‘Nem passa pela nossa cabeça’, diz Maneva, ícone do reggae, sobre despedida dos palcos
Formado em 2005, um dos principais nomes do reggae nacional encerra sábado (11) turnê que celebra os 20 anos da banda
Entrevista|Monise Souza*, do R7
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Com as turnês de despedida cada vez mais frequentes no mercado musical, o Maneva segue na direção oposta. Depois de mais de duas décadas de estrada, a banda garante que um adeus aos palcos “é uma coisa que nem passa pela nossa cabeça”.
Prova disso é a série de apresentações do Maneva 20 Anos - Origem, que celebra a trajetória de um dos principais nomes do reggae nacional. No próximo sábado (11), o grupo formado em 2005 por Tales de Polli (voz), Felipe Sousa (guitarra), Fernando Gato (baixo), Diego Andrade (percussão) e Fabinho Araújo (bateria) recebe o público para o grande show de encerramento no Espaço Unimed, em São Paulo.
Em entrevista exclusiva ao R7, os integrantes contam que novos projetos já estão a caminho. “Acaba a banda, acaba a vida. A gente quer trabalhar muito ainda para manter esse legado vivo, aceso e glorioso”, afirma Tales, ao enfatizar que “não há nenhuma intenção nossa em mudar o nosso estilo regueiro de ser”.
Após a passagem da turnê pela Europa e o show na capital paulista, o Maneva se prepara para os próximos lançamentos, que incluem um projeto de álbum que será lançado single a single. “A gente sempre sonhou com isso, de poder gravar ao vivo mesmo. É um álbum incrível. Está tudo muito redondo, muito maduro, muito bonito”, entrega.
Conexão além da música

Ao longo dos anos, a relação entre os integrantes ultrapassou a barreira dos palcos. Eles compartilham momentos importantes da vida pessoal, entre casamentos, filhos, separações, mudanças pessoais e amadurecimento profissional. “O Maneva é muito maior do que qualquer picuinha. A gente passou todas as fases da vida adulta juntos. O Maneva sempre foi esse grande mediador nas nossas vidas”, diz o vocalista.
Para Tales, o tempo fortaleceu o projeto coletivo. “O Maneva sempre esteve acima disso, sempre vai estar acima e sempre vai vivenciar isso. [...] Não parece que passaram 20 anos. A gente tem esse frescor de sempre querer trabalhar mais.”
Confira a entrevista na íntegra:
R7 Entrevista — Em meio às turnês de despedida no meio musical, como vocês encaram o futuro do Maneva após 20 anos de banda?
Maneva — (Tales de Polli) Acaba a banda, acaba a vida, é assim. É uma coisa que nem passa pela nossa cabeça. Teve a febre das turnês de despedida, e as bandas que fizeram realmente têm uma história linda, têm uma história magnífica. Só que acho que isso aí não passa pela nossa cabeça. Na minha, pelo menos, não passa. Estou querendo trabalhar muito ainda, fazer muitos shows para manter esse legado vivo, aceso e glorioso.
(Fernando Gato) E a gente é jovenzinho ainda, 20 anos de banda não é nada. Eu vou fazer 45 neste ano. Eu acho que dá para ir até uns 65 ainda, o pessoal poupar mais 20 aninhos.
(Felipe Sousa) Eu vou até cair a guitarra do colo, a hora que não der para segurar a guitarra. E quando não der para segurar, todo mundo se apoia mesmo e toca de outro jeito.
R7 Entrevista — Como vocês explicam a relação entre o reggae e a maneira como incorporam elementos de MPB, pop, samba e outras influências brasileiras nas músicas?
Maneva — (Tales de Polli) Acho que é uma coisa muito natural a gente misturar, usar outros elementos. A gente vive em uma sociedade miscigenada, tem uma mistura já bem forte no Brasil, e acho que isso vai direto para a música também. A gente gosta de misturar, gosta de ter outros elementos além do reggae, e acredita muito que a música foi feita para misturar mesmo, principalmente nessas harmonias mais de MPB, levadas, rítmicas de soul, de rock. É um grande caldeirão aí que a gente vai misturando.
(Diego Andrade) Então, acho que tem de tudo um pouco. Acho que cada um também tem um pouco de cada influência diferente dentro da banda. Somos em cinco integrantes, cada um traz um pouquinho do tempero que ouve em casa, do que ouviu na vida, do que trouxe de bagagem. Essa mistura aí dos cinco também, acho que corrobora muito assim, para o que a gente traz no Maneva hoje.
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R7 Entrevista — Ainda existe uma tensão entre manter a essência do reggae e explorar outras sonoridades. Há um interesse em mudar de estilo, mesmo após tantos anos?
Maneva — (Tales de Polli) Às vezes a gente mistura, às vezes vai estar mais puro no reggae, às vezes vão ter outras influências. Mas, fundamentalmente, a gente é uma banda de reggae, ama o reggae, vive o reggae, respira reggae. E eu acho que não há nenhuma intenção nossa em mudar o nosso estilo regueiro de ser.
(Fabinho Araújo) O que eu acho é que a galera confunde às vezes quando a gente vai lançar um feat, por exemplo, com a Lauana Prado, ou com a galera da Turma do Pagode, confunde muito: ‘Pô, será que o Maneva vai fazer um pagode, vai fazer um sertanejo?’. Não, a gente vai trazer outro estilo musical para dentro do nosso reggae, entendeu?
Então, tem sempre essa: o Maneva vai sair do estilo, vai fazer tal música agora. Não, não vai. A gente vai fazer o reggae e vai tirar o cantor da zona de conforto dele para ficar com a cara do Maneva. E é o que tem ficado. Os feats novos são sensacionais. Tem vários outros lançamentos aí que ficam um mais lindo que o outro.
R7 Entrevista — Como foi viver esse marco de 20 anos juntos, tanto como artistas quanto como parceiros?
Maneva — (Tales de Polli) A gente compartilha muita coisa, inclusive acho que, mesmo bravo um com o outro, a gente nunca deixa a banda em segundo lugar. Eu acho que o Maneva é muito maior do que qualquer picuinha que possa rolar entre a gente, muito maior do que qualquer briga, do que qualquer desentendimento. E o Maneva sempre atua como esse termômetro, esse grande mediador da nossa relação.
A gente não se desentende tanto assim também. A gente está sempre dividindo a vida, problemas, pegando conselhos, e passamos todas as fases da vida adulta basicamente juntos, porque a gente começou a banda com 20, 21 anos. Todos os ‘BOs’ da vida adulta, todo mundo passou junto, e a gente sempre dividiu. O Maneva sempre foi esse grande mediador nas nossas vidas.
(Diego Andrade) É isso, a gente encara como o Maneva viveu tudo isso, fase de namoro, de separações, de filhos, casamento, conquistas, sonhos. Então, acho que o Maneva sempre esteve acima disso, sempre vai estar acima, e sempre vai vivenciar isso de todos. É muito legal. Quando começou a banda, não tinha filho, não era casado. Mas, de resto, todo mundo vivenciou muitos acontecimentos assim. O Maneva vivenciou muitos acontecimentos de cada um. A gente vê a evolução de cada um, como as pessoas mudaram.
R7 Entrevista — Como o Maneva se descreveria após esse tempo? O que mudou do início até aqui?
Maneva — (Tales de Polli) Acho que a gente foi muitos anos independentes, e aí depois vieram os primeiros empresários, a gravadora, outros empresários. Então, acho que a gente está tão focado no business que a gente até esquece um pouco de ser artista e acaba se tornando mais um braço dessa engrenagem chamada Maneva. E, cara, eu vejo Maneva muito como uma empresa muito bem-sucedida, além de ser uma banda incrível.
(Diego Andrade) Eu me sinto um cara realizado. Eu acho que o Maneva é uma banda realizada, experiente, consolidada, só que nunca afrouxa a corda, sabe? A gente sempre quer trabalhar mais, sempre quer mais. Então, quando a gente fala que vai ficar mais 10, 20, 30 anos, não é da boca para fora. A gente tem muita areia ainda para encher esse caminhão.
R7 Entrevista — Pensando um pouco no futuro, vocês já têm novos projetos a caminho?
Maneva — (Tales de Polli) A gente vai fazer lançamentos single a single, e depois, na décima faixa, a gente fecha esse álbum, que é um álbum incrível. Acho que foi a primeira vez que a gente teve a experiência de gravarmos todos juntos. A gente sempre sonhou com isso, de poder gravar ao vivo mesmo, mas ao vivo num ambiente controlado, porque, geralmente, primeiro eu gravo a bateria e o baixo, põe as guitarras, ele faz o baixo, e a gente sempre estava separado. E conseguimos fazer essa parada assim. É outro resultado, é outra temperatura.
Eu acho que está sendo um dos álbuns que eu mais gosto de ouvir. Acho que está tudo muito redondo, está tudo muito maduro, muito bonito.
R7 Entrevista — E como foi a passagem da turnê pela Europa?
Maneva — (Tales de Polli) É uma onda que a gente sente o afeto das pessoas, principalmente que a gente toca majoritariamente para o público brasileiro que está tentando uma vida nova lá. E essa vibe da galera procurar oportunidades melhores, tirar um tempo da batalha do imigrante para poder comungar um show que traz uma sensação de casa, para a gente é motivo de grande honra, mesmo.
A gente sempre adora tocar para essa galera que não está parada, que está sempre se movimentando atrás de uma vida melhor. Sabemos das dificuldades do imigrante no mundo todo, não só do imigrante brasileiro. É uma vida mais dura, mais difícil, mais solitária, e poder tirar um pouco desse peso da galera, para a gente, é sensacional demais.
R7 Entrevista — O que mais representa e une vocês como banda?
Maneva — (Fabinho Araújo) Playlist do Tales.
(Tales de Polli) Eles sempre falam que estão enjoando, mas sempre falam: “Tales, coloca a playlist lá”. Acho que é uma parada legal mesmo, porque acho que geralmente, quando alguém coloca, a gente se une muito para reclamar do outro botando música. Essa é a parada que realmente une as pessoas dentro da banda.
Coloca a música, a galera fala: “Pô, essa música é chata”, o cara já estressa: “Então coloca você aí”. Aí o outro coloca, aí a gente fala: “Continua chata”. Essa é uma coisa que une a gente mesmo.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Júlia Ramos, editora
















