Exclusivo: Maria da Penha fala sobre os desafios da lei que leva seu nome há exatos 20 anos
Pela primeira vez, Maria da Penha abre as portas de sua casa para uma equipe de TV e compartilha memórias, reflexões e os desafios da lei que transformou a proteção às mulheres no Brasil
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Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, tivemos a oportunidade de encontrar a própria Maria da Penha em dois momentos especiais. O primeiro foi durante uma agenda institucional do instituto que leva o nome dela. O segundo, mais reservado, aconteceu em sua casa, no Ceará.
Ela raramente recebe equipes de imprensa em sua residência, já que integra um programa de proteção à vítima. Foi nesse ambiente, longe dos holofotes, que conversamos sobre sua trajetória, os avanços da lei e os desafios que ainda persistem.
Aos 81 anos, Maria da Penha fala com serenidade, mas com a firmeza de quem dedicou metade da vida para que outras mulheres não precisem passar pelo que ela viveu.

Maria da Penha relembrou, com detalhes, as duas tentativas de feminicídio cometidas pelo então marido, o período em que ficou tetraplégica, o cárcere privado e a fuga planejada com as três filhas pequenas.
Mas a frase que melhor resume sua trajetória talvez tenha vindo quando contou o momento em que decidiu lutar: “Eu vou escrever a minha história, e quem lê a minha história vai condená-lo. Porque, se a Justiça não cumprir o seu papel, o meu livro vai cumprir”.
A condenação do agressor levou 19 anos e seis meses. Nesse caminho, nasceu também um símbolo de resistência.
Seu livro, Sobrevivi… Posso Contar, publicado em 1994, traz detalhes das duas tentativas de feminicídio que sofreu. A obra impulsionou a denúncia internacional na OEA (Organização dos Estados Americanos) e serviu de base para o processo no sistema interamericano.
A partir daí, a história da violência contra a mulher trilharia um novo caminho.
A Lei 11.340 foi sancionada em 7 de agosto de 2006 e é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das três melhores e mais avançadas legislações do mundo no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher.
Mesmo reconhecida internacionalmente, Maria da Penha faz questão de dizer que a lei ainda precisa avançar. Para ela, o combate à violência contra a mulher depende de políticas públicas permanentes, capacitação de profissionais e atenção especial aos pequenos municípios, onde muitas vítimas seguem sem apoio.
Ao comentar os casos de mulheres assassinadas, mesmo com medidas protetivas, foi categórica: “Enquanto morrer mulher com medida protetiva dada, está falho o esquema.” E reforçou que o compromisso precisa ir além das campanhas nas redes sociais.
Durante a conversa, ficou evidente que Maria da Penha enxerga a educação como o principal caminho para mudar essa realidade. Ela defende que a desconstrução do machismo, do racismo e da LGBTfobia comece ainda na escola e acredita que crianças educadas para o respeito constroem uma sociedade menos violenta.
Também fez um apelo às mulheres que vivem em situação de violência: procurar informação, ligar para o Ligue 180, buscar uma pessoa de confiança e denunciar. “Avançar é denunciar e tomar uma atitude”, afirmou.
Ao nos despedirmos, ficou a certeza de que a história de Maria da Penha ainda está sendo escrita. Vinte anos após a sanção da lei que leva seu nome, ela continua defendendo mais políticas públicas, educação e proteção efetiva para as mulheres brasileiras.
Também se emociona ao perceber o alcance da própria luta. “Hoje tem mulheres que não passam mais por violência porque eu contribuí para isso acontecer”, afirmou.
Foi justamente para compartilhar essa trajetória que, pela primeira vez, ela abriu as portas de sua casa para receber uma equipe de televisão — um gesto que tornou a entrevista ainda mais simbólica neste momento em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas.
A entrevista exclusiva que Maria da Penha concedeu para a apresentadora Camila Busnello irá ao ar no próximo Domingo Espetacular, dia 9, a partir das 18h30, na RECORD.
Pela primeira vez, Maria da Penha abre as portas de sua casa para uma equipe de TV e compartilha memórias, reflexões e os desafios da lei que transformou a proteção às mulheres no Brasil. A entrevista vai ao ar no Domingo Espetacular, na RECORD
Camila Busnello e Mariana Soares/RECORD
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