A ciência que aproxima a agricultura da floresta
Pesquisadora será reconhecida pelo Prêmio Fundação Bunge por transformar ciência em soluções para agricultores familiares e povos indígenas da Amazônia

Há mais de quatro décadas, a pesquisadora Sonia Sena Alfaia percorre comunidades rurais e territórios indígenas da Amazônia em busca de respostas para um dos maiores desafios da região: como produzir alimentos, gerar renda e melhorar a qualidade de vida das populações locais sem abrir mão da conservação da floresta.
Natural de Codajás (AM), às margens do Rio Solimões, Sonia cresceu acompanhando a relação das famílias amazônicas com a terra. Filha de produtor rural, aprendeu desde cedo que a agricultura representa não apenas uma fonte de sustento, mas também uma forma de preservar conhecimentos e fortalecer comunidades.
Formada em Agronomia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com mestrado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e doutorado em Ciências Agronômicas pelo Institut National Polytechnique de Lorraine, na França, Sonia retornou à Amazônia para desenvolver estudos voltados à agricultura familiar, aos povos indígenas e ao uso sustentável dos recursos naturais.
Ao longo de sua carreira no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), tornou-se referência em sistemas agroflorestais, manejo sustentável dos solos amazônicos e desenvolvimento de cadeias produtivas capazes de conciliar conservação ambiental e geração de renda.
Um dos momentos marcantes de sua trajetória foi a criação do Programa de Agricultura Indígena da Secretaria de Estado da Produção Rural do Amazonas (Sepror), iniciativa que aproximou políticas públicas das demandas das comunidades, com ações de assistência técnica, capacitação e fortalecimento da produção.
Seus estudos mostram que cadeias como açaí, castanha, pupunha, guaraná e abacaxi podem representar alternativas econômicas sustentáveis, valorizando a biodiversidade e ampliando oportunidades para agricultores familiares.
“A agricultura aqui precisa se aproximar mais da floresta, e não se afastar dela”, disse a pesquisadora.
Entre os projetos que considera mais emblemáticos está o trabalho desenvolvido com o povo indígena Sateré-Mawé, tradicionalmente ligado ao cultivo do guaraná.
A parceria envolve a recuperação de antigos guaranazais, a adoção de práticas agroecológicas e o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis, como o cultivo do pau-rosa, espécie amazônica de valor econômico para a indústria de cosméticos.
Segundo Sonia, os resultados só são possíveis quando a ciência caminha junto com os saberes tradicionais. “Temos muito respeito pelos conhecimentos e pela cultura dessas comunidades. O nosso papel é construir soluções junto com elas”, destacou.
Além da pesquisa aplicada, a cientista também deixa um legado na formação de novas gerações. Professora dos programas de pós-graduação do INPA, participou da formação de mestres e doutores que hoje atuam em diferentes áreas relacionadas ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.
“Estou passando o bastão porque eles são o futuro da pesquisa na Amazônia”, disse.
O Prêmio Fundação Bunge 2026 homenageará Sonia na categoria Vida e Obra, pelo tema “Inovação em processos de transferência de tecnologias e conhecimentos para a agricultura familiar”. O reconhecimento destaca uma trajetória dedicada a transformar conhecimento científico em soluções práticas para comunidades amazônicas.
Para ela, o prêmio representa não apenas uma conquista individual, mas o reconhecimento de um trabalho coletivo construído ao lado de agricultores familiares, povos indígenas, estudantes e instituições de pesquisa.
“É o trabalho de uma vida inteira. Fazer pesquisa na Amazônia não é fácil, mas é muito gratificante quando vemos que aquilo que construímos ajuda, de fato, a melhorar a vida das pessoas”, finalizou.
Criado em 1955 e inspirado no Nobel, o Prêmio Fundação Bunge reconhece pesquisadores que contribuem para o desenvolvimento científico nacional e para soluções voltadas aos grandes desafios do Brasil. Ao longo de sua história, mais de 200 personalidades já foram homenageadas pela iniciativa, avaliadas por comissões independentes formadas por especialistas.
Na edição de 2026, o prêmio destaca pesquisadores que atuam no fortalecimento da agricultura tropical sustentável e da inovação no campo. Entre os homenageados estão Alexandre Lima Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja, reconhecido por estudos sobre fisiologia vegetal, biologia molecular e tolerância à seca; e Paulo Eduardo Teodoro, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), premiado pelas contribuições no uso de tecnologias aplicadas à agricultura sustentável.
Na categoria Juventude, também será reconhecido Raul Victor Magalhães Sousa, de 16 anos, bolsista de Iniciação Científica Júnior (PIBIC Jr.) do CNPq, pelo desenvolvimento de um sistema que utiliza inteligência artificial associada aos saberes tradicionais para previsão de chuvas no semiárido cearense.
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