‘Não existe evidência de risco de uma nova pandemia’, diz médica sobre hantavírus
Surto recente em cruzeiro internacional deixou autoridades em alerta; infectologista explica particularidades da doença
Entrevista|Giovane Felix
No dia 1º de abril de 2026, o navio de luxo MV Hondius, com bandeira dos Países Baixos, partiu do porto de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, em direção a Cabo Verde, arquipélago próximo à costa noroeste da África, levando a bordo cerca de 150 passageiros e tripulantes de 23 nacionalidades.
Dias depois, a embarcação se tornou palco de um surto de hantavírus que deixou pessoas isoladas a bordo e ganhou repercussão internacional. Até o momento, três mortes foram registradas em decorrência da contaminação: um casal de holandeses e um alemão.
Após semanas de incerteza, protestos de moradores contrários ao desembarque do navio e novas confirmações de casos de hantavírus, o MV Hondius finalmente encerrou sua viagem na última segunda-feira (18), ao atracar no porto de Roterdã, na Holanda.
Vinte e sete membros da tripulação e os profissionais de saúde que ainda estavam a bordo foram colocados em quarentena após o desembarque. A embarcação agora passa por um processo de desinfecção e limpeza.
Hantavírus
De acordo com o Ministério da Saúde, a hantavirose, doença causada pelo hantavírus, ocorre, principalmente, pela inalação de partículas presentes na urina, fezes e saliva de roedores infectados.
Ela se apresenta de diferentes formas, podendo causar desde sintomas inespecíficos e febris até comprometimentos pulmonares e cardiovasculares severos.

Em entrevista ao R7, a médica infectologista Marcela Bandeira, do Hospital Moriah, explica que os casos de hantavírus costumam ser mais localizados e estão, em geral, associados a áreas rurais. Por isso, segundo ela, a possibilidade de uma nova pandemia ligada ao vírus é considerada baixa.
A especialista, no entanto, ressalta que a hantavirose é uma doença grave e que surtos como o registrado no MV Hondius exigem atenção e monitoramento das autoridades de saúde.
Confira a entrevista completa:
R7 - O que é o hantavírus e como ele é transmitido?
Marcela - O hantavírus é um vírus transmitido, principalmente, pelo contato com secreções de roedores silvestres infectados, especialmente urina, fezes e saliva. A sua principal forma de transmissão acontece pela inalação de partículas contaminadas que ficam suspensas no ar, geralmente em locais fechados, empoeirados ou com infestação de ratos.
R7 - Quais doenças são causadas pelo hantavírus? Os casos costumam ser graves?
Marcela - O hantavírus pode causar duas doenças principais: a síndrome cardiopulmonar, causada pelo próprio vírus, que é a forma mais comum no Brasil, e a febre hemorrágica com síndrome renal, mais registrada na Europa e na Ásia. As duas são consideradas graves e podem evoluir rapidamente, exigindo atendimento médico imediato.
R7 - O hantavírus não é um vírus novo. No Brasil, por exemplo, o primeiro caso foi identificado em 1993. Então, por que o recente surto de hantavírus chamou a atenção internacional?
Marcela - O caso chamou atenção internacional por acontecer em um navio de cruzeiro, um ambiente fechado e com circulação de pessoas que, em algumas situações, podem ser de diferentes países. Então, após a pandemia do Covid-19, surtos em cruzeiros passaram a gerar maior alerta sanitário, embora o hantavírus tenha uma forma de transmissão um pouco diferente.
R7 - Como é feito o diagnóstico? Existe tratamento específico?
Marcela - O diagnóstico é feito através de avaliação clínica, exames laboratoriais e testes específicos, como a sorologia, que é a mais utilizada, e o PCR, que é um teste molecular.
Não existe nenhum antiviral específico aprovado para o hantavírus. O tratamento é feito à base de suporte clínico, muitas vezes em terapia intensiva, com controle respiratório e cardiovascular precoce, o que aumenta as chances de recuperação.
R7 - O hantavírus pode passar despercebido? Ele é confundido com quais doenças?
Marcela - No início, o hantavírus pode parecer com qualquer outra virose. Os sintomas iniciais incluem febre, dor no corpo, dor de cabeça, dor nas costas e cansaço. Por isso, ele pode ser confundido com influenza, dengue, Covid-19, leptospirose e outras infecções respiratórias ou febris.
[O hantavírus] pode ser confundido com influenza, dengue, covid-19, leptospirose e outras infecções respiratórias ou febris
R7 - Por que o hantavírus costuma aparecer pouco no debate público, mesmo sendo tão letal?
Marcela - O hantavírus aparece pouco no debate público porque os casos são relativamente raros e geralmente concentrados em regiões específicas, especialmente rurais.
Diferentemente de um vírus com transmissão ampla entre humanos, ele costuma estar mais associado a exposições ambientais pontuais. Mesmo assim, é uma doença que merece atenção pela gravidade dos casos.
R7 - O hantavírus é raro ou existe subnotificação de casos?
Marcela - O hantavírus é raro, porém, sim, pode existir subnotificação, especialmente porque a maioria dos casos está concentrada em regiões rurais, onde nós sabemos que o exame de testagem não está amplamente disponível.
R7 - Há risco de transmissão entre humanos ou isso depende da variante?
Marcela - Depende da variante, mas, de forma geral, o registro de transmissão entre pessoas é limitado.
R7 - Existe risco real em cidades grandes ou o vírus continua mais associado a áreas rurais?
Marcela - O risco maior é nas regiões rurais, porque a maior parte dos roedores que transmitem a doença são silvestres. Em grandes cidades, o risco é bem menor, mas pode existir em ambientes com infestação importante de ratos e condições inadequadas de higiene e armazenamento de alimentos.
R7 - Podemos comparar o hantavírus com a Covid-19 em algum aspecto ou isso é exagero?
Marcela - Comparar diretamente o hantavírus com a Covid-19 seria um exagero, porque as doenças têm formas de transmissão diferentes. Por exemplo, enquanto a Covid-19 é uma doença cuja principal via de transmissão é respiratória, o hantavírus precisa de contato para inalar as secreções dos roedores.
R7 - O medo de uma nova pandemia é justificável nesse caso ou estamos diante de um risco mais localizado?
Marcela - Neste momento, não existe evidência de risco de uma nova pandemia causada pelo hantavírus, como foi a Covid-19. O cenário atual aponta para riscos mais localizados e associados à exposição ambiental. Ainda assim, surtos precisam ser monitorados com atenção pelas autoridades de saúde.
Neste momento, não existe uma evidência de risco de uma nova pandemia causada pelo hantavírus, como foi a covid-19
R7 - Há formas de prevenir o contato com o vírus? Quais?
Marcela - A prevenção do hantavírus envolve evitar o contato com ratos e resíduos deixados por eles, como urina e fezes. É importante manter os ambientes limpos, ventilados e sem infestação.
Ao limpar locais fechados por muito tempo, não se deve varrer fezes secas de roedores, porque isso pode espalhar partículas contaminadas no ar. O recomendado é aplicar desinfetante antes da limpeza e usar máscara N95 ou PFF2 para aumentar a proteção.














