Logo R7.com
RecordPlus
R7 Planalto

El Niño e saúde pública: diretora de Ministério fala da importância da ‘antecipação’

O risco do fenômeno ser super forte acende um alerta não apenas pelas secas e chuvas extremas, mas pelos impactos na saúde

R7 Planalto|Edis Henrique Peres, do R7, em BrasíliaOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O fenômeno El Niño, ao aquecer anormalmente as águas do Oceano Pacífico, pode causar impactos significativos na saúde pública devido a eventos climáticos extremos.
  • Agnes Soares, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental, enfatiza a importância da antecipação para mitigar os efeitos do El Niño.
  • O aumento de casos de doenças como a dengue é uma preocupação, pois o El Niño facilita a proliferação de mosquitos transmissores.
  • O Ministério da Saúde está implementando estratégias como sistemas de alerta precoce e mobilização rápida para minimizar os impactos na saúde pública.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Agnes Soares falou de forma exclusiva ao R7 Planalto sobre possíveis impactos do El Niño na Saúde Reprodução/MS - arquivo

O risco de o mundo enfrentar este ano um El Niño super forte acende um alerta para o Brasil não apenas pelos riscos diretos de enchentes, chuvas e secas extremas, mas também pelo impacto que isso causa na saúde da população. O fenômeno climático El Niño é natural e ocorre pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, resultando em mudanças nos ventos e na circulação do ar do planeta. Em meio às mudanças climáticas, contudo, esses fenômenos costumam ser mais extremos.

Ao R7 Planalto, a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, Agnes Soares, destaca uma palavra de ordem para lidar com o tema: antecipação. “Não dá para resolver os problemas quando eles já estão acontecendo, por isso essa necessidade de antecipação”, explica.


Segundo a médica, a principal questão é que o El Niño vai ocorrer em um planeta que já está mais aquecido e que já vem sofrendo efeitos das mudanças climáticas. “Esses efeitos podem ser dramáticos tanto para a saúde das pessoas quanto para os sistemas de saúde. Um aumento de temperatura que não estamos acostumados, com temperaturas extremas e por dias seguidos, além de uma amplitude térmica maior, do risco de temperaturas mínimas também mais baixas, isso tudo traz implicações e demanda um tempo de recuperação para lidar com essas mudanças”, explica.

Por isso, Agnes defende preparar tanto a população — para que se saiba o que fazer em cada momento — quanto o sistema de saúde. “Além do calor, que é um denominador comum, temos outros efeitos: chuvas extremas, mudanças bruscas de temperaturas, ventos fortes, deslizamentos, enchentes, secas… Todas essas situações afetam a saúde direta ou indiretamente. Por isso, o El Niño [e as mudanças climáticas] são um problema de saúde pública”, explica.


A diretora observa que, para reduzir os impactos, é preciso uma articulação de resposta consciente e territorializada, porque cada região está passível de enfrentar um tipo de problema.

Riscos da dengue

Em 2024, o Brasil enfrentou um dos piores momentos da epidemia da dengue, com 6,6 milhões de casos prováveis da doença, depois dos fortes impactos do El Niño daquele ano. Nos parâmetros atuais, o Ministério da Saúde projeta o risco de o país chegar a 1,7 milhão de casos em 2027. Agnes, no entanto, pondera que as “projeções são corrigidas o tempo todo, de acordo com as mudanças que vão sendo percebidas”.


O El Niño afeta a proliferação de arboviroses porque reduz o tempo de amadurecimento de larvas, devido ao calor, enquanto as enchentes, alagamentos e chuvas propiciam um ambiente para proliferação do mosquito. “O aumento de casos de dengue também precisa ser avaliado com outros requisitos como: que tipo de dengue está circulando? Onde? A região tem maior ou menor cobertura vacinal? Quais as outras ações de enfrentamento?”, questiona.

De todo modo, Agnes já alerta que antes a doença causada pelo Aedes aegypti era mais restrita no Brasil, com o Sul não sofrendo de casos da arbovirose, mas, hoje, a doença está em todo o país.


“Trabalhar essas projeções climáticas é uma necessidade dos serviços de saúde. A gente trabalha essa perspectiva, mas é importante também que a vigilância esteja alinhada com a orientação de quem fez o atendimento e garanta a resposta, além da articulação intersetorial”, explica.

Impactos indiretos

Agnes detalha que, além do aumento de algumas doenças, esse período tem como efeito colateral a pressão sobre os sistemas de saúde. Um paciente que precisa de um atendimento por causa de diabetes, pressão, coração ou qualquer outra demanda não associada ao fenômeno climático pode não ter acesso a leitos ou a um suporte mais célere devido à alta demanda das doenças impactadas pelas mudanças no clima.

“A resposta dos estados e municípios deve vir com sistemas de alerta precoce, planos de contingência, sinalização de áreas seguras e mobilização para respostas rápidas. Para lidar com o El Niño, precisamos reduzir o tempo que é necessário para o aporte de cuidados”, explica.

A diretora cita, por exemplo, o risco de casos de seca nos rios da Amazônia que podem reduzir o acesso a algumas comunidades. “Isso tem que ser monitorado antes da seca impedir a chegada de ajuda, para garantir que o transporte ocorra antes e que essa região seja atendida até onde for possível. Por isso é importante acompanhar antes que aquela situação vire uma crise de saúde pública”, alerta.

A seca associada a ondas de calor demanda, também, pontos de hidratação na cidade. Mas novamente a diretora pontua: “Não tem como esses pontos serem instalados no meio da crise. A cidade já precisa tê-los disponibilizados para a população”.

Leia Mais

O que está em curso

Agnes conta que, até o fim do ano, o Ministério da Saúde vai mobilizar nove postos da Força Nacional do SUS. A ideia é garantir que toda região de risco possa ser acessada em até 12 horas pelas equipes, quando necessário, com uma mobilização rápida e assertiva. Além disso, a pasta organizou oficinas sobre o El Niño em todas as regiões do país para discutir o fenômeno e orientar sobre o que pode ser feito.

A pasta também está mobilizando uma rede de centros de informação em saúde e clima. Os postos estão em Porto Alegre, Curitiba, Cuiabá, Belo Horizonte, Belém e Santarém, para citar alguns. “Essas pessoas estão sendo treinadas com os riscos conhecidos, de acordo com cada bioma, pois cada região enfrenta um problema diferente”, diz.

O Ministério da Saúde também lançou um índice de calor extremo, painel que consegue alertar municípios sobre riscos de ondas de calor com até cinco dias de antecedência (confira aqui). Para Anges, é importante entender que os dados de saúde e clima precisam ser analisados em conjunto, para garantir uma resposta mais adequada.

Para a diretora, o diálogo está mais fácil de chegar a quem precisa, porque “não estamos falando de coisas futuras, são coisas que já estamos vivendo. As pessoas já entenderam, por exemplo, que ondas de calor não são um dia de praia, mas que calor extremo mata. As pessoas estão com consciência de que essas mudanças são um problema grave de saúde pública, que é um problema complexo e que demanda respostas intersetoriais”, declara.

Agnes observa, ainda, os riscos dos impactos na produção dos alimentos, que pode colocar pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar, assim como os impactos na qualidade da água em meio aos danos ambientais. Por isso, novamente, o monitoramento é fundamental.

“Não temos uma única solução. A solução é coletiva, multissetorial e intersetorial, com a população participando ativamente e buscando as respostas adequadas.”

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.