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Muito além da grama

A evolução tecnológica dos gramados esportivos revela o papel estratégico da Agronomia e da Engenharia no futebol

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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A ciência sob os pés dos craques Foto cedida: Crea-SP

Quando um estádio lotado acompanha uma grande partida de futebol, a atenção costuma se concentrar nos atletas, nas táticas e nos gols.

Poucos percebem, porém, que o espetáculo depende de um excelente gramado. Por trás de cada campo de alto desempenho existe o trabalho integrado de engenheiros e agrônomos, responsáveis por transformar uma superfície natural em um ambiente capaz de suportar uso intenso, garantir a segurança dos jogadores e atender aos rigorosos padrões exigidos pelas competições internacionais.


O Mundo Agro abre espaço hoje para o artigo de Gisele Herbst Vazquez, engenheira agrônoma, diretora técnica do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), doutora em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Jaboticabal, e professora e pesquisadora do Centro Universitário Fundação de Ensino Octávio Bastos (UNIFEOB) e da Universidade Brasil.

Gisele Herbst Vazquez, diretora técnica do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) Foto cedida: Crea-SP

“Quando a bola rola em uma partida de futebol profissional, a atenção do torcedor recai quase inteiramente sobre os atletas e a grandiosidade da arena. Mas o verdadeiro palco do espetáculo — o gramado — é um organismo vivo, submetido a níveis extremos de estresse mecânico e fisiológico. Para os profissionais do Sistema Confea/Crea, a implantação e a manutenção dessas superfícies representam um mercado de altíssima exigência, onde a Agronomia e a Engenharia precisam trabalhar em perfeita sintonia.


O objetivo técnico é inegociável: garantir a estabilidade da base, a segurança absoluta contra lesões e um rendimento de elite para o esporte mais popular do planeta. Uma dúvida muito comum entre o público leigo é se a grama usada no esporte profissional é a mesma empregada no paisagismo residencial. A resposta passa por décadas de intensa pesquisa científica e melhoramento genético avançado.

O desenvolvimento de uma cultivar para o futebol leva anos de cruzamentos controlados, experimentações agronômicas e testes de campo. O melhoramento genético busca selecionar matrizes com características específicas: sistema radicular extremamente denso e profundo, rápida cicatrização de danos foliares e alta densidade de perfilhos. Cultivares consagradas, como as do gênero Cynodon (Bermudas), foram aprimoradas justamente para suportar a força de arranque e o cisalhamento provocados pelas travas das chuteiras, além de tolerarem podas diárias agressivas, muitas vezes na casa dos 15 a 20 milímetros de altura, o que garante a rolagem rápida e perfeita da bola.


A produção de gramas cultivadas configura-se como uma agricultura exótica e de alta precisão, exigindo maquinários e manejos particulares. O papel do engenheiro agrônomo nessa fase é crítico, pois as gramas são culturas perenes e não oferecerão novas oportunidades para corrigir o solo após o plantio; operações como o nivelamento do terreno e a calagem e fosfatagem em profundidade precisam ser exatas na primeira intervenção.

Já na ponta final, dentro dos clubes e estádios, o engenheiro agrônomo assume o cargo de Groundsman (Gestor do Gramado). Ele é o responsável direto por orquestrar a física do solo e a biologia da planta. Sua rotina envolve análises diárias de compactação, programação de aeração mecânica (com pinos sólidos ou vazados para descompactar o solo), topdressing (cobertura com areia para nivelamento) e o controle milimétrico da irrigação.


Ao analisarmos a evolução estrutural dos campos de futebol, a comparação entre os gramados da Copa do Mundo do Brasil (2014) e as tecnologias em implantação para o evento de 2026 (Estados Unidos, Canadá e México) ilustra o abismo tecnológico que a Engenharia e a Agronomia transpuseram em pouco mais de uma década.

Em 2014, o Brasil consolidou a prática do overseeding (sobressemeadura). Como o evento ocorreu no inverno, as arenas aplicaram sementes de clima frio (Ryegrass) sobre a base da grama Bermuda original, garantindo a cor e a densidade exigidas pela Fifa.

Para o mundial de 2026, a Engenharia subterrânea tomou o controle para criar ecossistemas altamente controlados. No estádio de Nova Jersey, que sediará a grande final, um campo temporário de grama natural será instalado sobre o sintético original, exigindo a construção de uma base complexa com piso de alumínio, cascalho e areia.

Em Seattle, além do piso modular de alumínio, foi instalada uma camada de drenagem e um sistema inteligente capaz tanto de levar água para dentro do perfil do solo quanto de removê-la rapidamente. Em estádios totalmente fechados ou com altos índices de sombra, como em Atlanta, caminhões refrigerados transportam os rolos de grama, e o uso contínuo de enormes estruturas com luzes de crescimento (grow lights) é obrigatório para manter o gramado saudável por mais tempo.

O nível de adaptação agronômica é tamanho que o Estádio da Cidade do México, pela primeira vez em sua história, converteu seu campo de uma grama adaptada ao calor para uma variedade de clima frio (cool-season), perfeitamente adequada às temperaturas previstas para o torneio.

A Engenharia e a Agronomia provam, a cada campeonato, que a natureza, quando inserida no ambiente extremo de uma arena de futebol, exige intervenção científica de vanguarda. O impacto dos profissionais do Sistema Confea/Crea é o que sustenta o espetáculo. Trata-se de manipular a mecânica estrutural do solo, dominar o melhoramento genético vegetal e integrar sistemas de drenagem e iluminação artificiais, garantindo que as estrelas do futebol mundial possam brilhar com segurança sobre o palco perfeito."

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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