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Muitas crianças perderam tudo no terremoto na Venezuela; abrigos dão solução temporária, mas desafio será o futuro

Espaços Amigáveis foram criados para ajudar crianças a processar o trauma através de atividades recreativas

Internacional|Osmary Hernández e Rocío Muñoz-Ledo, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Muitas crianças na Venezuela perderam suas casas e familiares devido a terremotos recentes.
  • A UNICEF e outros grupos oferecem suporte psicológico e recreativo em abrigos temporários.
  • O processo de reunificação familiar é prioritário, com a adoção sendo o último recurso.
  • Mercedes Osul cuida de seus sobrinhos após a perda da irmã, buscando um lar permanente para todos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Duplo terremoto deixou mais de 3.800 mortos e 16 mil feridos Leonardo Fernandez Viloria/Reuters - 09.07.2026

Damián Trujillo tem 13 anos e, desde que chegou ao abrigo onde agora vive com sua tia, quase não fala do terremoto. Prefere jogar futebol.

Passa boa parte do dia em uma quadra improvisada junto a outras crianças que, como ele, também perderam seus lares depois dos fortes terremotos que há duas semanas sacudiram o norte da Venezuela.


Sua tia, Mercedes Osul, conta à CNN Internacional que, desde que perdeu a mãe, Damián evita falar do ocorrido. “Meu sobrinho não quis conversar sobre isso. O que ele faz é puramente jogar, jogar”, diz.

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Damián perdeu a mãe quando o edifício onde viviam em Caraballeda, no estado litorâneo de La Guaira, desabou durante o duplo terremoto. Agora vive com sua tia Mercedes, que assumiu o cuidado dele e de sua irmã María, além de suas duas filhas próprias.


A história de Damián é uma das milhares que se repetem nos abrigos temporários habilitados após a emergência que deixou uma enorme quantidade de famílias deslocadas.

Enquanto os adultos buscam como reconstruir suas vidas, as crianças enfrentam outro desafio: aprender a conviver com o medo, o luto e a incerteza sem deixar de ser crianças.


Enquanto Damián prefere passar as tardes jogando futebol, sua irmã María, de 10 anos, revive uma e outra vez o momento em que perdeu a mãe. “Minha mãe estava lá sim, tia”, repete constantemente para Mercedes. Desde então, diz sua tia, a menina está mais ansiosa, se assusta com qualquer barulho e busca refúgio nos doces.

Os especialistas explicam que não existe uma única maneira de enfrentar uma experiência traumática.


“Os meninos, meninas e adolescentes são os primeiros e mais afetados, já que se expõem a vulnerabilidades e privações tanto sociais, psicológicas como físicas”, explica à CNN Internacional Manuel Rodríguez Pumarol, representante da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) na Venezuela.

Por isso, em vários dos abrigos funcionam os chamados Espaços Amigáveis para a Infância, onde psicólogos e assistentes sociais acompanham os menores por meio de atividades recreativas e grupais.

O objetivo, explica Rodríguez Pumarol, não é que falem imediatamente sobre o ocorrido, mas oferecer-lhes um ambiente seguro para começar a processá-lo.

“Através do jogo e de dinâmicas grupais, as crianças podem começar a se expressar, começar a tirar o estresse e trauma que essa catástrofe provocou e começar também a ter essa sensação de segurança que perderam”, assinala.

Esse acompanhamento também alcança os adultos que estão a cargo deles.

Quando Mercedes contou que Damián evitava falar da morte de sua mãe e preferia passar o dia jogando futebol, a psicóloga do abrigo recomendou não obrigá-lo a falar. “Me disseram para deixá-lo drenar, que essa é uma forma de drenar”, lembra.

Um desastre desta magnitude costuma alterar a vida cotidiana de milhares de crianças. Alguns deixaram suas casas, outros perderam familiares e muitos tiveram que se adaptar a um novo ambiente longe da rotina que conheciam.

Nos abrigos temporários, o desafio não é apenas garantir que tenham um lugar onde dormir ou receber comida. Também implica ajudá-los a recuperar espaços de segurança, jogo e aprendizagem enquanto suas famílias buscam uma solução mais estável.

A Unicef estima que cerca de 650 mil pessoas poderiam precisar de assistência após os terremotos, entre elas cerca de 234 mil são meninos e meninas.

Segundo Rodríguez Pumarol, dentro desse grupo há menores que perderam seus lares ou familiares, mas também estão aqueles que, embora não tenham sofrido danos diretos em suas casas, ficaram afetados pela interrupção de serviços essenciais como água potável, atendimento médico ou vacinação.

“O terremoto tirou muito desses meninos e meninas e nosso papel é garantir que não tire o futuro deles”, assinala Rodríguez Pumarol.

Parte desse futuro depende também de que possam voltar à escola. O representante da Unicef explica que alguns acampamentos temporários funcionam em centros educativos e que se trabalha para que esses espaços possam ser liberados antes do início do próximo ano escolar.

Mas recuperar a rotina não significa que o medo desapareça de imediato. Rodríguez Pumarol diz que muitas crianças continuam enfrentando medo e ansiedade depois do terremoto. Algumas famílias contam que seus filhos têm dificuldades para dormir ou preferem permanecer acordados até a noite por medo de que volte a tremer.

“Ficam jogando até altas horas da noite por temor de que, ao dormir, possa acontecer algo”, diz Rodríguez Pumarol.

Além do impacto emocional, os terremotos deixaram uma das situações mais complexas para os sistemas de proteção infantil: crianças que ficaram separadas de seus pais ou que tiveram que passar aos cuidados de outros familiares enquanto se determina o que aconteceu com seus progenitores.

A advogada especialista em direito familiar, Jeslia Vergara, explica que, diante da ausência dos pais, a prioridade do sistema de proteção venezuelano é localizar outros familiares que possam se encargar das crianças.

Antes de considerar qualquer outra medida, diz Vergara, as autoridades devem investigar se existem familiares próximos — como avós, tios ou irmãos mais velhos — que possam assumir temporariamente seu cuidado. Se essa possibilidade for confirmada, o Conselho de Proteção pode estabelecer uma medida de acolhimento familiar enquanto se determina o que aconteceu com os pais.

“Se for demonstrado categoricamente que ambos os pais estão falecidos e também que não existe família de origem que possa se ocupar do cuidado destas crianças, o Estado pode declará-las em adotabilidade, ou seja, as crianças já podem fazer parte de um programa de família substituta”, explica Vergara.

A advogada adverte que, inclusive em uma emergência, estes processos não podem pular etapas. As famílias que aspiram a apadrinhar uma criança devem passar por avaliações para determinar sua idoneidade e garantir que possam oferecer um ambiente seguro.

“A institucionalização ou a adoção é o último recurso disponível na Venezuela”, afirma.

Vergara insiste que as crianças que atravessam uma tragédia não devem ser vistas como uma oportunidade para preencher vazios de outras pessoas, mas sim como menores que têm uma história, uma identidade e um vínculo familiar que deve ser protegido.

“Não podemos apagar a história de um menino ou menina adolescente e substituí-la por outra”, acrescenta.

No meio da emergência, o IDENNA (Instituto Autônomo Conselho Nacional de Direitos de Meninos, Meninas e Adolescentes) rejeitou versões divulgadas em redes sociais sobre supostas entregas de menores a desconhecidos e assegurou que qualquer processo de reunificação familiar deve ser realizado após verificar a identidade e o vínculo com seus familiares.

Para Mercedes, o abrigo significou uma ajuda no meio de uma perda que ainda tenta processar. Ali seus sobrinhos receberam comida, espaços para jogar e acompanhamento psicológico.

“Dão recreação para eles, levam com psicólogos. Minha filha adora desenhar. Damián é fascinado por futebol”, diz sobre seus dias no abrigo. Mas, depois de perder sua irmã e ficar a cargo de quatro crianças, sua principal necessidade continua sendo recuperar uma casa para todos.

“Uma casa. O resto vem por acréscimo”, diz. Enquanto isso, Damián continua jogando futebol com outras crianças do abrigo.

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