Colombiano morto no Brasil teria comprado votos para Iván Duque

Pecuarista Jose Guillermo Hernández, conhecido como Ñeñe, foi alvo de escutas telefônicas por dois anos e relatou suposta compra de votos

Colombiano morto no Brasil estaria ligado a compra de votos

Ivan Duque ao lado de Jose Guillermo Hernández, conhecido como Ñeñe

Ivan Duque ao lado de Jose Guillermo Hernández, conhecido como Ñeñe

Reprodução / Instagram

O pecuarista colombiano Jose Guillermo Hernández, morto em um assalto no Brasil, é o pivô de um escândalo da suposta compra de votos no departamento La Guajira, na Colômbia. Em um áudio, ele teria pedido uma quantia de dinheiro "por debaixo da mesa" para ajudar a eleger o atual presidente Ivan Duque no segundo turno. 

Nas redes sociais, Ñeñe, como era conhecido, não escondia seu apoio político ao atual presidente do país, Iván Duque. Ele era casado com María Mónica Urbina, miss colombiana em 1985. Em fotos, o casal aparece com Ivan Duque e outras autoridades, empresários e artistas colombianos.

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Con mi presidente y mi amor

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De acordo com a revista Semana, Jose Guillermo Hernández era investigado há dois anos na Colômbia por vínculo com o assassinato de Óscar Eduardo Rodríguez Pomar, filho de um conhecido empresário e proprietário de uma alfaiataria chamada GQ Carlos Rodríguez Gómez. O crime ocorreu em 18 de agosto de 2011.

Segundo a reportagem, justamente por conta deste caso, as comunicações de Ñeñe eram interceptadas pela polícia colombiana e pelo Ministério Público local. Em um dos áudios de junho de 2018, ele aparece conversando com uma mulher sobre um dinheiro "por debaixo dos panos" para a campanha de Duque.

Documentos da investigação apontam a interlocutora apenas como MD. Até o momento, não se sabe quem é esta mulher com quem Ñeñe conversou, contudo, após o vazamento dos áudios a assessora parlamentar do senador e ex-presidente Álvaro Uribe, María Claudia Daza renunciou ao cargo. 

No diálogo, a mulher diz que estava preocupada e que "tinham que trabalhar muito". E ele respondeu: “eu ontem dizia para Priscila que temos que estar atentos. É necessário procurar um dinheiro para passar por debaixo da mesa para soltar nos departamentos".

Álvaro Uribe e Jose Guillermo Ñeñe Hernández

Álvaro Uribe e Jose Guillermo Ñeñe Hernández

Reprodução/Instagram

Na transcrição, Ñeñe diz: “Na eleição passada, nos aproveitamos do dinheiro que roubaram do Vargas Lleras, de transporte e de coisas; nesta não vamos ter. Você imagina para onde eles levariam esses cento e pouco milhões de pesos, o que teria acontecido em el Valle?".

A mulher responde que já conseguiu um milhão de pesos (pouco menos de um milhão de reais) e que estava procurando empresários para movimentar o dinheiro. "Ivan e Uribe me mandaram para Manaure, Uribia, Riohacha e Maicao, temos que ganhar em La Guajira".

Duque e Uribe negaram ligação com Ñeñe

O senador Álvaro Uribe negou qualquer relação com Jose Guillermo, apesar de aparecer em fotos ao lado dele e ter lamentado a morte dele no twitter. Iván Duque também negou, mas pouco depois admitiu que já tinha visto Jose Guillermo em outras ocasiões.

A Corte Suprema da Colômbia decidiu abrir um inquérito contra o ex-presidente Álvaro Uribe. Também foi solicitado todo o material, cerca de 25 mil gravações de interceptações telefônicas. A senador é mencionado na ligação que o dinheiro "por debaixo da mesa" é sugerido por Ñeñe.

"Nunca pedi ao senhor Hernández nenhum recurso para minha campanha, nem apoio do senhor Hernández”, assegurou Duque.

Além do escândalo

Nos 25 mil registros de telefonemas interceptados de Jose Guillermo, ele conversa com autoridades, empresários e políticos sobre seus negócios e articulações. Ele chega a chamar Ivan Duque de "meu irmão". Diz que nunca seria preso porque o Ministério Público só "lhe devia cortesias".

Segundo o jornal El Espectador, Ñeñe tinha também uma relação bastante próxima com a Força Pública colombiana. O Exército colombiano chegou admitir que transportou Jose Guillermo Hernández em março de 2019 de Aguachica até Valledupar.

Segundo o comunicado, o pecuraista era conhecido por ser um "reconhecido empresário do gado e de uma família tradicional da região", e foi levado porque participaria de uma reunião do tema de Segurança.

Marquito Figueroa foi preso no Brasil em 2014

Marquito Figueroa foi preso no Brasil em 2014

Divulgação/PF

Jose Guillermo também era acusado de vínculo com narcotraficante colombiano Marcos de Jesús Figueroa García, conhecido como "Marquito Figueroa". Ele foi preso no Brasil em 2014 e extraditado para a Colômbia em 2016. 

Marquito também é acusado de chefiar pistoleiros que atuam no departamento de La Guajira, além de comandar um esquema de tráfico de gasolina proveniente da Venezuela.

O vínculo de Ñeñe com Marquito está relacionado ao assassinato de Óscar Eduardo Rodríguez Pomar, motivo pelo qual ele foi interceptado. Um mês após a morte de Ñeñe, o Ministério Público mandou bloquear inúmeros bens do empresário acusado ainda de ser "laranja" de Marquito.

O Ministério Público anunciou que irá investigar outros delitos que aparecem nas interceptações telefônicas de Jose Guillermo. O caso ganhou tanta notoriedade pelo número e os personagens que envolve, que agora é chamado de "ñeñepolítica".