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René Simões explica citação de Neymar como ‘monstro’ e diz que ele ainda pode jogar Copa

Em entrevista ao R7, o ex-técnico também analisou a seleção brasileiro e o trabalho de Carlo Ancelotti

Entrevista|Allef Fonseca*, do R7

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René Simões falou sobre Neymar e o futuro da Seleção Brasileira Reprodução/Instagram

Um dos treinadores mais respeitados e experientes do futebol brasileiro, René Simões construiu uma carreira marcada pela formação de atletas, pelo trabalho de longo prazo e por projetos que transformaram equipes dentro e fora de campo. Com passagens por clubes, seleções de base do Brasil e pela histórica classificação da Jamaica para a Copa do Mundo de 1998, o técnico se tornou uma das principais vozes quando o assunto é desenvolvimento do futebol.

Em entrevista exclusiva ao R7, Simões analisou o momento da seleção brasileira, comentou o trabalho de Carlo Ancelotti ao comando da equipe, defendeu mudanças profundas na formação de jogadores e criticou a falta de oportunidades para atletas revelados nas categorias de base. O treinador também relembrou o trabalho realizado na Jamaica, falou sobre a evolução do futebol africano e revisitou uma das declarações mais marcantes da carreira, envolvendo Neymar.


Para o técnico, o Brasil precisa de um projeto consistente para voltar ao protagonismo no cenário mundial. Segundo ele, o talento do jogador brasileiro continua existindo, mas falta estrutura para desenvolvê-lo.

Veja, a seguir, a entrevista na íntegra:


R7 - Após essa eliminação do Brasil na Copa do Mundo, você enxerga um futuro positivo para as nossas promessas do futebol nesse novo ciclo?

René Simões - Eu vejo tudo como um projeto, com objetivos, metas, processo, ajustes e resultados. Pelo que ouvi até agora, sobre o que a gente pode esperar, eu digo que eu não sei. Porque é mais do mesmo, por enquanto. A única mudança que eu vi até agora é que criaram a seleção sub-16. Mas o que está acontecendo conosco está acontecendo também com o vôlei brasileiro, que há alguns anos, não consegue mais brigar pelos campeonatos mais importantes. Por quê? Porque você olha para o maior estado brasileiro no esporte e não vê mais competições sub-13 e sub-15. Você tem pouquíssimos times. Como é que se começa a formar conceitos? Tem que ser lá embaixo.


R7 - A atuação do Brasil na Copa de 2026 foi muito contestada. Você acha que Carlo Ancelotti é o técnico ideal para continuar no ciclo ou o estilo de jogo dele demonstrou o contrário?

René Simões - Desde que começaram a dizer que era para ter um treinador estrangeiro na seleção brasileira, eu fazia uma pergunta: “Quando uma seleção foi campeã da Copa do Mundo com um técnico estrangeiro?” São 23 Mundiais e nunca um técnico campeão foi estrangeiro. Sempre foi sempre um nativo do país. Nessa Copa, o Thomas Tuchel [alemão, técnico da Inglaterra] poderia ter conseguido, mas a final teve dois nativos dos países. Então, qual é a possibilidade de o Ancelotti ganhar a próxima Copa do Mundo? É muito pequena.


“Qual é a possibilidade de o Ancelotti ganhar a próxima Copa do Mundo? É muito pequena.”

(René Simões)

R7 - Muitos defendem soluções de fora do Brasil. Você acredita que o país ainda produz treinadores capazes de comandar a seleção?

René Simões - Todo mundo fala agora no André Jardine. Eu levantei esse nome. Diziam que nós não tínhamos treinadores, mas tínhamos um excelente. Eu dei aula para os auxiliares do Jardine, que o acompanharam no América do México, e a qualidade deles é excepcional. Eu trouxe o nome dele para a pauta porque eu perguntava: “Cadê o André Jardine?” Campeão olímpico com o Brasil, foi para o México e ganhou tudo. Nós temos outros treinadores por aí também, mas eles não recebem oportunidades.

René Simões comandou as seleções brasileiras sub-17, sub-20 e sub-23, conquistando o bronze na Copa do Mundo sub-20 de 1989 Reprodução/Instagram

R7 - Na sua visão, qual é o maior problema da formação de jogadores no Brasil atualmente?

René Simões - Dizem que não se formam jogadores como antes, mas só se forma um jogador botando ele na arena. E onde é essa arena? Nos primeiros times dos clubes. Só que o time principal tem nove estrangeiros e você não consegue colocar o jogador da categoria sub-20 para jogar. Então, o projeto Brasil tem que contemplar isso. Os jogadores formados na base vão jogar onde? Não pode ter nove jogadores estrangeiros no time principal.

R7 - Existe uma sensação de que o Brasil produz cada vez menos grandes talentos. Você concorda?

René Simões - O problema é a formação de jogadores mesmo. Ninguém vai me dizer que o DNA do futebol brasileiro não está aqui. Ele continua aqui. Agora, como eu vou formar um camisa 10? Dando oportunidade para ele jogar. A mesma coisa vale para laterais, volantes… eles precisam jogar. Dizem que os jogadores saem muito cedo para a Europa. Nós temos essa impressão porque o Brasil exporta muitos atletas, mas nós temos capacidade para produzir ainda mais talentos. Temos que fabricar o dobro de jogadores. Aí podem sair quantos forem. O problema é que eles não recebem oportunidades.

“O DNA do futebol brasileiro continua aqui. O problema é que os jogadores não recebem oportunidades.”

(René Simões)

R7 - O que falta para que os jovens consigam se desenvolver na base hoje para se tornarem grandes atletas como Ronaldo, Romário e tantos outros?

René Simões - Ronaldo e Romário são exceções. São talentos absurdos. Quando aparece um talento desses, mesmo que você faça tudo errado, ele vai despontar. Agora, por que não está aparecendo um craque assim? Porque não dão oportunidade para aparecer. Hoje o menino encontra outras distrações. Ele pode colocar o nome dele na camisa, jogar videogame, sem levar pontapé na canela, sem colocar gesso, sem sofrer uma distensão, porque ainda assim ele está jogando.

Além disso, em tudo que é escola de formação hoje, o menino tem que pagar para jogar. Ronaldo tinha que passar por um vão para pegar um trem, porque não tinha dinheiro. Não ficou na base do Flamengo porque a família não conseguia pagar a passagem. Foi no São Cristóvão que ele apareceu. O Romário começou no Olaria. Olha o que é a falta de oportunidade.

René Simões ao lado de um jovem Lionel Messi, camisa 10 da seleção da Argentina Reprodução/Instagram

R7 - Sua declaração em 2010 sobre a ‘má educação’ de Neymar após o episódio com Dorival Jr., dizendo que o Brasil estava ‘criando um monstro’, ecoa até hoje. Para você, ele se tornou o ‘monstro’ que estava caminhando para ser?

René Simões - Minha filha é psicóloga e conversou comigo. Ela perguntou: “Pai, as pessoas evoluem, pensam, analisam. Você continua usando essa palavra ‘monstro’?” Eu disse que não. Eu tiraria essa palavra. O que eu queria dizer era que ele poderia acabar se perdendo. Quando eu usei ‘monstro’, soou como se ele fosse se tornar o pior do mundo, e não era isso. Eu queria dizer que, se nós não o educássemos desportivamente, ele poderia acabar não conquistando aquilo que o talento dele permitia. E foi o que aconteceu. Ele não ganhou Bola de Ouro, não ganhou Copa do Mundo, enquanto, pelo talento que tem, deveria ter sido o melhor do mundo e campeão do mundo. Ele é bilionário, isso é incontestável, parabéns para ele. Mas quem senta ao lado dos campeões do mundo é só quem levantou a taça também.

“Neymar não ganhou Bola de Ouro, não ganhou Copa. Pelo talento que tem, deveria ter sido o melhor do mundo e campeão do mundo.”

(René Simões)

R7 - Você acredita que Neymar ainda pode conquistar esse legado?

René Simões - Ele ainda não foi campeão do mundo. Ainda pode ser. Ele pode resolver jogar a próxima Copa. Em 2030, vai ter 38 anos. O Messi jogou com 39 anos e fez uma bela Copa, o Cristiano Ronaldo jogou com 41. Então, dependendo do que ele fizer daqui para frente, de como estruturar a parte física e mental e entender que vale a pena ser campeão do mundo por causa do legado, ainda pode acontecer. Porque ele sempre será lembrado pelo jogador que poderia ter sido. Todo mundo reconhece o quanto ele joga. Eu sempre reconheci.

René Simões recebeu a comenda da Ordem do Rio Branco das mãos de Pelé por ter elevado o nome do Brasil levando a Jamaica à Copa de 1998 Reprodução/Instagram

R7 - Você acha que essa imagem que o Neymar passou tem tido reflexo nos jovens jogadores que vieram depois dele?

René Simões - Ele era o maior jogador e continua sendo, em termos de talento. Não tem ninguém que se equipare a ele. Ainda não apareceu. Pode ser que o Estêvão seja o talento que a gente espera que ele seja, o Endrick pode vir a ser um talento como Ronaldo foi. Agora, Neymar influenciou muito essa geração e é uma geração diferente. Hoje em dia tudo funciona de uma forma. A gente vê as entrevistas dos jogadores, e eu não sou contra o jogador se cuidar, só acho que ele tem que tomar cuidado com a imagem que ele passa. Os cremes que eu uso, a harmonização facial que eu faço… É proibido isso? Claro que não, todo mundo faz, agora, fica na tua, faz aí e vamos jogar futebol. Agora quando essas coisas começam a ser mais importantes do que jogar o jogo, aí o problema aparece.

R7 - O peso da camisa da seleção brasileira ainda assusta os adversários?

René Simões - Por enquanto, esse peso está no passado. O Japão ganhou da gente virando um jogo de 2 a 0 para 3 a 2 [em um amistoso em 2025]. Então, que medo eles vão ter? O jogador entra no vestiário e diz: “Você está vendo contra quem a gente está jogando? Vamos lá virar isso.” Quando eu trabalhava nas seleções sub-17, sub-20 e sub-23, os jogadores do outro time perfilavam e ficavam sem cor. Eu sentava no banco e dizia: “Vamos embora, isso aí vai ser de quatro.” Hoje isso não acontece mais.

René Simões comandou a Jamaica na classificação histórica para a Copa do Mundo de 1998, na França Reprodução/Instagram

R7 - Você ficou marcado por classificar a Jamaica para a primeira Copa do Mundo da história do país, em 1998. Qual foi o maior desafio daquele trabalho?

René Simões - O primeiro desafio foi que nunca tinha existido futebol profissional na Jamaica. Eles tinham uma federação que era uma salinha dentro de um ginásio de esportes. Os jogadores eram motoristas de táxi, carregadores de malas. Muitos nem estudavam, nem trabalhavam. O campeonato era disputado em campos de escola cercados por uma corda. Não existia departamento de marketing, de finanças, de seleções, nem de welfare, que cuida das famílias dos jogadores. Era preciso estruturar tudo isso antes de pensar no futebol. Primeiro, foi um desafio de estrutura. Depois, veio o desafio de criar uma identidade com o esporte.

“Os jogadores [da Jamaica] eram motoristas de táxi, carregadores de malas. Muitos nem estudavam, nem trabalhavam.”

(René Simões)

R7 - Você também trabalhou no desenvolvimento do futebol africano. Acredita que um país do continente pode conquistar uma Copa do Mundo em breve?

René Simões - Você pega Costa do Marfim, Egito, Gana… todos já têm tradição em Copa do Mundo e Copa Africana de Nações. Cabo Verde não tinha nenhuma pretensão, mas mostrou uma força interna muito grande. Se você olhar bem, a África já foi um sucesso na Copa do Mundo. Muitos países europeus contam hoje com esse DNA africano. A França é um exemplo, a Espanha também. O melhor lateral do mundo hoje, o Hakimi, de Marrocos, é africano. Eles ainda têm muito para caminhar, mas eu já vejo esse momento mais próximo. Acho que, daqui a umas duas Copas do Mundo, podemos ter um país africano brigando pelo título.

*Sob supervisão de Marcelo Tuvuca

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