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‘Hidrocefalia de pressão normal gera confusão em diagnóstico de Alzheimer’, revela neurocirurgião

Fernando Hakim, referência e filho do médico que identificou a doença, indica primeiros sintomas e detalha a cirurgia de correção

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Médico analisa exame de imagem em computador
Hidrocefalia de pressão normal: sintomas parecidos com os do Alzheimer atrapalham do diagnóstico Reprodução/Instagram @fernandohakimneurocirujano

Os diagnósticos de quatro em cada dez pacientes com Alzheimer estão sujeitos a erro por conta de uma confusão com a hidrocefalia de pressão normal, uma doença neurológica que tem tratamento e permite a reversão da memória depois da implantação de uma válvula no cérebro.

A estatística é do neurocirurgião colombiano Fernando Hakim, que participou Smart Care Summit, do Hospital Moriah, de São Paulo, na semana passada. A amostra, relativamente pequena, leva em conta os casos de pacientes do próprio médico, que é filho de Salomon Hakim, primeiro a descrever a doença em 1957.


“Em nossa série de casos, observamos que 38% das pessoas diagnosticadas com Alzheimer, na verdade, sofriam de hidrocefalia de pressão normal”, revela.

Em entrevista ao R7, o cirurgião explica que 4% das pessoas com mais de 70 anos têm hidrocefalia de pressão normal, índice que sobe para 8% para quem tem mais de 80 anos. Também mostra como é a cirurgia de correção que pode mudar a vida de milhares de brasileiros.


Leia a entrevista abaixo:

R7 – O que é a hidrocefalia de pressão normal?

Dr. Fernando Hakim – Hidrocefalia significa excesso de líquido no cérebro. O cérebro flutua dentro do crânio, e a medula espinhal flutua no canal vertebral, como um peixe. Quer dizer, ao redor de todo o cérebro existe o LCR, líquido cefalorraquidiano. É como se fosse água.


O líquido é produzido na região central do cérebro, especificamente nos ventrículos e nos plexos coroides. Ele circula por canais específicos e depois é absorvido na superfície externa e na convexidade do cérebro.

No entanto, quando ocorre algum problema na circulação cerebral e o líquido não consegue fluir livremente, trata-se de uma obstrução. Então, os ventrículos cerebrais começam a se dilatar, e essa condição é chamada de hidrocefalia.


O termo “hidro” refere-se ao excesso de líquido (água) no cérebro. Existem vários tipos de hidrocefalia. A doença sobre a qual falo é a hidrocefalia de pressão normal, também conhecida como Síndrome de Hakim. Foi descrita pelo meu pai em 1964, Salomon Hakim.

R7 – O que muda na vida do paciente que tem a doença?

Dr. Hakim – O cérebro começa a aumentar de tamanho nos ventrículos. Mas o interessante aconteceu há anos: quando se media a pressão, no caso de uma dilatação ventricular, em que o ventrículo está grande como um balão inflado, a leitura obtida é normal.

Como explicar que algo aumente de tamanho, expandindo-se como um balão, mas mantenha uma pressão normal? Essa é a observação interessante feita pelo meu pai: trata-se de hidrocefalia de pressão normal. Portanto, a explicação reside em princípios da física e da hidrodinâmica.

Gosto de usar exemplos da vida real. Imagine que você está em uma festa com um balão e começa a enchê-lo. Todo mundo já encheu um balão alguma vez e percebeu que, no início, é difícil. É preciso fazer força, pressionar. Mas, assim que o balão cresce um pouco, ele vai se expandindo. É isso que acontece no cérebro.

Outro exemplo é o pneu de bicicleta: quando você enche o pneu de uma bicicleta de corrida, aplica uma pressão de 100 libras por polegada quadrada; já o pneu de um trator — que é enorme — leva apenas 8 libras. Essa é a diferença e é o exemplo que explica por que o cérebro aumenta de tamanho e os ventrículos se dilatam, mesmo com a pressão normal.

R7 – Por que até os médicos confundem a hidrocefalia de pressão normal com a Doença de Alzheimer?

Dr. Hakim – A hidrocefalia de pressão normal caracteriza-se por três aspectos. O primeiro que sempre ocorre é uma alteração nos passos do paciente. A caminhada torna-se o que chamamos de “marcha magnética”. E o que isso significa? A pessoa caminha como se seus sapatos fossem de metal e houvesse ímãs no chão. Por isso, ela não consegue levantar os pés do piso.

É difícil caminhar assim e, quando ele gira, apoia em apenas uma das pernas. Essa é a primeira coisa que acontece.

Depois, podem surgir problemas mentais, demência e incontinência. Aí, a pessoa perde o controle do joelho. É isso que acontece. A primeira alteração perceptível é na forma de caminhar.

R7 – Por que os médicos não reconhecem isso?

Dr. Hakim – Acabamos de descrever um novo conceito na neurocirurgia chamado “pseudoatrofia”. Parece atrofia, mas não é. Às vezes, os médicos pensam no que está acontecendo: como explicar que os ventrículos aumentam de tamanho?

Pode-se dizer que é porque houve perda de tecido cerebral; o cérebro fica menor. É aquela questão: com o envelhecimento, perdem-se neurônios e tecido cerebral. E, se há essa perda, os ventrículos acabam ficando maiores. É por isso que, ao verem isso, as pessoas pensam que se trata de atrofia.

Eles não sabem que a síndrome existe. Então, dizem: “Não, ele tem demência, ele tem Alzheimer”. E, especialmente quando se chega à fase da ressonância magnética ou da tomografia computadorizada e se constata atrofia — e vê-se que o paciente chega em cadeira de rodas, com quadro de demência e incontinência —, o médico conclui: “Então, o que ele realmente tem é demência; ele tem Alzheimer”.

R7 – Esse tipo de imprecisão é comum?

Dr. Hakim – Em nossa série de casos, observamos que 38% das pessoas diagnosticadas com Alzheimer, na verdade, sofriam de hidrocefalia de pressão normal.

Esse foi o índice que encontramos. Trata-se de uma síndrome muito importante, descrita há muitos anos, mas só agora as pessoas estão começando a perceber que ela é muito comum.

Embora não haja registros documentados sobre isso, se analisarmos as estatísticas, vemos que essa condição — assim como o câncer de mama — é mais frequente do que a hidrocefalia de pressão normal, mas acaba não sendo diagnosticada.

Imagine só: se conseguíssemos identificar os pacientes diagnosticados com Alzheimer que, na verdade, sofrem de hidrocefalia de pressão normal (como a Síndrome de Hakim), poderíamos ajudar muitas pessoas ao redor do mundo. É isso que queremos fazer.

Dr. Fernando Hakim: '38% das pessoas diagnosticadas com Alzheimer, na verdade, sofrem de hidrocefalia de pressão normal' Reprodução/Instagram @fernandohakimneurocirujano

R7 – Então, o que falta é disseminar a informação?

Dr. Hakim – Não podemos fazer isso sozinhos. É por isso que o Dr. Fernando Gomes [neurocirurgião e coordenador do Instituto de Hidrocefalia de Pressão Normal do Hospital Moriah] está abrindo clínicas voltadas para a doença.

Precisamos que todos ao redor do mundo nos ajudem a mostrar essa doença às pessoas. E ela é muito fácil de diagnosticar. Se você vir uma pessoa andando com a “marcha magnética”, você tem o diagnóstico.

R7 – Então, desculpe, mas há 38% dos diagnósticos de Alzheimer errados?

Dr. Hakim – Foi isso que descobrimos em nossas clínicas. Eu preciso dizer o número porque as pessoas prestam atenção. É nisso que temos conseguido ajudar. Você também pode ter a doença — pode ter hidrocefalia de pressão normal e o mesmo paciente pode ter Alzheimer. Você pode ter ambas as condições.

Mas você pode ajudar o paciente se colocar a válvula, se drenar o paciente, pois verá uma melhora no quadro de hidrocefalia. No entanto, o Alzheimer continuará progredindo e, dois anos depois, o paciente não estará muito bem.

Estou no Brasil para mostrar ao pessoal como é possível realizar um atendimento clínico para hidrocefalia de pressão normal — algo muito simples de fazer e que pode ajudar muitas pessoas.

R7 – Há algum dado sobre quantas pessoas no mundo, ou na América do Sul, são afetadas pela hidrocefalia de pressão normal?

Dr. Hakim – Cerca de 4% das pessoas com mais de 70 anos têm hidrocefalia de pressão normal. E, acima de 80 anos, esse índice é de cerca de 8%. Então, 8% das pessoas com mais de 80 anos deverão ter hidrocefalia de pressão normal.

Basta ver quantas pessoas no Brasil têm mais de 80 anos e calcular esses 8% ou 9% desse grupo.

R7 – Como é o tratamento? Tem cura?

Dr. Hakim – Coloca-se uma válvula, um dreno ventriculoatrial ou ventriculoperitoneal. Então, é uma cirurgia bem simples. Você coloca um dispositivo no cérebro. Há vários tipos de válvulas hoje.

Se uma pessoa com hidrocefalia de pressão normal não for tratada, ela morrerá em alguns anos. Então, trata-se de resgatar do esquecimento muitos pacientes diagnosticados com demência, como o Alzheimer, para a qual não há possibilidade de melhora.

R7 — Após a cirurgia, quanto tempo o paciente leva para recuperar a memória?

Dr. Hakim – Você consegue notar a diferença em um dia, dois dias, uma semana. É impressionante. É muito rápido. Se for um caso típico de síndrome de hidrocefalia de pressão normal, a melhora é muito rápida.

Obviamente, se houver outra doença associada, leva mais tempo. Ou então a melhora não ocorre.

Então, antes de realizar a cirurgia, fazemos vários exames simples para saber se o paciente terá um bom resultado com a colocação de uma válvula.

O que conseguimos é resgatar do esquecimento pacientes diagnosticados com Alzheimer ou demência que, na verdade, tinham uma demência tratável. A hidrocefalia de pressão normal é uma das poucas demências que existem e são tratáveis, porque a maior parte não tem volta.

R7 – O Alzheimer, também um tipo de demência, possui alguma reversão?

Dr. Hakim – Com o Alzheimer, não há nada a se fazer, porque o cérebro está comprometido — muito comprometido — e não tem como reverter isso. Uma vez que há destruição, não há muito o que fazer. Mas a hidrocefalia é um problema dinâmico e reversível.

R7 – Quantas cirurgias como esta você costuma fazer por semana?

Dr. Hakim – Conseguimos atender cerca de 50 ou 60 casos por ano, depende do problema. Sabe qual é o desafio? Reconhecer a síndrome e encaminhar o paciente para nós. O problema é justamente esse encaminhamento.

R7 – Então, podemos ter uma grande quantidade de pessoas diagnosticadas com Alzheimer, mas, na verdade, sofrem de hidrocefalia de pressão normal?

Dr. Hakim – Sim, é isso.

R7 – Especialmente no nosso sistema de saúde, por onde passa uma quantidade enorme de pessoas...

Dr. Hakim – Sim, no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, um país tão avançado, não diagnosticam os pacientes e tratam muito poucos. Há pelo menos 1 ou 2 milhões de pacientes que podem ter hidrocefalia e trataram 20 mil. É exagerado, é ridículo.

Se eu pudesse mostrar ao mundo a importância desta síndrome e ver quantas pessoas pudesse ajudar, seria uma das coisas mais importantes para a humanidade.

Fernando Hakim

Médico posa para foto
Dr. Fernando Hakim, neurocirurgião e especialista na Hidrocefalia de Pressão Normal Reprodução/Fundación Santa Fé de Bogotá

- Chefe do departamento de neurocirurgia e diretor do centro de hidrocefalia de pressão normal da Fundación Santa Fe de Bogotá.

- Filho do Dr. Salomão Hakim, primeiro neurocirurgião a descrever a doença em 1957 e autor do primeiro trabalho publicado sobre o tratamento da doença.

- Membro da Associação Colombiana de Neurocirurgia e da Sociedade Internacional de Hidrocefalia e Distúrbios do Líquido Cefalorraquidiano.

- Médico e cirurgião pela Universidad Militar Nueva Granada, especialização em neurocirurgia pela mesma instituição. Fellow em Neurocirurgia, Neuro-patologia e Neurocirurgia pediátrica pelo Massachusetts General Hospital/Harvard Medical School.

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