"Israel tem todo o direito de escolher seus representantes", diz Federação Israelita de São Paulo
Demora na aprovação de embaixador está criando um mal-estar entre Brasil e Israel
Internacional|Do R7*

Representação da comunidade judaica do Estado de São Paulo, a Federação Israelita da região se posiciona contra a postura hostil do governo brasileiro em relação ao novo embaixador indicado por Israel para o Brasil, o argentino naturalizado israelense Dani Dayan.
Dayan é morador da Cisjordânia — território palestino ocupado por Israel desde 1967 — e ex-chefe do Conselho Yeshua, organização que representa os mais de 500 mil israelenses moradores de assentamentos judaicos em territórios palestinos.
A demora na aprovação de Dayan pode ser entendida, na linguagem diplomática, como uma recusa do governo brasileiro à indicação do embaixador.
Acredita-se que a motivação seja o fato de que o Brasil é historicamente a favor de uma solução de dois países para a região (Israel e Palestina) e, portanto, contra a ocupação israelense nos territórios palestinos.
Outro fato que desagradou ao governo brasileiro foi o anúncio antecipado à imprensa da nomeação de Dayan à embaixada israelense no País. O Brasil não foi consultado sobre o assunto antes do comunicado.
A situação desagradável foi confirmada por um alto funcionário do governo brasileiro, que declarou ao jornal israelense Times of Israel que o Brasil não vai dar o "agrément" — permissão para começar a trabalhar no país para o qual foi indicado — a Dayan, embora também não irá explicitamente rejeitar o embaixador.
Crise diplomática: recusa de novo embaixador gera mal-estar entre Brasil e Israel
No domingo, a vice-chanceler de Israel, Tzipi Hotovely disse em entrevista a uma rede de TV do país que a recusa do Itamaraty (Ministério de Relações Exteriores do Brasil) em aceitar o novo embaixador indicado por Israel para o Brasil está sendo influenciada pela crise política brasileira e pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Hotovely justificou a afirmação dizendo que Dilma precisa de todos os votos possíveis no Congresso para impedir a abertura do processo de impeachment. Isso inclui o apoio de políticos de extrema-esquerda, que, na visão dela, são as forças que tentam barrar a indicação do novo embaixador.
Presidente Executivo da Federação Israelita do Estado de SP, Ricardo Berkiensztat diz que, apesar de existirem diversos países acusados de “gravíssimas afrontas” contra os direitos humanos, nenhum teve seu embaixador recusado pelo País. Ele diz que o que está em discussão não diz respeito às posições pessoais de Dayan, mas sim o fato de que ele representa um país democrático.
— Israel tem todo o direito de escolher seus representantes, como qualquer país do mundo. Não me lembro de nenhum desses países violadores dos direitos humanos terem sido questionados sobre seus embaixadores. Porque isso ocorre apenas com Israel?
Vice-chanceler de Israel culpa impeachment por veto do Itamaraty a novo embaixador israelense
Esta não é a primeira vez que o Brasil utiliza o atraso na aprovação de um indicado a embaixador como recurso para retaliar um país por suas posições políticas. Após as execuções de dois brasileiros acusados de tráfico de drogas na Indonésia, o embaixador indicado pelo país para atuar no Brasil, Toto Riyanto, ficou nove meses aguardando receber suas credenciais para exercer o cargo.
No caso de Israel, um eventual esfriamento das relações pode resultar em grandes prejuízos para ambos os países. O Brasil é um importante parceiro comercial da potência do Oriente Médio, principalmente na área da segurança, de quem importa grandes quantidades de armamentos e tecnologia militar.
A estratégia do governo de Israel para solucionar o impasse é fazer um lobby pela aprovação de Dayan em Brasília, por meio da comunidade judaica brasileira e de pessoas de confiança da presidente Dilma Rousseff, além de apelos diretos do primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu.
Cientista político e professor de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), Samuel Seldberg afirma que a escolha do embaixador que irá representar um país é uma decisão soberana da nação que o envia. Ele lembra que a recusa de um nome normalmente é considerada uma medida diplomática “extremamente rígida” e “de consequências muito importantes”.
— Não existe nem precedente e nem elemento que possa justificar a postura do governo brasileiro, a não ser um reflexo da politização da política externa e uma tentativa de influenciar uma decisão que é soberana do governo israelense.
Seldberg critica a falta de um posicionamento formal por parte do governo brasileiro em relação a Dayan. Para ele, o Brasil deveria apresentar uma recusa “com uma justificativa plausível” ou aceitar o embaixador. “Não tem sentido ficar em cima do muro”, afirma.
— É como se eu perguntasse se sua filha quer casar comigo e ela, ao invés de me responder, me deixasse esperando. Para sempre.
Petição
Em resposta à postura do governo em relação ao embaixador Dani Dayan, uma petição on-line direcionada à presidente Dilma Roussef, ao Ministério das Relações Exteriores e à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional ultrapassou as 2.000 assinaturas em apenas quatro dias.
O manifesto "Apoiamos Dani Dayan como Embaixador de Israel no Brasil" diz que "ninguém em Israel e no mundo" conhece a questão palestina tão bem quanto Dayan, e avalia que ele é a pessoa mais indicada para "explicar e até conduzir os entendimentos com os palestinos para a negociação de um processo de paz".
O texto é uma resposta à carta com 200 assinaturas de judeus brasileiros entregue à deputada Jô Moraes, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, que afirma que a "não admissão de um representante do Estado de Israel que tenha um envolvimento histórico com a ocupação e defesa da anexação dos territórios palestinos” é importante para um futuro de paz entre israelenses e palestinos.
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