Cartas de crédito para o agro têm alta de 77% no primeiro trimestre
Aumento reflete procura por máquinas de maior porte e tecnologia, como colheitadeiras, tratores e pulverizadores

A modernização das máquinas é uma das estratégias do produtor rural para aumentar a eficiência e ganhar produtividade no campo.
No primeiro trimestre, o valor médio das cartas destinadas ao agronegócio subiu 77%, chegando a R$ 970 mil. O movimento é puxado pela procura por equipamentos de maior porte e com mais tecnologia embarcada.
O Mundo Agro conversou com Thiago Guerra, vice-presidente comercial do Consórcio Embracon.
Mundo Agro: O tíquete médio das cartas de crédito para o agronegócio cresceu 77% no primeiro trimestre. O que explica essa mudança no perfil dos produtores e quais segmentos do agro têm liderado essa demanda por créditos mais elevados?
Thiago Guerra: Essa mudança reflete um movimento de amadurecimento e planejamento estratégico do produtor rural brasileiro. Em um cenário de taxas de juros ainda restritivas no crédito tradicional, o produtor se tornou extremamente seletivo: em vez de pulverizar aquisições menores, ele opta por concentrar recursos em investimentos mais robustos para modernizar a frota com ativos de grande porte e alta tecnologia embarcada.
O aumento do tíquete médio (de R$ 547 mil para R$ 970 mil por cota) registrado pelo nosso levantamento se deve à busca por máquinas que custam a partir de R$ 1 milhão, como colheitadeiras de grande capacidade, tratores de alta potência, pulverizadores e plantadeiras de precisão.
Para viabilizar a aquisição desses bens sem descapitalizar a operação, os produtores têm recorrido com frequência à combinação de cartas de crédito.
Essa demanda por tíquetes mais elevados tem sido puxada principalmente por segmentos de grande escala, como a graneleira (soja e milho), a pecuária intensiva e o setor sucroenergético, que demandam renovação constante de maquinário para manter a eficiência operacional.
Mundo Agro: Mesmo com a redução gradual da Selic, o crédito bancário ainda é considerado caro. Como o consórcio tem se posicionado como alternativa para o produtor rural?
Thiago Guerra: Apesar do ciclo de flexibilização da taxa Selic pelo Copom, o repasse para o custo do financiamento bancário e para os programas oficiais de crédito nem sempre ocorre na velocidade necessária para o campo. Diante do crédito bancário restritivo e encarecido pela cobrança de juros e IOF, o consórcio se consolida como uma ferramenta de planejamento financeiro de longo prazo previsível e sustentável.
Diferentemente do financiamento, o consórcio não cobra taxa de juros, apenas a taxa de administração diluída no prazo do plano. Isso preserva a margem operacional e a saúde financeira da propriedade. O consórcio passa a ser utilizado não para emergências, mas para a renovação programada da frota e expansão de infraestrutura, permitindo que o produtor rural programe lances ou aguarde a contemplação, mantendo a previsibilidade do seu fluxo de caixa.
Mundo Agro: Os dados mostram alta de 44% no volume de crédito comercializado, mas queda no número de cotas vendidas. Essa tendência deve se manter ao longo de 2026 ou há expectativa de retomada da demanda por cartas de menor valor?
Thiago Guerra: A tendência de concentração em créditos de maior valor deve prevalecer ao longo de 2026, sustentada pela necessidade contínua de ganhos de produtividade e ganhos de escala. O mercado de máquinas agrícolas passou a exigir tecnologias de ponta que têm um custo nominal mais expressivo.
A nossa projeção na Embracon para 2026 aponta que a modalidade voltada ao agro deve responder por 7% a 8% do volume total de créditos comercializados pela administradora, cuja meta geral de negócios é estimada entre R$ 50 bilhões e R$ 55 bilhões no ano.
Contudo, não descartamos a coexistência com cartas de menor valor. A demanda por implementos agrícolas menores e utilitários permanece firme, especialmente por médios produtores. O que vemos hoje é uma readequação do portfólio de compras do produtor, priorizando, neste momento, ativos de maior valor agregado e combinando cartas para atingir o valor total do bem desejado.
Mundo Agro: Quais são os equipamentos e máquinas que mais têm sido financiados por meio do consórcio atualmente e como esses investimentos impactam a produtividade e a competitividade das propriedades rurais?
Thiago Guerra: Apenas como contexto, é importante observar que o consórcio difere do financiamento. Enquanto o financiamento envolve a cobrança de juros sobre o crédito concedido, o consórcio é uma modalidade de aquisição planejada, sem incidência de juros.
Os equipamentos que lideram as aquisições via consórcio na Embracon são aqueles de maior impacto na cadeia produtiva e no escoamento da safra: tratores de grande porte, colheitadeiras, pulverizadores autopropelidos, plantadeiras de alta precisão e caminhões de transporte.
O impacto direto desses investimentos é a otimização das janelas operacionais de plantio e colheita. Maquinários modernos reduzem o consumo de combustível, diminuem desperdícios de grãos no campo e aumentam a precisão do uso de insumos (como sementes e defensivos), reduzindo o custo por hectare.
Em um mercado global competitivo e com margens apertadas, a tecnologia embarcada adquirida via consórcio é o diferencial para garantir rentabilidade e um maior faturamento por safra.
Mundo Agro: Na avaliação da Embracon, quais são os principais desafios e oportunidades para o mercado de consórcios voltado ao agronegócio nos próximos anos, considerando o cenário econômico e a necessidade crescente de inovação no campo?
Thiago Guerra: O principal desafio do mercado é cultural e consultivo: levar educação financeira e demonstrar ao produtor rural que o consórcio é a melhor ferramenta para o planejamento preventivo e para a substituição do crédito caro. Trata-se de mostrar que a antecipação de compras via juros altos compromete a rentabilidade, enquanto o consórcio garante a liberação do crédito no tempo certo da necessidade de renovação tecnológica.
Por outro lado, a maior oportunidade reside no enorme potencial de expansão da modalidade dentro do setor produtivo. O Consórcio Embracon tem ampliado sua atuação no segmento agro há cerca de cinco anos e enxerga espaço para crescer significativamente, apoiado na transição do campo para um novo momento da agricultura.
Equipamentos como drones de pulverização, sistemas de automação e conectividade no campo passarão a integrar cada vez mais a pauta de bens consorciáveis, consolidando o consórcio como o principal indutor de modernização e eficiência do agronegócio brasileiro.
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