Exclusivo: veja como são feitos os testes de colisão de carros na Europa
Visitamos a sede da ADAC na Alemanha onde são feitos os testes do Latin NCAP, avaliação independente de veículos que são vendidos em vários países da América Latina
Autos Carros|Marcos Camargo Jr e Marcos Camargo Jr.

Desde o início da indústria automotiva, há mais de 100 anos, a segurança a bordo dos automóveis aumentou de forma significativa por meio dos testes de segurança. Além dos novos dispositivos desenvolvidos pela indústria, a legislação também avança para proteger motoristas e passageiros. E órgãos independentes como o Latin NCAP fazem essa testagem na prática usando um critério único de avaliação pelos critérios da região. O R7-Autos Carros visitou a sede da ADAC, em Landsberg, Alemanha, para descobrir como são feitos esses testes ao vivo.

Um carro se desloca a cerca de 30km/h contra uma barra de ferro que simula a resistência de um poste. Depois o uma barreira que simula um automóvel se movimenta de forma lateral contra um veículo. Em outros testes, dois veículos colidem frontalmente. Essas imagens são impactantes e já vimos em vários veículos de imprensa esses vídeos. Dessa vez, vimos ao vivo como esse trabalho é feito.

O Latin NCAP é um órgão independente que vai completar 10 anos de atividades em 2024. Sediado no Uruguai, a entidade não governamental usa os laboratórios da ADAC, que corresponde a um automóvel clube na Alemanha, e critérios técnicos para avaliar a segurança dos carros que são vendidos na região. Acompanhamos a preparação e o teste prático de dois veículos: o Hyundai HB20 que teve o resultado de três estrelas (o anterior tinha zerado no teste de colisão) e outro carro vendido no Brasil que terá seu resultado divulgado em breve.

Vale dizer que um carro não precisa ser bem qualificado no Latin NCAP para ser homologado no Brasil. As montadoras fazem testes dinâmicos virtuais e reais com os carros em avaliações que começam anos antes do seu lançamento. Mas no teste prático que acompanhamos é possível ver o comportamento dinâmico da carroceria, dos cintos de segurança, airbags (submetidos a variações de temperartura), bancos, coluna de direção e painel de instrumentos.
Antes do teste

Os carros submetidos aos testes são adquiridos pelo Latin NCAP e enviados ao laboratório da ADAC. Lá são avaliados e preparados por engenheiros e depois são equipados com sensores conhecidos como Data Loggers, os fluídos são drenados e trocados por água com corante para se identificar possíveis vazamentos e também os dummies, que são um capítulo à parte.

Os dummies, os bonecos usados nos veículos, são feitos sob medida para reproduzir os efeitos de possíveis lesões. Eles tem o peso, porte, articulações e tudo para que seja fiel à idade de um adulto e uma criança. Os dummies também são calibrados e eventualmente passam por um checkup em uma sala específica para fazer esses ajustes.
No dia do teste

Acompanhamos a rotina de trabalho dos engenheiros e profissionais que lidam com a testagem dos carros. O ambiente é controlado e o R7-Autos Carros firmou o compromisso de não divulgar as imagens antes da divulgação dos resultados. Já o Hyundai HB20 que foi testado dias antes da nossa chegada, teve os resultados divulgados após a conferência e emissão de relatórios. As montadoras também são informadas antecipadamente do andamento dos testes e geralmente enviam profissionais para acompanhar esse trabalho.

Recentemente o Citroën C3 passou pelo teste do Latin NCAP e não foi bem. A estrutura do carro foi considerada deficiente e a oferta de dois airbags levou a resultados negativos. Já o Jeep Renegade também foi mal na última edição do teste. Porém o carro avaliado não era a versão vendida no Brasil que tem 6 airbags, controles de tração e estabilidade, ESP entre outros dispositivos.

Também avaliamos alguns dispositivos de segurança presentes em carros europeus. Sistemas como frenagem autônoma de emergência já são obrigatórios em carros novos vendidos na Europa. Testamos o Nissan Qashqai equipado com esse dispositivo que já é oferecido no Brasil mas não de forma obrigatória nos veículos. Carros detecção de cruzamento de pedestres também já são comuns no mercado europeu e já começam a aparecer nos carros brasileiros. Apesar disso, não são obrigatórios.

"Um ser humano não foi programado para receber um golpe a 30, 40, 60 quilômetros por hora. No máximo a 10km/h. Indenizar uma perna quebrada na Europa custa de 30 a 50 mil euros. No Brasil, na América Latina como um todo, indenizar uma vítima equivale a um valor menor do que a indenização do automóvel. Na região só o Chile tem uma legislação mais avançada mas a América Latina tem muito o que avançar", diz Alejandro Furas, secretário do Latin NCAP.
"Existe uma nova fase do Latin NCAP que entra em vigor no próximo ano e tornará os critérios de avaliação mais rígidos. Mas vale dizer o quanto estamos - como América Latina - atrasados em relação a outros mercados. As montadoras não se comprometeram com os pilares da ONU de segurança em prol de uma mobilidade mais segura", avalia Alejandro Furas.

Mas vale dizer que o Latin NCAP é um órgão independente e não oficial para avaliação dos veículos Um carro que não vai bem na avaliação não é impedido de ser comercializado. As montadoras do Brasil também avaliam dinamicamente os carros e muitas vezes contestam esses resultados. Mas eles ajudam a divulgar de forma pública o comportamento dessas avaliações e criar um parâmetro unificado de segurança que fica mais próximo da opinião pública e do consumidor para que possa fazer uma escolha segura ao comprar seu próximo carro.

"O Brasil não assinou o compromisso da ONU que tem os 5 pilares para uma mobilidade mais segura. No mundo todo, Europa e Rússia, Austrália, Estados Unidos e China assinaram mas o Brasil está no nível da África em segurança. Na Europa itens como frenagem automática, ISA que é o limitador de velocidade e até detector de nível de álcool, ponto cego e manutenção na faixa estão se tornando obrigatório", completa Furas.















