Logo R7.com
RecordPlus
R7 Entrevista

Idosos têm melhora cognitiva com método de ‘ginástica cerebral’, indica estudo da USP

Participantes apresentaram avanços na memória, nas funções executivas e na saúde emocional, revela autora de pesquisa

Entrevista|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília

  • Google News

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Estudo da USP demonstra benefícios da estimulação cognitiva para idosos.
  • Método Supera reduz em 60% queixas cognitivas e 29% sintomas depressivos.
  • Participantes do estudo melhoraram memória e funções executivas em 45% ao longo de um ano.
  • Pesquisadores promovem a adoção de políticas públicas para estimular a saúde cerebral na terceira idade.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Doutora pela Universidade de São Paulo, Thaís Bento é gerontóloga e uma das autoras da pesquisa Junior Rosa/Reprodução - Arquivo

Em meio ao envelhecimento acelerado da população brasileira e ao aumento da preocupação com doenças neurodegenerativas, um estudo conduzido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) tentou comprovar a importância da estimulação cognitiva como estratégia para promover autonomia e qualidade de vida dos idosos.

Publicada recentemente na revista científica International Psychogeriatrics, uma das mais respeitadas da área, a pesquisa concluiu que idosos submetidos ao Método Supera, programa brasileiro que usa ferramentas lúdicas e pedagógicas para promover “ginástica” cerebral, apresentaram melhora significativa na memória, nas funções executivas e na saúde emocional.


Leia mais

Entre os principais resultados do estudo estão a redução de 60% nas queixas cognitivas; a melhora de aproximadamente 45% na memória ao longo de um ano, considerando as funções executivas e a cognição geral; além da queda de 29% nos sintomas depressivos.

Em entrevista ao R7, a autora principal da pesquisa, a gerontóloga e doutora em neurologia pela USP Thaís Bento Lima da Silva, comenta que os resultados mostraram impactos concretos na rotina dos participantes.


“Reduzir queixas cognitivas significa uma menor dificuldade para lidar com atividades complexas, como mexer com dinheiro e fazer transações financeiras. Observamos que estar com o cérebro ativo, por meio de exercícios cognitivos, colabora para diminuir queixas de esquecimentos e falhas de memória”, ressalta.

Metodologia

O estudo foi desenvolvido em colaboração com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e financiado pelo Instituto Supera, segundo informações da EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades) da USP.


A pesquisa integrou um ensaio clínico randomizado e controlado que avaliou a eficácia de um programa de estimulação cognitiva de longa duração voltado a pessoas idosas sem comprometimento cognitivo e sem depressão. Ao todo, 207 participantes saudáveis foram acompanhados ao longo de 24 meses.

Os idosos ficaram distribuídos entre três grupos. Um passou por estimulação cognitiva por meio do Método Supera, durante 18 meses; outro foi o de controle ativo, que recebeu informações sobre envelhecimento e saúde pelo mesmo período; e o terceiro atuou sob controle passivo, submetido apenas a avaliações do estudo.


As intervenções envolveram diferentes estímulos cognitivos, como: exercícios com ábaco, lápis e papel, jogos de cartas, tabuleiro e estratégia, dinâmicas em grupo, além de acesso a uma plataforma online de atividades para exercício em casa.

A pesquisa contou com a participação de estudantes do curso de gerontologia da EACH da USP e gerontólogos treinados. Os trabalhos devem continuar, com adaptação e avaliação do método em diferentes contextos, inclusive de pessoas idosas com baixa escolaridade e aquelas com comprometimento cognitivo leve.

Leia a íntegra da entrevista com a gerontóloga Thaís Bento Lima da Silva, que liderou a pesquisa:

R7 — O estudo publicado na International Psychogeriatrics menciona resultados como a redução de 60% nas queixas cognitivas e a melhora de cerca de 45% na memória dos idosos participantes. Na prática, o que esses números representam na rotina dessas pessoas?

Thaís Bento — Os resultados mostraram que os participantes do grupo de estimulação cognitiva submetidos ao Método Supera apresentaram melhora nas funções executivas, nas habilidades relacionadas ao planejamento de tarefas no cotidiano, na tomada de decisões, na resolução de problemas e na finalização adequada de atividades iniciadas no dia a dia. Além disso, as habilidades em funções executivas são essenciais para manter aspectos necessários à vida em sociedade, como autocontrole e autocuidado.

R7 — Quais os diferenciais metodológicos desse levantamento, considerado um dos mais robustos feitos no Brasil, em relação à estimulação cognitiva em idosos saudáveis?

Thaís Bento — O estudo foi um ensaio clínico randomizado e controlado, que é um tipo de pesquisa aplicada em ciência para testar se um tratamento ou uma intervenção é realmente eficaz. Nesse modelo, os participantes são divididos por sorteio em grupos: um recebe a intervenção [de interesse para o estudo]; outro passa por uma intervenção educativa habitual; e o terceiro conta com um acompanhamento placebo.

Neste caso, nosso objetivo foi testar a eficácia do Método Supera para as pessoas idosas voluntárias, comparando-as ao grupo que recebeu educação sobre envelhecimento e saúde, bem como ao que não teve estímulos nem atividades educativas. Os pesquisadores que fizeram as avaliações neuropsicológicas não sabiam a quais grupos os participantes pertenciam — ou seja, eram “cegos” quanto à condição de cada pessoa da pesquisa. Posteriormente, os resultados foram comparados em cada etapa de avaliação.

R7 — O método combina estímulos cognitivos com atividades lúdicas e interação social. Qual é o peso do componente social, como o convívio em grupo e a criação de rotina, para os resultados observados?

Thaís Bento — O componente social tem um peso importante, pois atua como um fator de motivação para que a pessoa permaneça ativa e com adesão a um determinado tipo de atividade. No contexto da estimulação cognitiva testada neste estudo, o formato presencial e em grupo permitia a socialização e o fortalecimento de vínculos.

Além disso, pessoas idosas são muito cooperativas entre si, de modo que, em momentos de dificuldades dos colegas em algum exercício ou em alguma dinâmica, fora o apoio dos educadores, os participantes se ajudam. Observamos que as pessoas passaram a fortalecer vínculos, e eles se estenderam para além das atividades de estimulação cognitiva, com almoços, passeios coletivos e comemorações em sala de aula dos aniversariantes do mês.

Isso, para pessoas idosas, gera significado de vida e senso de pertencimento, o que reduz a solidão, além de sintomas depressivos e de desânimo.

R7 — Existe alguma relação direta entre a estimulação cognitiva e a saúde emocional no envelhecimento?

Thaís Bento — As pesquisas científicas destacam que a estimulação cognitiva feita em formato presencial e em grupo, como validado em nosso estudo, além de contribuir para um melhor desempenho das habilidades mentais, resulta em melhora no humor, por causa da socialização, do fortalecimento de vínculos e da promoção da sensação de bem-estar, o que gera aumento da autoconfiança. E essa é uma estratégia importante para a promoção da saúde emocional dos idosos.

R7 — Em um país que envelhece e onde o Alzheimer é uma das doenças que mais preocupam a população, de que forma esses estímulos podem atuar para prevenir ou atrasar o declínio cognitivo?

Thaís Bento — A estimulação cognitiva é um tipo de recurso não farmacológico que busca melhorar, otimizar ou manter essa função em pessoas idosas. Nosso objetivo [com a pesquisa] é apresentar fundamentação para a adoção de políticas públicas preventivas e acessíveis, para que as pessoas tenham um processo de envelhecimento saudável, com autonomia e independência, e com a saúde cerebral preservada.

Esse tipo de programa pode fazer parte dos serviços públicos da área social e de saúde do país, para que seja um direito, e não uma escolha, que os cidadãos tenham cuidados preventivos contra o risco de desenvolvimento de demência, como no caso do Alzheimer.

*Estagiária do R7, sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe.

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.