O que a genética pode fazer pela agricultura brasileira
Pesquisador Alexandre Nepomuceno analisa os avanços da biotecnologia e os caminhos para o futuro do agro
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Da tropicalização da agricultura à edição gênica, a ciência continua ampliando as fronteiras do agro brasileiro.
O Mundo Agro conversou com Alexandre Nepomuceno, pesquisador da Embrapa Soja e vencedor da categoria Vida e Obra do Prêmio Fundação Bunge deste ano, sobre os avanços da biotecnologia e os desafios do setor.
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Mundo Agro: O Brasil é hoje uma referência mundial na regulamentação da edição gênica. O que o país fez de diferente para chegar a esse nível de maturidade regulatória e quais são os próximos desafios para não perder essa posição?
Alexandre Nepomuceno: Nós começamos, já em 2014, a discutir, em nível de CTNBio, o que estava acontecendo com essas novas tecnologias e como vários países estavam desenvolvendo legislações mais assertivas, como Estados Unidos, Canadá e a própria Argentina, que foi a primeira a estabelecer uma legislação sobre edição gênica.
Foi uma discussão técnica dentro do escopo da Lei de Biossegurança nº 11.105, de 2005. Ali, observamos, por exemplo, que a Lei de Biossegurança exclui a mutagênese, e a edição gênica nada mais é do que uma mutagênese direcionada, imitando, em muitos casos, coisas que a natureza já fez ou tem possibilidade de fazer. Não há introdução de DNA de outras espécies, então nossa normativa está muito guiada nessa direção.
A maturidade da Lei de Biossegurança de 2005 permitiu à CTNBio estabelecer essa regulamentação para a edição gênica, que a gente considera mais assertiva. A lei dá à CTNBio competência para tratar de biossegurança acompanhando a evolução tecnológica, garantindo a segurança, mas também permitindo que o país evolua cientificamente.
Mundo Agro: Em três décadas, a biotecnologia saiu dos primeiros transgênicos e chegou ao CRISPR. O que mudou de fato na agricultura nesse período — e por que a edição gênica pode representar uma revolução ainda maior?
Alexandre Nepomuceno: O Brasil, com mais de 25 anos de biotecnologia sendo utilizada na medicina, na indústria e na agricultura, adquiriu uma maturidade que permitiu estabelecer essa normativa para a edição gênica. E, para não perder essa posição, a gente tem que continuar acompanhando a evolução tecnológica e propondo ajustes quando necessário.
Por exemplo, a normativa de edição gênica do Brasil está agora recebendo um guia, porque as normas não conseguem cobrir todas as situações técnicas e tecnológicas de cada espécie. Esse guia ajuda a interpretar melhor uma normativa que é mais geral.
A Resolução Normativa nº 16 da CTNBio, que rege a edição gênica no Brasil, foi um grande avanço. Ela modernizou o uso da biotecnologia no país e está permitindo que vários players e novas culturas participem desse processo.
Mundo Agro: O senhor já comparou o potencial do CRISPR ao impacto que a internet teve sobre a informação. O que essa comparação significa, na prática, para o produtor rural e para a agricultura brasileira nos próximos anos?
Alexandre Nepomuceno: A evolução tecnológica é uma constante, principalmente na área da genética. Hoje, temos capacidade de sequenciar genomas em questão de horas. Essa velocidade tem permitido entender cada vez mais os genes e os mecanismos de diferentes espécies.
Com esse conhecimento, aliado ao surgimento de ferramentas para alterar o DNA, como o CRISPR, você consegue, na agricultura, introduzir ou eliminar características que possam ser benéficas ou prejudiciais a uma determinada produção.
A edição gênica foi realmente uma revolução a partir do conhecimento de uma ciência básica, que era um sistema imunológico de bactérias. Identificou-se essa tesoura molecular, que consegue cortar com precisão a sequência de DNA que você quer alterar.
É uma boa comparação com o surgimento da internet, que revolucionou a vida de todos nós. Eu acredito que a edição gênica está nesse mesmo patamar, porque é uma ferramenta que permite mexer em vários genes no genoma de uma espécie.
Na área médica, é possível corrigir doenças genéticas. Na agricultura, fazer plantas mais resilientes, resistentes ao ataque de doenças e pragas e às mudanças climáticas, capazes de lidar com altas temperaturas e produzir com menos água.
Mas não adianta ter uma ferramenta como o CRISPR se não houver conhecimento da genética. Eu tenho que saber onde vou usar a ferramenta, onde vou cortar ou alterar o DNA e que mecanismo será modificado. Também preciso saber qual ganho vou ter na característica trabalhada.
O potencial nos próximos anos é enorme, desde a melhora da qualidade do óleo de soja e o aumento da vida de prateleira de frutas e verduras até uma maior tolerância aos estresses do ambiente, como secas e chuvas prolongadas.
Tudo isso depende do conhecimento de como os genes daquela espécie respondem às pressões do ambiente e do uso de ferramentas como o CRISPR para alterar essas características e buscar a melhor solução para cada espécie.
Mundo Agro: O Brasil conseguiu transformar um ambiente considerado inicialmente pouco favorável, como o Cerrado, em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo. Quais foram as descobertas científicas decisivas que tornaram possível produzir em clima tropical?
Alexandre Nepomuceno: Na conquista do Cerrado e na transformação da agricultura tropical mundial, o Brasil teve uma liderança extraordinária. O país adaptou tecnologias desenvolvidas para climas temperados e subtropicais e também criou soluções específicas para o clima tropical.
É um pacote com várias estratégias. No caso da soja, por exemplo, ela é uma planta que, perto do Equador, não cresce muito. Fica pequena e não produz. Então, foi todo um trabalho em cima da genética clássica, que permitiu obter variedades capazes de crescer e produzir em condições mais próximas do Equador, em um clima mais quente e tropical.
Isso veio aliado à correção dos solos do Cerrado e ao conhecimento para lidar com pragas e doenças de climas tropicais. Tudo isso fez parte da conquista das regiões de Cerrado no Brasil e da tropicalização da agricultura brasileira, que está sendo um exemplo para o mundo.
Foi com muita ciência, tecnologia e inovação que essas fronteiras foram conquistadas. E, para manter essas conquistas, principalmente diante de um cenário de mudanças climáticas, é importante usar tecnologia de ponta.
O Brasil também precisa começar não só a exportar grãos, como milho, soja e outras commodities, mas a agregar mais valor internamente, para que muito do que a gente gera não vá embora em forma de royalties ou para que essa agregação de valor não seja feita fora do país.
A ciência e a tecnologia, principalmente o investimento na formação de pessoas, são o grande marco da tropicalização da agricultura brasileira.
Mundo Agro: O agro brasileiro é frequentemente apresentado como um caso de sucesso, mas quais serão os grandes desafios científicos e tecnológicos das próximas décadas — especialmente diante das mudanças climáticas, da necessidade de aumentar a produtividade e da pressão por uma agricultura mais sustentável?
Alexandre Nepomuceno: O Brasil é líder mundial em plantio direto. O plantio direto preserva a água, sequestra carbono no solo e mantém a temperatura do solo mais baixa em um clima mais quente.
A agricultura brasileira, apesar de algumas vezes ser criticada, é uma das mais sustentáveis. O produtor brasileiro é um dos que mais utiliza práticas de sustentabilidade.
O Código Florestal Brasileiro é um dos mais rigorosos do mundo, talvez o mais rigoroso, e obriga o produtor no Sul a preservar 20% da área e, no Norte, 80% da área.
Hoje, não tem quem preserve mais do que o produtor, por força de lei e pela própria compreensão de que é importante preservar os cursos d’água, a diversidade genética e ter áreas de escape, até para diminuir a pressão de insetos e pragas.
São vários fatores que fazem da agricultura brasileira uma agricultura mais sustentável. Foi por isso que, quando eu estava na chefia da Embrapa Soja, nós criamos o projeto Soja Baixo Carbono, que mostra justamente que a maior parte dos sistemas de produção brasileiros de soja é feita em ambientes sustentáveis, que sequestram carbono e reduzem emissões.
Mas o Brasil também tem que usar a tecnologia para agregar mais valor. Por exemplo, mexer na qualidade do óleo de soja. Nós estamos usando a tecnologia, a edição gênica e o CRISPR, aqui na Embrapa Soja, para fazer um óleo de soja de melhor qualidade.
É isso que o Brasil tem que continuar fazendo. E só vai fazer isso com ciência, tecnologia e investimento em pessoas, em cérebros.
O Brasil é um caso de sucesso porque usou ciência e tecnologia para adaptar os solos de uma região como o Cerrado, que antes não era considerada adequada para quase nenhum uso agrícola. Foi muita ciência e tecnologia, formação de pessoas, adaptação de tecnologias e criação de soluções específicas para o Cerrado.
Os desafios estão aí. As mudanças climáticas vão acabar causando, talvez, problemas mais sérios em países em desenvolvimento de áreas tropicais. Vai acontecer no mundo todo, mas a gente prevê aumento de temperaturas e de eventos extremos, tanto secas prolongadas e altas temperaturas quanto períodos de muita chuva, como tivemos recentemente no Rio Grande do Sul, em 2024.
Então, você tem que se preparar antes, seja por meio da genética das plantas, fazendo plantas mais adaptadas a essas condições, seja pelo melhoramento clássico, usando transgênicos ou edição gênica. Todas essas ferramentas têm que ser utilizadas.
Mas, mais que isso, você tem que preparar melhor o solo, proteger os ambientes e fazer uma agricultura sustentável.
Tanto a transgenia quanto a edição gênica são grandes tecnologias que permitem agregar valor, resolver problemas e melhorar a qualidade dos produtos.
Infelizmente, no caso dos transgênicos, houve toda uma polêmica quando eles entraram na agricultura, que acabou limitando seu uso a poucas empresas e culturas. Hoje, são basicamente commodities, com duas características: resistência a insetos e resistência a herbicidas.
Já a edição gênica é uma ferramenta que permite trabalhar em diferentes rotas metabólicas. Com a evolução do conhecimento sobre genética, o sequenciamento dos genomas e a identificação dos genes que atuam em cada espécie, somados ao CRISPR, tivemos um ganho realmente muito grande. Isso permite trabalhar características que antes não eram trabalhadas com a transgenia.
E, mais que isso, essa legislação mais assertiva que a gente tem visto em vários países tem permitido que mais culturas usem a biotecnologia, como árvores, frutíferas e hortaliças, que nós não víamos na transgenia.
O que a gente está vendo também são mais empresas. Estão surgindo várias startups no mundo usando a edição gênica como ferramenta para gerar diversidade genética, auxiliar na solução de problemas e agregar valor.
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