Mulheres têm 5 dos 10 maiores votos para a Câmara, mas ficam com 21% das cadeiras
Número recorde de eleitas contrasta com participação feminina de 37% entre as candidaturas e apenas 21,2% das cadeiras da Câmara
2026|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília
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Cinco das dez candidaturas mais votadas para a Câmara dos Deputados nas eleições deste ano são de mulheres. O resultado, porém, não significa que elas tenham alcançado uma representação proporcional na Casa: a partir de fevereiro de 2027, as deputadas ocuparão 109 das 513 cadeiras, o equivalente a 21,2% do total.
Os dez deputados federais mais votados neste ano foram:
- Nikolas Ferreira (PL-MG) - 3.119.318 votos
- Lucas Pavanato (PL-SP) - 3.038.438 votos
- Erika Hilton (PSOL-SP) - 1.596.472 votos
- André Fernandes (PL-CE) - 684.372 votos
- Sâmia Bomfim (PSOL-SP) - 583.107 votos
- Julia Zanatta (PL-SC) - 560.223 votos
- Ana Elisa (PT-MG) - 524.219 votos
- Kim Kataguiri (Missão-SP) - 520.071 votos
- Tabata Amaral (PSB-SP) - 476.383 votos
- Jeffrey Chiquini (Novo-PR) - 425.399 votos
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A bancada feminina terá um aumento de 19 parlamentares em relação à legislatura eleita em 2022, quando 90 mulheres foram escolhidas para a Câmara dos Deputados. O número será o maior já registrado na história da Casa e foi classificado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), como uma “conquista inédita” para a democracia.
Apesar do crescimento de 21,1% no número de deputadas, os homens continuarão ocupando a ampla maioria das cadeiras: serão 404 parlamentares, ou 78,8% da Câmara.
Especialistas apontam desafios
Para a cientista política Evelyn Apolinaria, coordenadora-geral do Observatório do Congresso, a presença de cinco mulheres entre os dez candidatos mais votados mostra competitividade eleitoral, mas não representa necessariamente um avanço geral da participação feminina na disputa por cadeiras.
“O dado dos mais votados indica competitividade, mas não volume. Candidaturas femininas com mais estrutura, muitas vezes com trajetórias prévias no poder público, visibilidade, especialmente nas redes sociais, e apoio partidário, concentram votos e disputam as primeiras posições”, afirma.
Os números mostram que as mulheres ainda são minoria entre os candidatos. Elas representaram 37% das candidaturas à Câmara neste ano, embora correspondam a 51,55% da população brasileira, segundo o Censo de 2022 do IBGE.
Maior bancada, mas ainda minoria
Outro dado relevante é o perfil da nova bancada. Das 109 deputadas eleitas, 59 foram reeleitas, o equivalente a 54% do total. As outras 50 chegam à Câmara para um primeiro mandato na Casa.
Para Apolinaria, o aumento da bancada feminina representa um avanço institucional, mas ainda há obstáculos para transformar o crescimento das candidaturas em maior presença efetiva no Legislativo.
“Houve um avanço institucional, com cotas, regras de financiamento e legislação sobre violência política, mas o ritmo de conversão de candidaturas em cadeiras segue baixo”, avalia.
Advogada especialista em direito eleitoral, Gabriela Rollemberg afirma que o aumento do número de mulheres eleitas deve ser analisado também sob a perspectiva da diversidade de posições políticas dentro da própria bancada.
“A leitura do fenômeno precisa ser equilibrada e sem estereótipos: há votações expressivas em vertentes progressistas e conservadoras. A democracia se fortalece quando acolhemos a pluralidade e reconhecemos a legitimidade do voto popular em todos os tempos”, afirma.
Para Rollemberg, o verdadeiro salto na representatividade do Congresso não virá apenas do aumento numérico de cadeiras, mas da capacidade de promover a cooperação entre as parlamentares.
“Quando superamos divisões rígidas e focamos na construção de convergências entre deputadas de diferentes vertentes, o parlamento ganha em eficiência e a sociedade recebe respostas mais ágeis para suas demandas estruturais.”
Mais pautas para mulheres?
O crescimento da bancada feminina também levanta a discussão sobre o impacto da maior presença de mulheres na definição da agenda do Congresso. Para Rollemberg, o aumento numérico não garante, por si só, a aprovação de medidas voltadas especificamente às mulheres.
Segundo a especialista, parlamentares de diferentes correntes políticas podem construir convergências em torno de temas considerados prioritários para a população feminina.
“A experiência parlamentar no Brasil tem demonstrado algo fundamental: as mulheres na política tendem a ultrapassar barreiras ideológicas e partidárias quando o assunto é a garantia de direitos cruciais e a solução de problemas práticos”, defende.
Rollemberg cita a legislação sobre violência política de gênero e medidas relacionadas à dignidade menstrual como exemplos de avanços que, segundo ela, mostram a possibilidade de articulação entre parlamentares de diferentes posições.
Para a advogada, o desafio da próxima legislatura será transformar o aumento da presença feminina em resultados concretos no Congresso. “A partir de 2027, o protagonismo dessas pautas dependerá justamente dessa disposição para o diálogo pragmático, no qual o compromisso com o resultado sobressai às divergências ideológicas”, conclui.
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