Giro do Apito: novo programa ‘traduz’ polêmicas de arbitragem ao público, diz Maurício Noriega
Em entrevista exclusiva ao R7, comentarista do ‘Esporte Record’ e comandante do ‘Giro do Apito’ falou sobre arbitragem, futuro da seleção e destaques do Brasileirão
Entrevista|Gustavo Guerrero*, do R7

Comentarista dos jogos do Campeonato Brasileiro na tela da RECORD, Maurício Noriega agora também comanda o programa Giro do Apito ao lado do ex-árbitro Sálvio Spínola. Entre tantas polêmicas dentro de campo, por que não pensar em uma atração para discutir os lances e facilitar/traduzir o linguajar da arbitragem?
Quando o VAR (Árbitro de Vídeo) foi introduzido ao futebol brasileiro, muitos torcedores pensaram que os erros dos juízes diminuiriam e seus times não seriam mais “roubados”, o que não passou de uma ilusão. Os erros e as falhas de interpretação envolvendo o VAR e a arbitragem de campo continuam gerando discussões e reclamações constantes dos clubes e torcedores de todo o país.
Em entrevista exclusiva ao R7, Noriega revelou de onde surgiu a proposta do Giro do Apito, analisou o atual cenário da arbitragem brasileira e criticou o futebol nacional como um todo. O jornalista também falou sobre a hegemonia de Palmeiras e Flamengo no Campeonato Brasileiro e avaliou o desempenho da seleção na última Copa do Mundo.
Veja, a seguir, a entrevista na íntegra:
R7 - Como surgiu a ideia de criar um programa para comentar sobre os erros e as polêmicas de arbitragem?
Maurício Noriega - A arbitragem tem essa linguagem meio esquisita, de “lance ajustado” ou “gerou impacto”, então eu propus ao Sálvio [Spínola] falar de uma outra forma sobre arbitragem e traduzir um pouco, porque todos esses termos que eles usam são difíceis de entender. Às vezes, muitos comentaristas usam essas palavras que estão escritas nas regras, nas orientações, e é legal de entender. Então, tive a ideia de fazer o papel de torcedor no programa, cutucando e provocando o Sálvio. E ele gosta disso, ele tem essa facilidade para falar e busca também uma comunicação mais direta.
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R7 - Se temos programa sobre arbitragem, é porque temos lances que dão o que falar. Qual a razão de tantas polêmicas de arbitragem no futebol brasileiro?
Maurício Noriega - O torcedor brasileiro é conspiratório por natureza. Ele sempre acha que o time dele está sendo roubado. E aí, quando tem um erro a favor do time dele, ele finge que não viu. Isso é torcedor, jogador, dirigente, treinador... Geralmente isso acontece. E realmente, acho que é uma arbitragem que precisa de uma reciclagem e renovação. E eu fico muito na dúvida, porque eu não acho que os árbitros sejam ruins. Você vê os árbitros que foram para a Copa do Mundo e lá eles apitaram bem. E aqui no Brasil geralmente eles apitam mal. Os caras atrapalham muito.
“O torcedor brasileiro é conspiratório por natureza. Ele sempre acha que o time dele está sendo roubado. E aí, quando tem um erro a favor do time dele, ele finge que não viu. Isso é torcedor, jogador, dirigente, treinador... Geralmente isso acontece”
R7 - Na Copa, vimos poucas cenas de jogadores em cima do árbitro após faltas e lances interpretativos, enquanto no Brasil, qualquer apito junta um bolo de atletas em cima do juiz. Isso afeta a qualidade da arbitragem brasileira?
Maurício Noriega - Afeta muito. Os caras aqui são muito chatos. Eu diria para você que eles beiram o insuportável, não só os jogadores, mas também técnicos e dirigentes. O Rafinha [executivo de futebol do São Paulo] foi lá reclamar com o juiz no vestiário. Você acha que ele faria isso na Europa? Jamais. Eles querem apitar o jogo e reclamam de tudo. O técnico fica o tempo inteiro xingando bandeirinha, xingando o quarto árbitro. Agora sai lateral com 30 segundos de jogo e eles já estão reclamando. É óbvio que isso leva uma pressão muito grande nos árbitros.
R7 - É possível acabar com essa postura de jogadores, técnicos e dirigentes que afetam a qualidade da arbitragem?
Maurício Noriega - Já estão fazendo uma tentativa de mudança com essas regras que foram aprovadas agora, tardiamente, porque elas já estavam valendo em outras competições. Não sei por que eles demoram tanto aqui para aprovar as coisas. Mas você tem que começar a punir.
Tem jogos aqui no Brasil que são impossíveis de assistir, você não vê o jogo, os jogadores se jogam toda hora. Ele encosta na barriga do cara, e ele acha que vai convencer a gente de que bateu no rosto. Nem encosta nele e ele se joga... Eles querem enganar o tempo inteiro e é só catimba. O goleiro defende a bola com o time dele ganhando, ele se joga e fala que está com dor. Perdão, mas isso é muito chato.
Eu acho que o futebol brasileiro está pedindo socorro. Nós precisamos voltar a pensar no espetáculo, na qualidade do jogo. Não é só ganhar, o jogo tem que ser atraente. Tivemos uma pesquisa recente que diz que 22% dos brasileiros não gostam de futebol e não torcem para nenhum time. Mas não percebem isso. Se não percebem isso aí, como é que vai ficar?
“Eu acho que o futebol brasileiro está pedindo socorro. Nós precisamos voltar a pensar no espetáculo, na qualidade do jogo. Não é só ganhar, o jogo tem que ser atraente”
R7 - O impedimento semiautomático vai funcionar aqui no Brasil?
Maurício Noriega - Eu acho que vai. Tem que funcionar, só precisam mudar o gráfico. O grafismo é muito ruim. Isso que eles estão colocando, aquela imagem que não é em 3D, que não fica lateral, ela não esclarece as dúvidas. Acho que eles têm que melhorar nesse sentido.
R7 - Qual a sua avaliação sobre o VAR desde a chegada ao Brasil?
Maurício Noriega - O VAR é uma experiência que vale a pena, mas que precisamos aprimorar o uso. A crítica que eu faço ao VAR no Brasil é ser muito intervencionista. Ele quer apitar o jogo muitas vezes, se mete onde não tem que se meter. Principalmente no lance interpretativo. O VAR não é para interpretação, mas sim para fatos do jogo. O cara encostou ou não? Se o cara encostou, a decisão é do árbitro. Não é o VAR que tem que convencer o árbitro. Se encostar foi suficiente... se aquilo foi falta ou não... se o empurrão teve impacto ou não, como eles falam. Essa é a minha visão sobre o VAR no Brasil.
“O VAR é uma experiência que vale a pena, mas que precisamos aprimorar o uso. A crítica que eu faço ao VAR no Brasil é ser muito intervencionista”
R7 - O Campeonato Brasileiro figura entre as melhores ligas do mundo atualmente?
Maurício Noriega - É um dos mais competitivos, mas pode ser melhor tecnicamente. Eu acho que ele está em uma encruzilhada. Ou a gente opta por melhorar a qualidade do espetáculo, o nível dos gramados, a iluminação dos estádios, a numeração das camisas, senão... Primeiro, melhorar a qualidade dos jogos, que precisam ser mais atraentes, e depois melhorar o envelopamento do produto. E aí o Brasil pode ser sim uma liga que vai competir com a Premier League (Inglaterra), com a La Liga (Espanha). O Brasileirão pode ser um campeonato mais interessante do que o Campeonato Alemão, o Campeonato Francês, porque aqui tem muito time bom e grande.
R7 - Quem será o campeão desta edição do Brasileirão?
Maurício Noriega - É difícil adivinhar, mas eu acho que tem dois times que são os favoritos de todo mundo, que estão disputando títulos e são muito melhores que os outros: Palmeiras e Flamengo. Mas nenhum deles é muito favorito. Eles são os melhores e devem disputar o título até o final.
O Cruzeiro só não vai entrar nessa briga porque começou muito mal o campeonato. Mas eu acho que esses são os três melhores times: Palmeiras, Flamengo e Cruzeiro. Tem os melhores jogadores e elencos. O Athletico Paranaense faz uma campanha muito boa, porém não sei se tem elenco para competir com o do Flamengo e do Palmeiras.

R7 - Palmeiras e Flamengo vêm sendo os principais clubes brasileiros nos últimos anos. Qual foi o principal fator que ocasionou essa hegemonia?
Maurício Noriega - São times que souberam se organizar melhor do que os outros financeiramente, cada um da sua forma. O Flamengo optou por acertar suas finanças, organizar dívidas e ficar um tempo sem disputar grandes títulos. Isso aconteceu e depois virou uma máquina de arrecadação. Conseguiu tirar do tamanho da sua torcida a arrecadação e montar grandes times. O Palmeiras foi salvo por aquela atitude do Paulo Nobre, que trocou a dívida do Palmeiras pela dívida dele, para que não pagasse os juros exorbitantes que os bancos cobram dos times de futebol, porque o time de futebol é mau pagador. E, a partir dali, modernizou a administração. O Palmeiras virou um time eficiente e passou a arrecadar muito. Também acho que o estádio mudou a vida do Palmeiras. O estádio do time teve uma arrecadação maior e uma força muito grande da torcida. É um estádio que é hostil em relação aos adversários. Não é fácil jogar lá.
A partir disso, eles se organizaram, contrataram, trabalharam bem, cada um do seu jeito. O Palmeiras opta por manter um treinador por muito tempo. Já o Flamengo troca de técnico toda hora. Mas são muito superiores hoje no pensamento de futebol do que as demais equipes. Eu vejo apenas o Cruzeiro com condição de buscar, de quebrar essa hegemonia. Você pode ter uma conquista esporádica aqui e ali. Um ano vai ganhar o São Paulo, um ano vai ganhar o Fluminense, um ano vai ganhar outra equipe.... Mas assim, quem vai ganhar com frequência, se mantiver esse tipo de administração, serão Palmeiras e Flamengo. Eles estão sempre disputando os títulos, sempre estão sendo campeões de alguma coisa. É raro eles ficarem uma temporada sem ganhar algo.
R7 - Quais são os principais jogadores atuando em solo brasileiro atualmente?
Maurício Noriega - Arrascaeta é um jogador muito regular. Pedro é muito bom. Andreas Pereira é um excelente jogador. Flaco López está fazendo muitos gols. O Rodrigo Garro é muito bom jogador. Kevin Viveros está fazendo um ótimo campeonato com o Athletico Paranaense. Gerson e Matheus Pereira são excelentes jogadores. Hugo Souza é um excelente goleiro. John Kennedy é um jogador interessante. Nós temos muitos bons jogadores, mas o que falta no futebol brasileiro são jogadores espetaculares. Temos o Neymar, que é uma atração, mas ele não está mais em seu auge técnico, então eu acredito que faltam esses grandes jogadores.
“Nós temos muitos bons jogadores, mas o que falta no futebol brasileiro são jogadores espetaculares. Temos o Neymar, que é uma atração, mas ele não está mais em seu auge técnico, então eu acredito que faltam esses grandes jogadores”
R7 - Muitos nomes citados não são brasileiros. Por que vemos muitos estrangeiros se destacando no Brasil?
Maurício Noriega - Primeiramente, tem um processo que é o seguinte: alguns jogadores são baratos no mercado sul-americano, principalmente um jogador que aparece na Argentina, no Uruguai, na Colômbia, no Paraguai, no Equador. Esse jogador, para vir para o Brasil, é barato, porque o futebol desse país paga muito menos do que o Brasil paga. Então, pagando um salário que é médio aqui no Brasil, você contrata um jogador desse. O cara vem para cá correndo, porque ele nunca vai ganhar isso jogando fora daqui. Talvez o único clube que possa hoje concorrer com outro clube brasileiro, em média salarial, seja o River Plate.
E aí você tem outras questões de oportunidades. Você vê, por exemplo, o Lingard, o Zakaria Labyad, o Braithwaite, o Bolasie. Esses caras todos que vêm para cá são jogadores que não têm mais um grande mercado lá fora. O próprio Memphis Depay veio para cá porque estava a fim de vir jogar no Brasil e não tem mais um mercado grande na Europa. Nenhum time importante da Europa vai querer contratar um jogador com esse perfil, com essa idade. Principalmente esses europeus.

R7 - Neymar tem condições de atuar na próxima Copa do Mundo, em 2030?
Maurício Noriega - Tecnicamente, ele tem condição. Se você pensar que o Messi jogou uma baita Copa com 39 anos, por que o Neymar não vai jogar? Agora, tem que ver se ele quer fazer isso, se ele tem o desejo ainda de jogar futebol, se ele vai aguentar fisicamente, se ele não vai ter mais nenhuma lesão. Porque a pessoa nunca vai discutir a qualidade do Neymar como jogador. Isso é indiscutível.
R7 - Como você avalia a participação do Brasil na última Copa do Mundo?
Maurício Noriega - O Brasil foi muito mal na Copa em todos os sentidos. Não digo só porque jogou mal e não fez uma grande Copa do Mundo. Tudo foi ruim. Desde a convocação, o planejamento. Foi uma Copa para ser esquecida. Não sobrou quase nada para o Brasil. O que sobra são os jogadores jovens, que podem ser a base de uma nova seleção. Mas foi uma Copa muito, muito fraca.
R7 - Quais jogadores que disputaram esta Copa do Mundo com a seleção não devem mais voltar a ser convocados?
Maurício Noriega - Tem vários que eu acho que já deu o tempo, com todo o respeito. Alisson, Marquinhos, Casemiro, Danilo, Alex Sandro… O tempo já chegou para muitos desses jogadores que completaram o ciclo de Copa do Mundo e foram para as últimas Copas. A minha visão é essa. Não é que eles não sirvam como jogadores. Eles são ótimos jogadores, com carreiras impressionantes na Europa, e merecem ser respeitados. Mas fica difícil jogar a próxima Copa, que é daqui a 4 anos.
R7 - Esperançoso para este novo ciclo?
Maurício Noriega - Não muito. Eu não tenho muita esperança em relação à seleção brasileira. Eu acho que nós temos sérios problemas estruturais no nosso futebol. Temos problemas graves de formação de jogadores. São pouquíssimos dos nossos jogadores que hoje são a grande referência nos seus times. Eu acho que o grande nome que o Brasil tem como referência individual é o Vinícius Júnior. Mas o Vini, para mim, não é do mesmo nível do Mbappé, do Olise, do Kane, por exemplo.
A realidade do Brasil hoje é tentar chegar a uma semifinal de Copa do Mundo. Tentar. Mas precisamos melhorar muita coisa por aqui, principalmente a formação de jogadores. O Brasil parou de formar jogadores para o Brasil; forma jogadores para vender cedo para a Europa.
“A realidade do Brasil hoje é tentar chegar a uma semifinal de Copa do Mundo. Tentar. Mas precisamos melhorar muita coisa por aqui”
R7 - Em entrevista ao Esporte Record, meses antes da convocação, Ancelotti cravou Estêvão no Mundial, que não pôde ser convocado por causa de uma lesão. Qual foi o tamanho da falta que Estêvão fez na Copa?
Maurício Noriega - Ele fez muita falta, mas acho que a história do Brasil na Copa não seria diferente se o Estêvão tivesse jogado. Ele é um excelente jogador, mas é muito jovem. Então não se sabe se ele está perto de atingir o auge. Obviamente, o Brasil teria uma condição diferente de jogo, uma formação tática diferente para o Estêvão. Mas eu não acredito que o Brasil fosse até a semifinal da Copa do Mundo só pela presença dele.

R7 - Se não for o Estêvão, quem deve assumir o protagonismo da seleção brasileira neste novo ciclo?
Maurício Noriega - Antes dele, temos jogadores que estão numa idade de assumir o protagonismo. O Vini Jr. é um deles. Pode-se dizer que ele fez uma boa Copa do Mundo, o que foi surpreendente, porque ele não conseguia jogar bem na seleção antes. Você tem outros jogadores como o Endrick, o João Pedro, que também são muito jovens.
Também temos o Rodrygo, que não pôde jogar a Copa do Mundo, mas tem uma condição pela idade e pela experiência de assumir o protagonismo. O Bruno Guimarães é um cara que fez uma boa Copa do Mundo. Se tem alguma coisa de bom que veio da Copa, foi o desempenho dele, e ele assumiu esse protagonismo. O Estêvão também pode assumir o protagonismo.
R7 - Se olharmos a convocação das Copas em que o Brasil conquistou a taça, a maioria atuava em solo brasileiro. Hoje em dia, quase todos os convocados jogam na Europa. Estamos muito atrás do futebol europeu?
Maurício Noriega - Das principais seleções da Europa, estamos atrás. Não dá para imaginar o Brasil hoje no nível da Espanha, no nível da França, até no nível da Inglaterra. Nas últimas Copas, fomos eliminados pela Bélgica, pela Croácia e pela Noruega. Nenhuma das três é seleção top da Europa e nenhuma das três já ganhou a Copa do Mundo.
A gente está no nível das seleções médias da Europa. É do mesmo padrão dessas equipes pelas quais ele vem sendo eliminado. As tops da Europa não conseguimos enfrentar. Essa é a nossa realidade.
*Estagiário sob supervisão de Juliana Lambert













