PF investiga se R$ 2 milhões em emendas indicadas por Frias foram desviados para Dark Horse
Corporação suspeita de circuito financeiro destinado ao desvio de recursos públicos e à lavagem de dinheiro
Brasília|Augusto Fernandes, do R7, em Brasília
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A Polícia Federal e a CGU (Controladoria-Geral da União) identificaram uma série de irregularidades na aplicação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado Mario Frias (PL-SP) a um instituto que tem como presidente a empresária Karina Gama, dona da produtora do filme Dark Horse, obra cinematográfica que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nesta quinta-feira (10), o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino mandou a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão contra Mario Frias e Karina Gama em uma operação que investiga a destinação de emendas parlamentares para o filme sobre a vida de Bolsonaro.
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Segundo a investigação, os recursos indicados por Frias via emenda parlamentar ao ICB (Instituto Conhecer Brasil), que é presidido por Karina Gama, podem ter sido desviados e posteriormente direcionados para a produção de Dark Horse.
A PF e a CGU constataram que os projetos originais para os quais as emendas foram destinadas não foram concluídos ou houve inconsistências na prestação de contas.
Dessa forma, a Polícia Federal sustenta que o conjunto de operações indica a existência de um circuito financeiro destinado ao desvio de recursos públicos, ao favorecimento de aliados e à lavagem de dinheiro.
Outro ponto investigado pela PF é a transferência de ao menos R$ 645,4 mil por Frias para produtora do filme de Bolsonaro.
“Essa circunstância faz com que ele transcenda a condição de mero autor de emendas parlamentares posteriormente desviadas por terceiros, e coloca o parlamentar federal como participante ativo da engrenagem financeira sob investigação, realizando movimentações incompatíveis com sua capacidade econômica conhecida e mantendo relações patrimoniais com integrantes do mesmo núcleo já identificado nas demais frentes investigativas”, diz um relatório da PF que embasou a decisão de Dino.
Assim sendo, já por ocasião da instauração, foram encontrados indicativos da prática de crimes de peculato, fraude em licitação ou contrato, contratação direta ilegal, falsificação de documento particular e falsidade ideológica e uso de documento falso, emprego irregular de verbas ou rendas públicas, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa.
Segundo a PF, Frias e Karina “ocultaram e dissimularam a origem, localização, movimentação e titularidade de valores provenientes de supostos desvios de recursos públicos federais, mediante transferências para pessoas físicas e jurídicas interpostas, emissão de documentos destinados a conferir aparência de licitude às operações e subsequente reinserção dos valores no sistema econômico formal”.
Irregularidades nas emendas
Um dos repasses, de R$ 1 milhão, foi destinado ao projeto Lutando Pela Vida, vinculado ao Ministério do Esporte. De acordo com os investigadores, R$ 457,8 mil foram pagos a uma empresa de uniformes para a compra de tatames e quimonos.
A fornecedora, porém, informou à CGU que os produtos não haviam sido fabricados nem entregues, apesar de documentos apresentados pelo ICB indicarem o recebimento dos materiais.
A investigação também aponta que o instituto não apresentou listas de presença assinadas pelos alunos nem documentação independente capaz de comprovar a realização das aulas de artes marciais previstas para os beneficiários do projeto.
A PF e a CGU identificaram ainda vínculos entre pessoas contratadas pelo projeto e o grupo político de Frias. Entre elas está Rudyge Alex Scatolini Boldrini, que, segundo a investigação, foi doador e prestador de serviços na campanha do deputado em 2022 e também integrava o conselho fiscal do ICB. O relatório aponta ainda a contratação de empresas sem estrutura física ou atividade econômica compatível com os serviços previstos.
Projeto não executado
O segundo convênio, também de R$ 1 milhão, foi destinado ao projeto Jovem Empreendedor, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Nesse caso, os investigadores identificaram indícios de que houve simulação de pesquisas de preços usadas para justificar as contratações.
Segundo a apuração, metadados dos documentos mostram que orçamentos atribuídos a empresas diferentes foram produzidos no mesmo dia, com poucos minutos de intervalo, e por uma mesma usuária. Um dos escritórios que aparecia como responsável por uma das propostas negou ter elaborado o orçamento e afirmou que sua marca teria sido utilizada de forma fraudulenta.
Também foram encontrados casos em que notas fiscais foram emitidas antes ou no mesmo momento em que os respectivos orçamentos e contratos eram registrados no sistema Transferegov, segundo a investigação.
O ICB contratou uma editora e um instituto nesse processo, e a PF identificou vínculos familiares e empresariais entre os responsáveis pelas empresas e Luiza Tessari Rocha Dias, apontada como a terceira maior doadora da campanha de Frias em 2022.
Segundo a investigação, o Jovem Empreendedor terminou sem que os kits pedagógicos previstos fossem distribuídos e sem que os alunos recebessem a capacitação prevista. Por isso, a comissão técnica do ministério rejeitou a prestação de contas apresentada pelo ICB.
A principal suspeita da PF está na movimentação posterior de parte dos recursos. Uma empresa chamada NTT Brasil, pertencente ao mesmo grupo econômico da editora contratada pelo ICB, transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse e pertencente a Karina Gama.
A Go Up Entertainment, por sua vez, movimentou R$ 19.033.071,00 entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período em que recebeu recursos de diversos remetentes, dentre eles a NTT Brasil (R$ 750 mil) e o próprio Deputado Federal Mário Frias (R$ 645,4 mil), sendo que as filmagens da cinebiografia ocorreram entre outubro e dezembro de 2025, coincidindo temporalmente com as movimentações financeiras analisadas.
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