O que uma decisão faz na vida dos outros
Eu sou uma das milhares de pessoas que tiveram a vida modificada após a instalação de montadora há 50 anos em Betim (MG)
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Em 1975, a cidade de Betim tinha pouco mais de 40 mil habitantes e vivia basicamente da agricultura. Era uma cidade que produzia legumes, frutas e verduras para abastecer Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais. 50 anos depois, são mais de 431 mil pessoas a viver no segundo maior PIB do estado. Uma revolução e tanto, que tem um único motivo: a Fiat.
Antes que você continue lendo este texto, deixe-me confessar uma coisa. Eu sou uma das milhares de pessoas que teve a vida modificada por essa montadora de quatro letras. Então, não pense que escrevo imparcialmente. Sou a prova viva de que certas decisões mudam o futuro de todo um povo.
Rondon Pacheco, o governador de Minas da época, topou investir 71,5 milhões de dólares, que, corrigidos, significam meio bilhão, para ficar com 50% da empresa e garantir a abertura da fábrica. A italiana colocou os outros 50%, mais dois mil dólares, o que garantiu ser a sócia majoritária, a que mandava em tudo.

Na época, as opiniões ficaram divididas, mas as grandes resistências vieram dos políticos mineiros de oposição, que questionavam a decisão como muito benevolente com a Fiat, e das montadoras paulistas, que chamaram de concorrência desleal.
Vamos combinar. Não é uma simples decisão. Mas mudou todo o mercado automotivo brasileiro. Hoje, tem fábrica no Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Goiás, Bahia, Pernambuco e Ceará. Sete estados devem à coragem do governador o presente que têm.
50 anos depois, a comemoração
Estive no Mineirão, na festa de aniversário da montadora. Não tinha como não se emocionar, revendo tantos amigos e relembrando vários momentos pelos quais passei. Estavam lá 40 mil pessoas, entre funcionários, imprensa, concessionários, autoridades e até clientes. Quase uma Betim inteira, a de 1975, não a atual. Todos comemorando o tempo da empresa no Brasil. Eu, revendo minha trajetória de vida.
25 anos atrás, em 2001, a empresa era outra, muito menor e menos organizada. Pelo menos, assim me lembro dela. Mas havia acabado de se tornar líder, no finalzinho de 2000, e lutava contra a Volkswagen para conseguir ser a maior do país no acumulado de um ano inteiro. Terminaram tecnicamente empatadas.
Como aconteceu desta vez, fizemos uma campanha pra comemorar. A mensagem da campanha era um claro convite à mudança: “Mude, mas comece devagar, porque direção é mais importante que a velocidade...” A Fiat sempre tinha sido a empresa da “Família Italiana Atrapalhando o Trânsito”. E a gente tinha, graças aos novos modelos como o Palio e o Mille, acabado com a rejeição à marca e se tornado uma empresa considerada moderna. Alguns até citavam que a sigla significava “Fiquei Inteligente, Adquiri Tecnologia”. Então, não tinha tema melhor do que a mudança. Era como se falássemos: “Abandone sua antiga marca de automóveis e mude pra Fiat”.
Outros 25 anos depois, a montadora confessa, na campanha de 50 anos, que é fã do Brasil. E os brasileiros, fãs da marca. Só não conta o tanto que teve que mudar para continuar no mesmo lugar, na liderança.
Uma decisão que criou a Stellantis
Qualquer festa não vai conseguir refletir o que a vinda da montadora italiana acabou significando para o mercado mundial de automóveis. A Stellantis não existiria se não fosse a decisão do governador Rondon.
Mas pouca gente vai dar valor a isso. Se nos anos de 1999 e 2000, a Fiat italiana estava em crise, no Brasil, a filial mineira vendia quase o mesmo número de carros que a matriz.
Só que, enquanto na Europa a empresa perdia dinheiro, em Terra Brasilis, a marca conseguia fazer um pouco de grana. O suficiente para mandar dividendos para a Itália e, com isso, mantê-la viva.
A Fiat se reergueu, ganhou de bandeja a Chrysler, durante a crise de 2009, quando virou FCA, conseguiu fazer da Jeep e da RAM duas marcas de sucesso e deu mais um passo em direção à consolidação, quando se fundiu com a PSA para criar a Stellantis.
Hoje é o quinto maior grupo mundial, entre trancos e barrancos que o mundo elétrico tem causado no universo automotivo.
O comercial de comemoração lembra, inclusive, o caminho enorme de inovações que a Fiat trouxe para o mercado brasileiro, para deixar de ser uma marca pouco confiável e se tornar a líder de mercado.
Dos 50 anos, em 19 ela ergueu a taça de primeiro lugar. Talvez, mais do que inovação, o segredo dela seja a rapidez em entender o que o consumidor local quer e se adaptar às mudanças. Seja no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos.
Mudando pra não mudar
Essa é a nossa vida, um eterno mudar. A gente se vê como seres imutáveis, mesmo quando trocamos o corte do cabelo, o jeito de vestir ou os hábitos alimentícios. No fundo, a gente acredita que pensa sempre do mesmo jeito, que age da mesma forma. Aí assiste a um vídeo antigo, lê um pedaço de um “diário” de adolescente ou ouve os comentários de uma tia e se assusta com as mudanças pelas quais passamos.
Ainda bem que mudamos. Rever meus amigos nos 50 anos de Fiat foi mais do que uma comemoração da história de uma empresa. Foi entender que o que vale na nossa existência é a aventura, é o caminho. Como diz o comercial de 2001: “Sem o qual, a vida não vale a pena”.
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