Piadas sobre crise d'água podem prejudicar adversários de Alckmin, dizem especialistas
Professores dizem que nem o tucano tem conseguido debate proveitoso a respeito do tema
São Paulo|Fernando Mellis, do R7

O tema crise d’água está presente desde o começo do ano no noticiário de São Paulo e não poderia ser diferente na campanha eleitoral ao governo do Estado. Porém, alguns políticos passaram a tratar do assunto em tom de deboche, como forma de atacar a atual gestão. Para especialistas ouvidos pelo R7, isso é um grande erro. Eles afirmam que eleitores se convencem com críticas e que querem ouvir soluções práticas.
O coordenador da campanha de Alexandre Padilha (PT) publicou no Twitter uma montagem em que diz que integrantes do PSDB — Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso — são a “turma do balde”, em referência à crise hídrica. Para o consultor em comunicação e marketing político e eleitoral, Carlos Manhanelli, essa estratégia tende a não ser bem-vista pelos eleitores.
— Pode ser negativo. Porque a população não é idiota, sabe que o problema é da natureza. [...] Quando o Padilha levantou a questão da água, ele não subiu nem um ponto. A reação da população foi essa. Estão atacando um problema que, na cabeça das pessoas, não é de governo, é de natureza.
A campanha Paulo Skaf (PMDB) produziu uma paródia do hit do verão Lepo Lepo e publicou em um vídeo no YouTube. “O culpado de verdade já tá aí há 12 anos e não soube resolver. A Cantareira secou de verdade. Vou tomar banho lá no [rio] Tietê. Do meu chuveiro não cai nem uma gota. Já não lavo minha roupa. Não sei mais o que fazer”, diz um trecho da música.
Kleber Carrilho, professor de Planejamento Estratégico de Campanhas Eleitorais na USP (Universidade de São Paulo), observa que o candidato do PSDB lidera nas pesquisas e que esse tipo de ataque da oposição dificilmente tiraria votos dele.
— O eleitor tem uma reação às críticas que é mais ou menos a seguinte: se ele votou no Alckmin nas últimas eleições, e alguém diz que votar no Alckmin é algo errado, ele se sente atacado também. Ele só consegue trocar de opinião no momento em que ele é convencido.
Para o coordenador do curso de Marketing Político e Campanha Eleitoral da USP, professor Victor Aquino, os candidatos não estão sendo convincentes. Ele diz que a crise hídrica vai impactar na eleição, mas a forma como ela está sendo levada ao eleitor pode não ser positiva para nenhum deles, por falta de uma solução prática.
— Os candidatos, sejam eles quais forem, são muito imaturos em termos de discussão dessas questões. Mesmo o candidato situacionista [Alckmin] não aproveita isso. Ele poderia aproveitar um fato negativo para envolver todo mundo, apresentar soluções alternativas de longo prazo. Mas ele não faz, ele se contenta com declarações.
Skaf se justificou e disse que o vídeo foi “para sensibilizar, através de uma brincadeira, que temos um problema verdadeiro”. O professor de marketing político da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Emmanuel Publio Dias, diz que o efeito do vídeo pode ser prejudicial ao candidato.
— A falta d’água é muito mais um problema meteorológico do que gestão. Os paulistas estão cientes do tamanho do problema e o jeito como determinados políticos enfrentam esse problema ou fazem blague dele, [os eleitores] podem pensar que estão gozando da desgraça.
Na semana passada, Padilha disse que o governador vive no “mundo da propaganda” ao negar que haja racionamento de água no Estado. Alguns pontos da região metropolitana têm enfrentado cortes noturnos no fornecimento desde o começo do ano. A Sabesp diz que são problemas pontuais. Para Alckmin, os adversários estão fazendo “muita exploração política” da crise hídrica.

