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Dionisio Freitas fala sobre coberturas marcantes e relembra caçada por Lázaro: ‘Passávamos vários perrengues’

Repórter do Cidade Alerta conta detalhes da cobertura que marcou sua trajetória profissional e que lhe deu projeção nacional

Entrevista|Giovana Sobral, do R7

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Dionisio Freitas revelou desde cedo vocação para a comunicação Edu Moraes/RECORD

Dizem que curiosidade é o primeiro, e talvez principal, degrau para se tornar jornalista. E, para Dionisio Freitas, repórter do Cidade Alerta, esse aspecto foi o que o levou a ocupar o posto de comunicador querido pelo telespectador da RECORD.

Nascido em Recife (PE), Dionisio revelou desde cedo talento e uma forte vocação para informar o público com clareza e autenticidade. Formado em Rádio e Televisão pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e em Jornalismo pelo Centro Universitário Maurício de Nassau, construiu uma base sólida para a carreira na comunicação. Antes de ingressar na televisão, atuou como servidor público no INSS, experiência que antecedeu sua entrada no jornalismo, impulsionada pelas oportunidades na Rádio Transamérica Recife e na TV Guararapes, até chegar à RECORD em São Paulo, onde está hoje.


Tudo mudou durante a cobertura do caso Lázaro, um dos mais emblemáticos da emissora. Dionisio acompanhou de perto a caçada pelo assassino em série que mobilizou a polícia do Distrito Federal, marcando o público, que o entendeu, acolheu e admira até os dias atuais.

Ao R7 Entrevista, ele compartilha sua trajetória e revela quem o inspirou até a chegada ao jornal policial:


R7 Entrevista - Você participou da cobertura do caso Lázaro, um dos mais emblemáticos nos últimos tempos. Como foi essa experiência? Tem algum bastidor que se lembra sobre a caçada ao matador em série?

Dionisio Freitas — O caso Lázaro começa quando uma família é assassinada e eu escuto uma conversa de bastidor de policiais militares falando da ação de um criminoso que vinha agindo em série e que a população estava com muito medo. Ainda não tinha sido divulgado; foi uma cobertura muito difícil, porque não era só levantamento de dados e informações, era muito física. A gente tinha que aguentar longas distâncias para chegar até o local, e passávamos vários perrengues. Era área de cerrado, então a vegetação também não ajudava, o calor, e tudo isso no meio da pandemia, então foi bem complicado conseguir trazer essas informações em tempo real.


Era um desafio não só profissional, mas também pessoal, de poder aguentar tudo aquilo que a gente estava passando. Um bastidor: não tinha banheiro. A gente tentava se virar como dava, no meio do arbusto, no mato, na correria... Era cansativo e bem na época de seca na região de Brasília e do entorno do DF. Às vezes, voltava para casa com areia na sobrancelha; como eu estava de máscara por conta da pandemia, não sentia areia no lábio.

“Foi uma cobertura muito difícil, porque não era só levantamento de dados e informações, era muito física, a gente tinha que aguentar longas distâncias”

(Dionisio Freitas (sobre o caso Lázaro))

R7 Entrevista - Essa caçada foi bem desafiadora...


Dionisio Freitas — Era bem complicado, e claro, as intempéries: calor, muita seca, sol, sede, teve gente que pegou pulga e carrapato selvagem, a gente não tinha onde dormir, as equipes passaram muitos perrengues, e tentar aguentar tudo aquilo nos horários em que ele começava a se movimentar, que para mim foi um dos principais arrebatadores do nosso psicológico, a gente nunca sabia onde ele ia estar e, por várias vezes, ele apareceu muito perto da gente. E logo depois, o momento em que ele foi capturado, eu lembro exatamente. Estávamos eu e a Lorena Coutinho, a gente fazia uma cobertura nacional e, de repente, eu senti falta do barulho dos helicópteros e das viaturas da polícia. Olhei para a Lorena e disse: ‘Você tá ouvindo alguma coisa?’ E ela disse que não. Eu pensei: ‘Cadê as viaturas? Cadê a polícia?’ Foi quando estourou a história e surgiu a informação de que ele tinha trocado tiros e sido morto.

R7 Entrevista - Os telespectadores da RECORD que te acompanharam nessa cobertura e hoje assistem ao Cidade Alerta nem imaginam que um dia você pretendia seguir uma profissão totalmente diferente.

Dionisio Freitas — O meu sonho era ser médico, fazer vestibular, mas logo depois descobri que medicina não era a minha praia. Fiz um teste na escola que mostrava as minhas habilidades e, na época, deu saúde e comunicação. A comunicação sempre foi algo na minha veia desde a escola; eu fazia jornalzinho, escrevia muitos poemas, então acho que surgiu da minha curiosidade eterna e da minha vontade de sempre questionar e perguntar.

Em 2021, Dionisio veio de Brasília para a RECORD com um novo desafio

R7 Entrevista - Em 2021, você veio para a RECORD SP com um novo desafio... Como aconteceu essa mudança?

Dionisio Freitas — Eu sempre quis vir para São Paulo e achei que profissionalmente seria o lugar onde eu poderia me desenvolver; fiz questão de vir. O Lázaro acabou me impulsionando; foi quando tive a oportunidade. Eu lembro que estava dirigindo quando um dos nossos chefes me ligou e perguntou se eu queria vir para São Paulo. Eu já tinha vindo algumas vezes na época da estreia do SP No Ar com o André Azeredo, cheguei a fazer algumas matérias, fiz uma viagem para o Cidade Alerta para fazer uma reportagem especial, sempre alimentava a vontade de vir, meus melhores amigos estão em São Paulo. Eu estava saindo da TV em Brasília quando recebi a ligação perguntando se eu ainda sonhava com São Paulo. Foi uma loucura, eu tive 15 dias para me mudar.

R7 Entrevista — Como chegou ao Cidade Alerta SP?

Dionisio Freitas — O Cidade Alerta veio nesse combo. Quando decidiram me convidar e me trazer de Brasília, eu não sabia para qual jornal iria. Lá eu já fazia o Cidade Alerta. Eu participei da implantação do CA no DF com Henrique Chaves, então foi natural. Eu já apresentava vários programas lá, e, quando surgiu a oportunidade, viram que meu perfil era adequado e eu topei. Foi exatamente isso que fez com que eu entrasse para o jornal. Vieram muitos desafios, mas eu tenho sido muito feliz.

Além das reportagens, Dionisio também comanda o Cidade Alerta aos sábados na tela da RECORD

R7 Entrevista — Além de repórter, você também comanda o Cidade Alerta aos sábados. Como é equilibrar a vida de repórter e apresentador?

Dionisio Freitas — Não tem parte fácil ou difícil em ser repórter e apresentador; quem nasce com o intuito de comunicar se ajusta, mas, claro, o maior desafio é conseguir ajustar a forma de falar e levar a informação até quem está em casa, porque na rua nos preocupamos com o calor do que está acontecendo: a movimentação, eu tenho um cenário que posso mostrar. Já nos estúdios nós temos que contar para quem está em casa o que realmente está acontecendo, sem tirar a forma de conexão com o telespectador. Eu digo que ser repórter e apresentador são dois momentos mágicos que a gente precisa saber aproveitar, e acho que a melhor resposta para o que estamos fazendo é quando ouvimos o feedback de quem está em casa. Eu amo fazer as duas coisas; acho que ser repórter é a porta de entrada para o jornalismo e ser apresentador é o crescimento disso.

“Acho que ser repórter é a porta de entrada para o jornalismo e ser apresentador é o crescimento disso”

(Dionisio Freitas)

R7 Entrevista — Como é a relação com o Reinaldo Gottino, o apresentador titular do Cidade Alerta? O que aprendeu com ele?

Dionisio Freitas — O Gottino é um exemplo de profissional. Minha relação com ele é maravilhosa e ele traz para dentro do Cidade Alerta algo que é muito peculiar a pessoas generosas: ele é um ser iluminado. Ele trouxe a conversa no olho, a sinceridade com repórteres, parceiros; isso faz toda a diferença. Ele quer saber o que já temos, divide conosco a história. Desde que ele chegou, ele incentiva a gente, e posso falar que o Gottino é o meu maior incentivador como apresentador, ele estimula e fortalece o nosso trabalho. Com ele, eu aprendo todos os dias. A gente muda de cidade e encara públicos diferentes, e ele ensina a gente a falar com todo mundo de forma direta e sincera. Ele é o abraço do pai acolhedor que a gente precisa.

“Ele [Gottino] ensina a gente a falar com todo mundo de forma direta e sincera”

(Dionisio Freitas)

R7 Entrevista — Quem é a sua inspiração no jornalismo e fora dele?

Dionisio Freitas — Deus e meus pais, primeiramente. Minha mãe sempre vai ser meu alicerce, meu referencial de resiliência. No jornalismo, tenho alguns: o Henrique Chaves de Brasília, que me moldou, me lapidou para chegar onde cheguei, e o Gottino, que, para mim, é um dos maiores exemplos de jornalismo, conquista, força, inteligência. O Eduardo Ribeiro, do Jornal da Record, quando comecei a carreira, me inspirei muito nele.

Dionisio ao lado da mãe, Cleonice, que ele descreve como seu alicerce e referencial de resiliência

R7 Entrevista — A vida mudou muito na frente das câmeras? Como você lida com o público que te acompanha nas ruas e também nas redes sociais?

Dionisio Freitas — Não mudou nada. Continuo sendo o mesmo Dionisio do dia a dia, que trabalha. O que eu acho legal é que, nas ruas, as pessoas reconhecem nosso trabalho. Costumo dizer que ser reconhecido na rua não é “virar famoso”; no meu caso, enxergo como ser reconhecido quando as pessoas chamam meu nome e comentam as minhas reportagens. O que passa na minha cabeça é a sensação de dever cumprido, de que consegui passar a mensagem da forma correta e atingir vários níveis sociais; consegui amadurecer em relação a contar as histórias. Nas redes sociais, não tenho seguidores, tenho amigos que me apoiam com minhas postagens, e trocamos experiências, ouvimos desabafos... O que mudou é que eu deixei de ser o Dionisio, amigo das pessoas próximas, para ser o Dionisio, amigo de todo mundo. Nas férias, passei pela experiência de ter meu trabalho reconhecido nos Estados Unidos, por pessoas que moram lá. Sinal de que estou trabalhando certo.

“Eu deixei de ser o Dionisio amigo das pessoas próximas, para ser o amigo de todo mundo”

(Dionisio Freitas)

R7 Entrevista — Você tem especialização em Ciências Políticas, como veio esse desejo?

Dionisio Freitas — Eu acredito que contar as histórias que nós contamos não é só apurar e levantar dados da pessoa entrevistada. O jornalismo tem uma responsabilidade social, e, para entender e contar uma história contextualizada, ter o embasamento técnico, eu fiz questão de fazer cursos: bacharelado técnico em gestão pública, para entender como funcionam as políticas públicas e poder ajudar, de alguma forma, as pessoas que entrevistamos, tanto na questão de segurança quanto na questão de direitos básicos sociais. Sou inquieto.

R7 Entrevista — Você também tem um blog no Portal R7. Como e quando surgiu a vontade de escrever sobre assuntos cotidianos?

Dionisio Freitas — O DiFato, Tudo Importa! surgiu de uma conversa com o próprio grupo RECORD. Perguntaram se eu toparia ter um blog para falar não só do que a gente vê na rua, mas do que afeta, de alguma forma, a vida das pessoas: falar olho no olho, seja por escrita, por vídeo. Então o blog é falar que, de fato, tudo importa. É esse o nosso compromisso de levar informação mais criativa e objetiva para quem está do outro lado.

Dionisio durante cobertura pela RECORD Brasília

R7 Entrevista — Além do caso Lázaro, você também esteve à frente do caso Gael, e sofreu, inclusive, tentativa de agressão pelo pai do padrasto suspeito de torturar a criança durante a cobertura do caso. Como foi?

Dionisio Freitas — Todo caso com criança me revolta e me deixa muito triste. Esses dias eu estava assistindo às matérias que eu já fiz na vida e fiz o caso de uma menina chamada Kalyane. Ela tinha um melanoma que se espalhava pelo corpo e, por conta disso, ela foi abandonada. Foi um dos casos que mais me deixaram triste, porque foi quando percebi que tem muitos pais que não merecem ser pais, e a menina foi abandonada ao lado da irmã em uma casa vazia. Uma vizinha começou a cuidar delas. Eu até digo que um dia queria reencontrar a Kalyane; fiz isso no Ceará. Então é uma das histórias que mais me marcaram. Fora que todo dia a gente mostra violência e as pessoas chorando. Eu fiz uma vez um menino em Brasília que morava dentro de um carro e a gente conseguiu ajudar.

Aqui em São Paulo, quantas vezes fizemos casos de pessoas que dormiam na rua, no frio... Ali na Praça da Sé teve um senhorzinho que, sem querer, mostramos na televisão e conseguimos ajudar. Acho que todos os dias as matérias que fazemos nos marcam muito; elas mostram um lado que infelizmente é o lado ruim do ser humano, que muitas vezes é abandonar o seu próprio. A história do Gael sempre me revoltou. Os pais fizeram muita maldade com ele, o padrasto, a mãe. E o pai desse padrasto ainda quis encobrir a maldade do filho e tentou partir para cima da gente. Me machuca fazerem isso; tanta gente quer ser pai e mãe e não pode, e quem tem esse privilégio termina fazendo essa maldade.

R7 Entrevista — Como você vê a evolução do jornalismo policial ao longo do tempo?

Dionisio Freitas — Acho que nós vamos perder o título de policial, porque tudo interfere nas nossas vidas e, infelizmente, a violência é o maior dos males, acontece em qualquer sociedade deste planeta. Então, não é “jornalismo policial”, é o jornalismo do dia a dia. Acho que vai evoluir. Saímos de uma cobertura focada nas imagens que fazíamos antigamente das nossas câmeras, migramos para as imagens que estão na era do celular, estamos chegando ao imediatismo da notícia e, claro, acho que com o tempo seremos grandes detentores do poder de cobrar dos governos políticas públicas essenciais para o fim da violência.

Mostrávamos mulheres vítimas da violência por serem mulheres. Isso deixou de ser homicídio para virar feminicídio, e temos que lutar para que sejam cobranças maiores para todos os níveis da sociedade. Eu acho que temos o poder de tentar trazer paz para uma sociedade que, infelizmente, ainda é marcada pelo ‘eu quero, eu mando, eu faço’. A gente tem que acabar com isso e ser [uma sociedade] igualitária e respeitosa, então o jornalismo policial vai ser a busca pela paz. Vamos evoluir para deixar de citar casos e virar as principais fontes de cobrança pela paz.

Dionisio revela que fora das telas deixa de ser o herói e viro o filho, sobrinho, irmão e amigo

R7 Entrevista — Quem é Dionisio Freitas quando está fora do ar?

Dionisio Freitas — Eu brinco que é o Dionisio de Freitas ou então só o Dinho, um cara que gosta de malhar, correr, escrever música. Sempre foi minha paixão cantar, mas ultimamente tem sido minha maior diversão escrever, compor. Amo dormir e fazer comida. Enquanto o Dionisio da TV é acelerado, o de casa quer um pouco mais de paz e trazer para o mundo coisas que sejam gostosas, tanto de ouvir quanto de comer. Eu deixo de ser o herói e viro o filho, sobrinho, irmão e amigo.

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