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‘Dia de jogo é acordar e deixar o bigode na régua’, diz filho de Gaúcho da Copa

Gustavo Fernandes, filho do torcedor-símbolo da seleção brasileira, exaltou o legado do pai e relembrou imagem do choro no 7 a 1

Entrevista|Murilo Prado*, do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Gustavo Fernandes, filho do Gaúcho da Copa, mantém a tradição do pai em Copas do Mundo, mas não estará presente no próximo Mundial devido ao nascimento de sua filha, Eva.
  • Ele destacou a importância do legado de seu pai, Clóvis Acosta Fernandes, conhecido por sua paixão pela seleção brasileira e presença em sete Copas do Mundo.
  • Gustavo valoriza o apoio dos que ajudam a família durante os Mundiais, e relembra a imagem marcante do pai chorando após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha em 2014.
  • Apesar dos 24 anos sem título, Gustavo continua acreditando na seleção brasileira e expressa esperança no hexa em 2026, destacando a importância da conexão com a Copa do Mundo.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Frank Damasceno e Gustavo Fernandes continuam o legado do Gaúcho da Copa Reprodução/Instagram @gauchosnacopa

De bigode, chapéu e uma réplica da taça do mundo, Gustavo Fernandes continua a tradição do pai, o eterno Gaúcho da Copa. Nascido no Rio Grande do Sul, Clóvis Acosta Fernandes foi um torcedor-símbolo do Brasil ao acompanhar a seleção brasileira em sete Copas do Mundo e outras competições até 2015, quando morreu aos 60 anos em decorrência de um câncer.

Gremista fanático, Clóvis percorreu mais de 60 países e assistiu a mais de 150 jogos da Amarelinha. Ao lado do irmão Frank Damasceno, Gustavo segue o legado dos gaúchos na arquibancada.


Nos Mundiais de 2018, na Rússia, e de 2022, no Catar, eles estiveram presentes. No entanto, a Copa deste ano será diferente: a primeira em que apenas Frank estará presencialmente após a morte do pai.

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Em entrevista exclusiva ao R7, Gustavo revelou que não viajará aos Estados Unidos, México e Canadá por um motivo muito especial: a filha Eva nasceu há uma semana.


A taça vai ser minha filha nos braços. Nada é mais importante na vida da gente que o nascimento de um filho. Então, tudo certo, tudo tranquilo, coração bem sereno quanto a isso.

(Gustavo Fernandes)

O primeiro Mundial in loco de Gustavo foi em 1998, junto do pai e do irmão. Em 2010 e 2014, a dose foi repetida ao lado de ambos. Agora, sem o Gaúcho da Copa, ele lembra algumas tradições pré-jogo: “Quando tem Copa do Mundo e eu estou presencialmente, a tradição para o dia de jogo é acordar e deixar o bigode na régua. Fazer a barba bem feitinha, deixar o bigode bem reluzente. Nada de pelo na cara, a não ser o bigode. Dar aquela escovada no chapéu e a polida na taça”.

Gaúcho da Copa e seus dois filhos (Frank e Gustavo) na Copa das Confederações 2013 Reprodução/Instagram @gauchosnacopa

Após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha em 2014, a imagem de Clóvis chorando, abraçado com a réplica da taça, ganhou o mundo. Gustavo afirma que o fato de o pai ter viralizado chorando, justamente no último Mundial, foi um dos motivos para continuar com o legado.


“Foi uma das coisas que mais me motivou a levar a imagem dele para dentro do estádio de uma forma alegre. Porque ele sempre foi um cara muito alegre, reconhecido pelas pessoas pelo carisma, pela alegria, pela cordialidade. E uma coisa que me incomodou muito foi ele ter viralizado chorando”, declarou.

Caminhos até a Copa

A trajetória até a Copa do Mundo nunca é fácil. Mas o caminho sempre é ajudado pelos chamados “anjos” — são pessoas que ajudam a família gaúcha durante os Mundiais. “O que mais me marca é o amor que as pessoas têm por nós e pela história do nosso pai”, afirma o torcedor.


Os “anjos” ajudam os gaúchos, principalmente, com a hospedagem durante o Mundial, e o encontro muitas vezes vem ao acaso. Para a Copa de 2018, por exemplo, um russo encontrou Frank e Clóvis no calçadão de Copacabana antes da final da Copa de 2014, e os convidou para se hospedar na casa dele no próximo Mundial. Mesmo com a morte do Gaúcho da Copa, os filhos aceitaram o convite.

Frank e Gustavo durante a última Copa no Catar Reprodução/Instagram @Gauchodacopa - via Reuters

“Esse cara parou de trabalhar. Pediu férias da empresa dele, falou para o chefe dele quem estava no apartamento dele e falou que tinha que cuidar da gente e nos ajudar. Esse cara botou a gente debaixo do braço, fez absolutamente tudo com a gente”, conta Gustavo.

A história dos gaúchos é reconhecida pela Fifa e já conquistou “países surpreendentes”, como Brunei e Cazaquistão. Sempre nos Mundiais, os gaúchos são abordados por pessoas de diversas partes do mundo, pedindo para que “sigam, façam, mantenham” o legado.

Além do amor pela Amarelinha, a paixão pelo Grêmio também foi passada de pai para filhos, e Gustavo revela que “comemorou demais” a convocação do goleiro do tricolor gaúcho, Weverton, entre os 26 jogadores da seleção brasileira.

Veja a entrevista na íntegra:

R7 - O que a Copa do Mundo representa para você?

Gustavo Fernandes - O cara que não se conecta com a Copa do Mundo, não se conecta com mais nada na vida dele, porque a Copa do Mundo simplesmente é o maior evento do planeta Terra.

O maior evento, seja de cinema, de qualquer esporte, é maior que a Olimpíada, que o Oscar. É o maior evento da Terra.

Então, o cara que não se conecta e não vê importância numa Copa do Mundo, está fora da realidade.

R7 - Quais são as suas expectativas para a Copa deste ano?

Gustavo Fernandes - Eu queria entender o que acontece com esse povo que se distanciou disso. Ficar sem ganhar faz parte. Toda a Copa do Mundo só ganha um.

Para essa Copa, a expectativa é de hexa. Eu nunca vou para uma Copa do Mundo pensando que o Brasil está mal e não vai ganhar. Eu sempre acredito na mística. Eu sempre acredito na mágica da nossa camiseta.

Temos, grandes jogadores que são bons jogadores nos seus clubes. Acho que o que falta é o senso coletivo, formar o grupo, e eu acho que o Ancelotti vai fazer isso. Acho que esse vai ser o grande trunfo dele. São 200 milhões de pessoas esperando por esse título há 24 anos.

R7 - Qual foi a sua primeira Copa do Mundo in loco?

Gustavo Fernandes - Minha primeira Copa do Mundo foi em 1998. Eu tinha 13 anos, uma baita de uma experiência. Depois eu voltei à Copa do Mundo em 2010 e, de lá para cá, eu fui a todas: 2014, 2018 e 2022.

Eu fui pai muito cedo, tive filho com 15 anos. Então, comecei a trabalhar e, por vezes, os meus compromissos acabaram me afastando de alguns eventos.

R7 - Você estará nos Estados Unidos para o Mundial de 2026?

Gustavo Fernandes - Estou com um filho pequeno no colo (o bebê nasceu no dia 2 de junho), mas o meu irmão Frank estará lá. O projeto segue.

A gente tem um projeto forte de manter esse legado, de manter a figura dos gaúchos na Copa, na arquibancada. Mas eu não estarei presencialmente, estarei aqui.

A minha taça vai ser minha filha nos braços. Nada é mais importante na vida da gente que o nascimento de um filho. Então, tudo certo, tudo tranquilo, coração bem sereno quanto a isso.

R7 - Por que ter esperança no hexa em 2026?

Gustavo Fernandes - Eu acredito muito no fato de a gente estar de novo há 24 anos sem ganhar, voltar para os Estados Unidos, uma seleção desacreditada… As pessoas não estão respeitando, acho que o maior erro é não respeitar o Brasil. Todo mundo desrespeitando, tirando a gente para uma geração ruim, ninguém está acreditando.

Eu acho que os dois grandes jogadores (Vini Jr. e Neymar) dessa seleção estão com a faca e o queijo na mão, têm todos os atributos para fazer uma grande reviravolta na sua carreira e vida pessoal.

R7 - Qual a importância de continuar o legado do seu pai, o Gaúcho da Copa?

Gustavo Fernandes - Quando eu fiz a primeira homenagem para ele em 2016, ele tinha recém-morrido em 2015. Era uma final olímpica; nós tínhamos perdido em 2012 contra o México, e eu resolvi fazer uma homenagem para ele. Começou como uma homenagem e as pessoas vieram dizer: “Sigam, façam, mantenham”.

A gente foi entendendo a importância com o passar dos anos. Quando a gente foi à Rússia (2018), as pessoas começaram a perguntar: “Vocês são os filhos do Gaúcho?”. E a gente começou a perguntar para as pessoas de onde elas eram para a gente entender aonde a nossa história estava indo. Dois países foram os mais surpreendentes: Brunei e Cazaquistão.

A história do meu pai transcende gerações. É uma história conectada não só com a seleção brasileira, mas com a Copa do Mundo. Quando se fala de Copa do Mundo, fala-se de torcida, lembra-se do Gaúcho da Copa e dos Gaúchos na Copa agora.

A Fifa reconhece a história familiar dos Gaúchos na Copa como a maior história de torcida. Ela já nos considera uma coisa da Copa. Tu entende a responsabilidade de manter isso vivo? Ela é gigantesca.

Desde estar sempre sorrindo para bater uma foto, estar sempre disposto quando alguém vem querer pegar na taça, ser cordial e tratar essas pessoas com amor e carinho... Meu pai fazia tudo por amor. Tudo por amar a seleção brasileira e o futebol.

R7 - Como surgiu a paixão do seu pai pela seleção?

Gustavo Fernandes - Imagina tu com 15 anos e o Brasil ser tricampeão mundial com aquela seleção. Basicamente, meu pai, nascido em 1954, tinha 16 anos em 1970.

Ele sempre foi apaixonado por futebol e comentava com a gente que foi escutando e vendo imagens e pensou em querer participar e estar [na Copa do Mundo].

Ele era um cara que trabalhava muito e estava com burnout. Já perto de 1990, com quatro filhos, estava assistindo àqueles vídeos que rolam de chamada para a Copa do Mundo e teve um déjà vu. Sentiu como se já tivesse estado naquele lugar e aí aquele sonho de ver o Mundial se acelerou. E aí ele conversou com a minha mãe: “Eu vou para a Copa do Mundo” .

Ele foi para a Copa de 1990 e se encantou com o evento. Ele fala que o cara que é picado pelo bichinho da Copa do Mundo fica doente para sempre. Depois que tu vais uma vez, tu não consegues ficar no sofá. Eu te confesso que é sempre muito difícil quando eu não posso ir, seja lá por qual motivo for.

Jogo é aqueles 90 minutos, mas, para quem está no país da Copa, é o tempo inteiro falando de futebol.

R7 - Qual a sua melhor lembrança de Copas do Mundo?

Gustavo Fernandes - A gente sempre fala que a próxima Copa vai ser a melhor, e a melhor foi a última. Enquanto não começa uma Copa, a melhor Copa da história foi a última que tu fez.

É difícil a gente pontuar, mas eu acho que a gente pode falar das pessoas, todas as pessoas que passaram pela nossa jornada ao longo dessas 10 Copas do Mundo. Os “anjos”, como a gente chama.

O que mais me marca é o amor que as pessoas têm por nós e pela história do nosso pai.

Na Copa de 2018, na Rússia, ficamos na casa do Nick. Esse cara parou de trabalhar. Pediu férias da empresa dele, falou para o chefe dele quem estava no apartamento dele e falou que tinha que cuidar da gente e nos ajudar. Esse cara botou a gente debaixo do braço, fez absolutamente tudo com a gente.

R7 - Você tem algum ritual antes dos jogos?

Gustavo Fernandes - Quando a gente tem Copa do Mundo e eu estou presencialmente nela, a tradição para o dia de jogo é acordar e deixar o bigode na régua. Fazer a barba bem feitinha, deixar o bigode bem reluzente. Nada de pelo na cara, a não ser o bigode. Dá aquela escovada no chapéu e a polida na taça. Esses são os rituais de preparação para o dia de jogo.

R7 - A imagem do Gaúcho da Copa abraçando a taça é muito marcante após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014. Você acredita que essa foi a derrota mais dolorida da seleção brasileira?

Gustavo Fernandes - Não tenho dúvida. É a pior derrota da história do esporte brasileiro. Acho que nenhuma outra teve uma derrota tão dolorida quanto o 7 a 1. Também acho que essa é a marca mais dolorida do povo brasileiro em termos esportivos.

E isso foi uma das coisas que mais me motivou a levar a imagem dele [Gaúcho da Copa] para dentro do estádio de uma forma alegre. Porque ele sempre foi um cara muito alegre, reconhecido pelas pessoas pelo carisma, pela alegria, pela cordialidade. E uma coisa que me incomodou muito foi ele ter viralizado chorando.

Uma das coisas que me motivou a botar o chapéu, o bigode e levar a imagem dele para dentro do estádio foi o fato de que eu sempre estive inconformado com ele ter viralizado chorando.

R7 - Os 24 anos sem título te afastaram de alguma forma da seleção?

Gustavo Fernandes - Nada vai me afastar da seleção brasileira. Tem gente que deixou de acompanhar a seleção por conta de política, porque não convocou o jogador do meu time. Cara, isso não existe. Quem é que deixa de torcer para o seu clube de futebol porque aquele jogador não está representando em campo? Ninguém.

Então é torcer pela camiseta da tua seleção, do país em que tu nasceu. É a tua pátria, é a tua bandeira.

Eu vejo a seleção indiferente contra quem seja, se é um jogo amistoso ou valendo, se é Copa do Mundo, Copa das Confederações ou Olimpíadas, não importa. Eu vou torcer igual e não me interessa se ganhou ou se perdeu no próximo jogo, porque eu não deixei de ser brasileiro. Eu não deixei de amar futebol porque nós tomamos 7 a 1 ou porque nós não ganhamos há 24 anos.

Diferente de qualquer coisa, nada vai me afastar.

R7 - O que achou da convocação do Weverton, do Grêmio, para a seleção?

Eu comemorei demais. Todo mundo diz que os caras não dão bola, mas, quando o teu jogador vai para a seleção, tu ficas feliz. Vi muitos gremistas que dizem que não dão bola para a seleção brasileira, felizes com a convocação do Weverton.

Fico feliz pelo profissional e ser humano que ele é. Merecedor, está jogando muito. Vou te falar que estou até com uma pulga atrás da orelha, que esse cara não acaba sendo titular da seleção.

*Sob supervisão de Camila Juliotti

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