Careca diz que Ancelotti resgatou identidade da seleção e comenta debate Messi x Maradona
Ex-atacante do Brasil nas Copas de 1986 e 1990 vê evolução da equipe no Mundial sob o comando do italiano e comparou os craques argentinos
Entrevista|Maria Cunha
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O Brasil avançou às oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 após uma vitória por 2 a 1 sobre o Japão, com um gol de Martinelli nos acréscimos do segundo tempo, e uma primeira fase marcada por certa desconfiança da torcida.
Do outro lado, a Argentina, rival histórica da seleção brasileira, segue entre as favoritas ao título e é liderada por Lionel Messi, maior artilheiro da história das Copas. Nesta sexta (3), a atual campeã do mundo enfrenta Cabo Verde, às 19h, também por uma vaga nas oitavas.
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Em meio às discussões sobre o desempenho das duas equipes, poucos nomes reúnem tanta autoridade para falar do assunto quanto Antônio de Oliveira Filho, o Careca.
Titular do Brasil nas Copas de 1986 e 1990, o ex-atacante viveu capítulos marcantes da história do Mundial. Foi protagonista da geração que encantou os torcedores no México, mas acabou derrotada nos pênaltis para a França nas quartas de final, e enfrentou a Argentina de Diego Maradona em uma das derrotas mais dolorosas do futebol brasileiro, nas oitavas da Copa da Itália.
Ao mesmo tempo, Careca dividia com o craque argentino os gramados do Napoli, onde os dois formaram uma das maiores duplas da história do clube.
Agora, acompanhando a Copa do lado de fora das quatro linhas, o ex-camisa 9 vê uma seleção brasileira ainda em construção.
Para ele, o desempenho da equipe nos primeiros jogos ficou abaixo da expectativa, mas a classificação sobre o Japão mostrou sinais de evolução no trabalho comandado por Carlo Ancelotti. “Teve uma intensidade maior, do minuto inicial até o último, de pressão. Isso fez a diferença.”
Careca vê contrastes entre a seleção atual e o time que defendeu nas Copas de 1986 e 1990, mas considera que o técnico italiano tem conseguido diminuir essa distância.
“A gente realmente tinha alma nos pés e orgulho de vestir a camisa da seleção brasileira. Mas eu acho que o Carlo Ancelotti está resgatando isso nessa geração“
A relação de Careca com o treinador vem de longe. Eles se enfrentaram ainda nos tempos de jogador, e o último jogo de Ancelotti como profissional, pelo Milan, foi um amistoso contra o Brasil — a equipe italiana foi derrotada com um gol do centroavante brasileiro.
Sobre o momento da seleção no ataque, Careca também comentou o desempenho dos jogadores e deu sua visão sobre Neymar. “É nítido que está sem ritmo, sem força, mas é um jogador que o pessoal respeita. Tecnicamente, é um gênio.”
Messi ou Maradona?

Enquanto o Brasil busca espaço entre os favoritos ao título, a Argentina segue como uma das seleções mais fortes da competição e mantém vivo um debate que atravessa gerações: afinal, Lionel Messi já alcançou o patamar de Diego Maradona?
Na opinião de Careca, que acompanhou de perto a trajetória do antigo camisa 10 argentino, a resposta passa por uma distinção importante entre conquistas e talento.
“Em relação às conquistas, o Messi até superou o Maradona, mas como talento, não. Ele é um fenômeno, sem dúvida nenhuma, mas o Maradona era genial. Acho que é insuperável“
Veja a entrevista na íntegra:
R7 - O que você está achando do desempenho da seleção brasileira até agora? Você viu evolução?
Careca - A seleção, inicialmente, não teve nada de progresso, crescimento, nada de qualidade. A gente esperava um jogo mais difícil. Com o Marrocos, foi empate. Depois, o Haiti, fácil. Ainda era um time recuado, mesmo depois de fazer 3 a 0. Com a Escócia, no último jogo da fase de grupos, que a gente esperava que talvez fosse um pouco mais difícil, deram de presente para o Brasil os dois gols.
Agora, no último jogo, contra o Japão, teve uma intensidade maior, do minuto inicial até o último, de pressão, marcando o Japão em cima. Isso fez a diferença, e talvez por isso tenha sido premiado no último minuto, com o Martinelli fazendo o segundo gol.
Apesar disso, o Japão também jogou muito bem, teve grandes oportunidades, e o goleiro do Japão fez grandes defesas. Todo mundo estava na expectativa da prorrogação, talvez até dos pênaltis.
R7 - Quais foram as principais dificuldades da seleção neste início?
Careca - Eu acho que a dificuldade maior da seleção é manter um ritmo ofensivo durante os 90 minutos. Poderia fazer essa pressão alta, dificultando a saída de bola dos adversários e dando menos espaço. Tem seleções melhores, que mantêm essa agressividade e, por isso, vêm conseguindo resultados positivos.
R7 - Como você avalia os atacantes do Brasil?
Careca - Vini Jr. é um jogador que está se dando super bem, fazendo gols que também ajudam a fortalecê-lo perante o grupo. Então, eu vejo que melhorou bastante, mas volto a repetir: os primeiros adversários eram fracos, deram muita liberdade para ele e ele soube aproveitar.
Matheus Cunha entrou e fez gols, mas também não é o 9 que eu gosto e, na verdade, não é um 9. Ele ainda volta para ajudar o meio de campo.
O Raphinha teve a lesão, e infelizmente perdemos esse jogador. Mas é um jogador que, no meu modo de ver, não é decisivo, não faz a diferença.
Nós temos também o Luiz Henrique e o Rayan, que eu manteria para dar mais confiança. Tenho certeza de que ele pode crescer. Também tivemos mudanças no time com a entrada do Endrick.
R7 - E o Neymar? Qual é o peso dele hoje dentro desse grupo?
Careca - Ele entrou no jogo contra a Escócia e é nítido que está sem ritmo, sem força, mas é um jogador que o pessoal respeita. Enfim, precisa pegar ritmo de jogo.
Não sei se ele vai conseguir, mas eu espero que, pelo menos estando no grupo, ele possa ajudar, dar confiança e entrar aos poucos. Se a gente continuar andando de fase, quem sabe ele pode nos ajudar com um ritmo melhor fisicamente, porque tecnicamente é um gênio.
R7 - Falando em ídolos, o Messi já se aproxima do Maradona em termos de idolatria e legado?
Careca - Acho que em relação às conquistas, o Messi até superou o Maradona, mas como talento, não. Ele é um fenômeno, sem dúvida nenhuma, mas o Maradona era genial e tinha uma característica bastante diferente, com uma vibração enorme, muito forte, que o fez ser o maior do mundo por muito tempo.
Então, o Maradona eu acho que é insuperável, mas vejo o Messi com uma qualidade enorme. Com Messi em campo, a Argentina é outra. Sem ele, teve algumas oportunidades, mas erraram passes durante 15 minutos. Parece que o time ficou nervoso. Do mesmo modo como funcionava com o Maradona: a Argentina com ele em campo era de um jeito; sem ele, era uma seleção comum.
O Messi realmente vem fazendo a diferença e torço para que ele continue forte, porque é um exemplo de ser humano e de atleta.
R7 - Em Copas do Mundo, você acha possível o Messi superar o Maradona?
Careca - Em termos de Copa do Mundo, eu acredito sim. O Diego [Maradona] ganhou uma e a Argentina tem chance [de ganhar a segunda com Messi]. Talvez essa Copa do Mundo seja a última chance do Messi de superar o Maradona.
Entre os favoritos, eu vejo a França como uma enorme potência, um elenco bem interessante, uma reposição muito grande, mas a Argentina é uma candidata, como a seleção brasileira também é.
R7 - Você falou sobre diferentes gerações do futebol. O que muda dessa seleção em relação à época em que você jogava?
Careca - Em termos de seleções da nossa época e a atual, muda muito. Eu acho que a gente realmente tinha alma nos pés e orgulho de vestir a camisa da seleção brasileira.
Mas eu acho que o Carlo Ancelotti está resgatando isso nessa geração e espero que seja um final feliz, quem sabe trazendo mais um título para o Brasil.
R7 - Como você avalia o trabalho do Ancelotti na seleção brasileira, levando em conta também a pressão por resultados?
Careca - Se o Ancelotti ganhar, ele se torna um fenômeno. Se não ganhar, passa a ser mais um que teve essa experiência na CBF. Apesar disso, ele já está com um contrato renovado por mais quatro ou cinco anos.
Eu vejo o Ancelotti assim: como treinador de clube, um fenômeno. Já em termos de seleção, não ganhou nada, mas quem sabe ele possa chegar a uma final e trazer o título. Seria realmente o máximo.
Ele resgatou muito a identidade dos jogadores, meio paizão, um treinador que trabalha muito mentalmente, individualmente, cada cabecinha ali dentro. É um treinador de vestiário, que fica muito próximo ao jogador, e aí os caras jogam por ele.
O Ancelotti está indo muito bem. Você vê um cara esforçado para falar a língua, às vezes até cantar o hino nacional. Isso é fantástico. Então, ele caiu nas graças do povo e eu espero realmente que tenha sucesso e, quem sabe, possa trazer o hexa para nós.















