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Câmara terá número recorde de mulheres, mas especialistas veem avanço ainda limitado

Deputadas crescem 21,1%, mas especialistas destacam que mulheres ainda enfrentam obstáculos para chegar a espaços de decisão

2026|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A Câmara dos Deputados terá um número recorde de 109 mulheres em 2027, representando 21,2% do total de cadeiras.
  • Especialistas apontam que o aumento de mulheres na Câmara não significa uma mudança estrutural na política, pois a presença feminina ainda enfrenta barreiras nas estruturas partidárias e de poder.
  • O crescimento da bancada feminina é impulsionado por regras eleitorais que incentivam candidaturas femininas, mas a mudança estrutural depende de maior participação nos espaços de definição de agenda.
  • A continuidade e a renovação das deputadas são vistas como essenciais para uma representação feminina mais forte e competitiva na política.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Mulheres na Câmara dos Deputados
Número de deputadas passa de 90 para 109, mas mulheres ainda serão 21,2% da Casa Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

A Câmara dos Deputados terá uma quantidade recorde de mulheres a partir de 2027, mas o avanço ainda não representa uma mudança estrutural na política brasileira, segundo especialistas ouvidos pelo R7.

A avaliação é que as candidaturas femininas ganharam competitividade com a experiência acumulada por quem já ocupa mandatos e com a aplicação das regras eleitorais que destinam vagas, recursos e tempo de propaganda às mulheres. O aumento da bancada, porém, ainda não foi acompanhado por uma mudança proporcional nas estruturas partidárias e nos espaços de poder que definem a agenda do Congresso.

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No ano que vem, serão 109 deputadas federais, contra 90 eleitas em 2022, um crescimento de 21,1%. Elas ocuparão 21,2% das 513 cadeiras da Câmara. Das eleitas, 59 já são deputadas federais, o equivalente a 54% da nova bancada feminina.

Para o cientista político Gabriel Amaral, o crescimento pode ser explicado por uma combinação entre o amadurecimento das candidaturas femininas e as regras eleitorais que estimulam os partidos a investir nessas candidaturas.

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“À medida que mulheres conquistam mandatos, elas passam a disputar a eleição seguinte com maior visibilidade, estrutura política e acesso a redes de apoio. Isso ajuda a explicar por que o avanço pode ocorrer de maneira gradual: a presença feminina produz condições para que novas candidaturas se tornem competitivas e para que aquelas que já chegaram tenham melhores condições de permanecer”, afirma o especialista.

Amaral, no entanto, pondera que o resultado de uma única eleição não é suficiente para confirmar uma transformação estrutural. “A mudança se tornará efetivamente estrutural quando o crescimento numérico vier acompanhado de maior capacidade de participar dos espaços em que a agenda da Câmara é definida.”

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O cientista político Márcio Coimbra atribui parte do crescimento ao aprimoramento e à aplicação das regras eleitorais. “O aumento no número de parlamentares eleitas é impulsionado principalmente pelo aprimoramento e pela aplicação rigorosa da legislação eleitoral, que estabelece cotas mínimas de 30% para candidaturas femininas e a destinação proporcional obrigatória do Fundo Eleitoral e do tempo de rádio e televisão.”

Para ele, a consolidação dessas regras tem levado os partidos a investir de maneira mais efetiva na viabilidade das candidaturas femininas, aumentando a competitividade das mulheres nas urnas.

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Coimbra também considera que o resultado ainda não representa uma transformação estrutural definitiva. “A alteração será verdadeiramente estrutural quando a presença feminina dispensar a indução de cotas legais, o que exige a democratização interna dos partidos, a superação de barreiras culturais patriarcais e a eliminação das assimetrias no acesso ao poder decisório real dentro das legendas.”

Continuidade do resultado

Outro dado que chama a atenção é a quantidade de deputadas que conseguiram manter o mandato. Das 109 eleitas, 59 já estavam na Câmara, o que corresponde a 54% da bancada.

Para Gabriel Amaral, o índice mostra que a discussão sobre a representação feminina vai além da entrada no parlamento. “A continuidade das atuais deputadas fortalece a presença feminina e permite a consolidação de lideranças, mas uma representação mais ampla também depende da entrada de novas mulheres. O cenário mais favorável é aquele em que permanência e renovação caminham juntas: algumas conseguem transformar o primeiro mandato em carreira política, enquanto novas candidaturas continuam encontrando espaço para entrar.”

Márcio Coimbra também vê no dado um sinal de consolidação das carreiras políticas femininas. “A taxa de reeleição de 54% evidencia a consolidação da vantagem da incumbência entre as mulheres, demonstrando que o exercício do mandato permite a construção de capital político, visibilidade e redes de apoio duradouras.”

Especialista em relações governamentais e professor do Ibmec Brasília, Eduardo Galvão chama atenção para outro aspecto: o número de candidatas à Câmara caiu em relação a 2022, enquanto o número de eleitas aumentou.

Para Galvão, o dado indica um avanço na eficiência eleitoral das candidaturas femininas. “Houve menos mulheres concorrendo, mas uma parcela maior conseguiu transformar candidatura em mandato”, afirma. Ele também destaca o peso da experiência de candidatas que já chegam às eleições com visibilidade, base política e estrutura acumuladas.

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Avanço ainda é limitado

Apesar do crescimento, as mulheres continuarão sendo minoria na Câmara. Serão 109 deputadas contra 404 homens, que ocuparão cerca de 79% das cadeiras.

Na avaliação de Eduardo Galvão, o resultado mostra que existe uma tendência de crescimento da bancada feminina, mas em um ritmo ainda insuficiente para alcançar uma representação proporcional à presença das mulheres na sociedade.

“A tendência mudou. A estrutura ainda não mudou na mesma velocidade”, resume.

O cientista político Gabriel Amaral aponta que as barreiras começam antes da eleição, na seleção de candidatos, na distribuição de recursos, na formação de alianças e no acesso às redes de poder. Segundo ele, aumentar o número de candidaturas não elimina automaticamente essas desigualdades.

“É um avanço expressivo em relação a 2022, mas ainda significa que aproximadamente quatro de cada cinco cadeiras continuarão ocupadas por homens. Talvez a pergunta daqui para frente deixe de ser apenas quantas mulheres conseguem entrar na política e passe a ser em que condições elas conseguem competir, permanecer e exercer poder depois que entram”, diz Amaral.

Eduardo Galvão cita ainda a menor presença feminina nas estruturas partidárias, a dificuldade de acesso a redes tradicionais de poder, a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado e a violência política, inclusive nas redes sociais, como fatores que dificultam a construção de candidaturas competitivas.

“As cotas ajudaram a aumentar a presença feminina nas listas e no financiamento, mas estar na lista não é a mesma coisa que disputar em condições competitivas. O avanço de 2026 é importante porque mostra que a representação feminina está crescendo. Mas ele também deixa claro que o desafio agora é menos sobre preencher candidaturas e mais sobre ampliar o número de mulheres com estrutura, recursos, visibilidade e condições reais de vencer”, afirma Galvão.

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