IA: Data centers sustentáveis e regulação são caminhos para reduzir riscos, diz Dora Kaufman
Em entrevista ao R7, especialista afirma que avanço da tecnologia é irreversível na atualidade
Entrevista|João Acrísio e Marcus Francisco, do R7
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Uma das grandes inovações tecnológicas que tomaram conta do mundo nos últimos anos foi o avanço da inteligência artificial. Para o grande público, destaca-se a IA generativa, aquela que pode criar textos, imagens e vídeos.
Ferramentas como o ChatGPT, o Google Gemini e a Meta AI são exemplos de IAs de fácil acesso, que colaboram para a popularidade da tecnologia. Esse crescimento resulta diretamente no aumento dos investimentos na área, com países cada vez mais interessados em espaços que possam abrigar estruturas que melhorem o funcionamento da tecnologia, como os centros de processamento de dados — os famosos data centers.
Os locais de concentração da tecnologia não necessariamente são feitos para abrigar os sistemas de inteligência artificial, uma vez que surgiram com os avanços da computação que revolucionaram o fim do século passado.
Com o crescimento das IAs, os data centers têm se tornado mais focados nessas ferramentas, e acabam por levantar outro debate tão importante quanto os avanços tecnológicos: o impacto ambiental. Para que todo o processamento de dados seja realizado corretamente, é necessário o resfriamento dos servidores, feito essencialmente com água, o que levanta um alerta sobre o gasto excessivo, apesar da falta de dados conclusivos sobre o tema.
Para mergulhar no crescimento da tecnologia e seus impactos — positivos e negativos —, o R7 Entrevista conversou com Dora Kaufman, doutora em mídias digitais pela USP, professora da PUC-SP e pesquisadora dos impactos éticos/sociais da IA. Dora é autora do livro Desmistificando a inteligência artificial, lançado em 2022.
R7 Entrevista — Como você definiria o conceito de inteligência artificial?
Dora Kaufman — A definição é muito complexa. Não existe uma definição universal de inteligência artificial. Eu fiz até um levantamento sobre definições, desde documentos oficiais de governo, institutos, enciclopédias. O que tem em comum entre eles é que todos são muito generalistas. Simplificando: quando você tem uma máquina, quando a gente pensa no que ela está fazendo, se fosse para o humano fazer, precisaria de inteligência. Então isso se caracteriza como um sistema de inteligência artificial.
R7 Entrevista — Para uma eventual regulamentação, qual a importância de uma definição clara do que é a IA?
Dora Kaufman — A definição, de fato, é importante em um processo regulatório. Para quem está desenvolvendo a tecnologia, não tem importância a definição. Mas a regulamentação tem importância, porque, em algum momento, um júri, o juiz, vai arbitrar. Com base na lei, o juiz vai interpretar. Quanto mais clara a lei, melhor vai ser a interpretação do juiz, ou espera-se que seja mais fácil para o juiz interpretar exatamente o que quer dizer a lei. Cada juiz interpreta de um jeito, mas quanto mais clara a lei, menor o gap entre essas interpretações distintas.
R7 Entrevista — O debate sobre o crescimento do uso das IAs carrega outra discussão muito importante: o meio ambiente. Como as duas pautas se relacionam?
Dora Kaufman — Ela tem um paradoxo. Por um lado, ela é positiva do ponto de vista da mudança climática. Por duas razões: primeiro, porque hoje nós acompanhamos e compreendemos a mudança climática em parte por conta da inteligência artificial. Por quê? Porque a inteligência artificial é um modelo estatístico, que permite que você incorpore ao seu processo um conjunto muito grande de dados. Quanto mais dados eu trago, mais eu consigo ter projeções assertivas.
Por exemplo: na Amazônia, hoje, os especialistas acompanham a mudança que está acontecendo. Ao fazer isso, você está usando sistemas de inteligência artificial que são intensivos em dados. A matéria-prima desses sistemas são os dados, e são grandes conjuntos de dados. Nós estamos falando de milhões, trilhões de dados, e para processar esses sistemas robustos em dados, você precisa usar muita computação. Quando você usa muita computação, você precisa de muita energia, e também de água. Tem que ser água potável, senão enferruja o equipamento. Esse é o paradoxo: você tem benefícios, mas, ao usar a inteligência artificial, você tem impactos negativos no meio ambiente.
R7 Entrevista — Mesmo com os possíveis impactos negativos, ainda é possível manter uma “pegada verde” no uso de inteligência artificial e implementação de data centers?
Dora Kaufman — Eu não sei, e acho que ninguém sabe. Durante um tempo, eu fui atrás para tentar achar algum estudo que mostrasse se o resultado é favorável. Eu acho que não tem [estudos], porque é difícil fazer. Imagina, você teria que fazer todo o estudo de todos os impactos positivos, de todos os usos de otimização nas empresas públicas, privadas, nas organizações em geral. Por outro lado, você teria que ter acesso a todos os detalhes do funcionamento do desenvolvimento do processamento e da implementação, que você não tem. Não temos como ter os dados das duas partes.
Eu acho que essa questão talvez nem tenha importância, porque a inteligência artificial é uma realidade. Nós não temos essa escolha. Vamos supor que conseguisse saber que tem mais impactos negativos. Vai parar a inteligência artificial? Não vai. Porque ela tem benefícios enormes, e todos nós estamos usando cada vez mais. Então o que precisa, na minha opinião, é enfrentar o problema. Como enfrentar o problema, por exemplo, do processamento de dados? Criando data centers sustentáveis. Com energia renovável, usando sistemas que substituem a água no resfriamento. Esses sistemas precisam ter recursos para investir e acelerar o desenvolvimento deles.

R7 Entrevista — Hoje você considera a sociedade dependente da IA?
Dora Kaufman — Eu acho que sim. As plataformas e aplicativos que a gente usa no cotidiano existem como modelo de negócio porque usam inteligência artificial. Porque a matéria-prima são grandes volumes de dados. Se a gente pegar desde o aplicativo de GPS, as plataformas de streaming, o Google, as redes sociais, todas elas funcionam com inteligência artificial no âmago do seu modelo de negócio.
Se a gente pegar, por exemplo, cada uma das áreas. Hoje, a área médica está usando inteligência artificial cada vez mais. A soberania e a responsabilidade são do médico, no resultado final, mas a IA é utilizada em conjunto. Mais da metade da prestação de serviços públicos está digitalizada. Parte dela já está usando fortemente inteligência artificial.
Se um processo entra na Justiça, ele é classificado por temas automaticamente, por inteligência artificial. No mercado bancário, muitas das atividades já estão [automatizadas por IA]. Já tem tecnologias avançadas para detectar fraude. A situação seria muito pior se não tivesse.
Eu desconheço uma atividade econômica que não esteja usando inteligência artificial. Não quer dizer que dentro dessa atividade todo mundo está usando, mas ela está permeando tudo. Se não tivesse tantos benefícios, a gente nem estaria falando dela, era só proibir. Mas não tem como fazer isso.
Não tem como reverter e não tem nem como parar, ir mais lentamente, não tem isso. É uma indústria extremamente competitiva, e cada um dos principais atores desse sistema vai trazendo mais novidades para ganhar espaço, preferência, engajamento. O cenário é esse: tentar buscar formas de reduzir os riscos e danos, por meio de regulamentação e de governança dentro das organizações, e por meio da familiaridade e alfabetização das pessoas.
As plataformas e aplicativos que a gente usa no cotidiano existem como modelo de negócio, porque usam inteligência artificial. [...] Não tem como reverter e não tem nem como parar.
R7 Entrevista — Como você vê o uso de inteligência artificial em áreas como a música e cinema?
Dora Kaufman — Música é arte, é comunicação. E é difícil em alguma parte do processo criativo você não usar a inteligência artificial. Se você não usa para compor a música, vai usar na mixagem. Está espalhado. As pessoas editam um texto, produzem alguma imagem, vão lá e interagem com a inteligência artificial. É difícil, hoje, a gente não estar usando inteligência artificial em alguma coisa da nossa produção intelectual, criativa, de trabalho. É o que se chama de tecnologia de propósito geral do século 21. Ela está mudando a lógica de funcionamento da sociedade, a maneira como a gente decide e a maneira como a gente cria.
R7 Entrevista — O uso de IAs pode impactar as eleições deste ano? Você vê isso como uma preocupação?
Dora Kaufman — Me preocupa muito. As pessoas não têm esse conhecimento [de diferenciar conteúdos gerados por IA]. Aconteceu muito na Índia. Na campanha do segundo semestre de 2024, uma das questões que aconteceu muito foi [o eleitor] receber um telefonema do candidato conversando, pedindo voto. Isso tem uma capacidade de convencimento muito grande, de emocionar. Se o eleitor souber que isso é produzido por inteligência artificial, que não foi o candidato que ligou, já ajuda. Mas se o eleitor nem souber que existe essa possibilidade, ele nunca vai questionar.
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