesma sequência de ocorrências, uma terceira mulher sobreviveu após ser arremessada do terceiro andar de um prédio. Mesmo gravemente ferida, ela conseguiu pedir socorro. O suspeito foi preso.


Embora tenham circunstâncias diferentes, os três episódios possuem um ponto em comum: a violência ocorreu em relações marcadas pela proximidade entre vítima e agressor, cenário predominante nos casos de feminicídio registrados no país.

Violência que cresce antes da morte

Na avaliação do promotor de Justiça Cláudio Barros, um dos desafios é compreender que o feminicídio representa o desfecho de uma violência que costuma se desenvolver de forma gradual. Ele afirma que, além da extrema violência, muitos autores tentam inverter a responsabilidade pelo crime.


“Lamentavelmente, trata-se de um crime de extrema covardia. Ele é covarde ao tentar justificar seu comportamento, tentando atribuir à própria vítima a responsabilidade pelo crime que ele cometeu”, afirma.

Para a psicanalista Andréa Guimarães, os três casos registrados em sequência também revelam um problema coletivo.

“Quando três casos de feminicídio ou tentativa de feminicídio acontecem em menos de 24 horas na cidade de Belo Horizonte, não estamos falando de coincidência nem de fatos isolados. Estamos falando de uma sociedade adoecida que precisa, com urgência, ser tratada e trabalhada.”

Segundo ela, o enfrentamento passa necessariamente pela educação e pela construção de uma cultura capaz de identificar comportamentos abusivos antes que eles evoluam para agressões físicas.

Números reforçam alerta

Os lados mostram que a preocupação não se restringe aos casos desta semana. Nos dois primeiros meses deste ano, Minas Gerais registrou 32 vítimas de feminicídio, contra 25 no mesmo período do ano anterior — aumento superior a 32%. Em todo o ano passado, o estado contabilizou 139 mulheres assassinadas por razões de gênero, enquanto o Brasil ultrapassou 1,5 mil vítimas.

Dados mais recentes da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), apresentados durante a reportagem, apontam que, entre janeiro e junho deste ano, Minas já registrou 78 feminicídios consumados e 97 tentativas.

Para Cláudio Barros, o aumento está relacionado, entre outros fatores, à sensação de impunidade. O promotor defende punições mais rigorosas e políticas públicas permanentes de enfrentamento à violência contra a mulher.

Já Andréa Guimarães acredita que a principal mudança precisa acontecer antes da atuação do sistema de Justiça. “Nós temos que entender o que estamos perdendo em não ver os sinais”, resume.

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