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Os trilhos enferrujados do Paquistão

A viagens de trens no país denunciam desastres naturais e revoltas constantes, pobreza descomunal e cleptocratas feudais, além de uma economia prestes a entrar em colapso

Internacional|Do R7

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Em um país pautado pela religião, os paquistaneses estão perdendo a fé
Em um país pautado pela religião, os paquistaneses estão perdendo a fé ANDREA BRUCE

Ruk, Paquistão – Resplandecente de uniforme branco e quepe, com a jaqueta abotoada em torno da barriga, o chefe da estação esperava lá, por um trem que nunca chegaria. "São os cortes", afirmou Nisar Ahmed Abro, com um sorriso resignado.

A Estação de Ruk, no centro do Paquistão, é um edifício que parece uma casinha de boneca cercada de palmeiras e arrozais. Já houve um momento em que essa estação era o cruzamento de duas importantes linhas de trem paquistanesas: a Ferrovia Estadual de Kandahar, que cruzava o norte pelo deserto até a fronteira afegã; e outra que ia de leste a oeste, ligando cidades das montanhas de Hindu Kush ao Mar Arábico.


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Agora é uma estação fantasma. Nenhum trem parou na estação de Ruk nos últimos seis meses, em função do corte de custos no serviço ferroviário estatal, a Pakistan Railways, e a estação elegante está sozinha e deserta. Trabalhadores sem serviço fumavam nas sombras e um búfalo atravessava a linha tranquilamente.


Abro mostrou o caminho até seu escritório, uma sala com pé-direito alto e um velho relógio de parede. Depois de servir o chá, ele tirou o suor das sobrancelhas. O calor da tarde aumentava e a estação estava no escuro há 16 horas – nada que surpreenda os paquistaneses nos dias de hoje.

De frente para Abro, Faisal Imran, um engenheiro ferroviário que visitava a estação, ouvia com simpatia as pendengas do chefe da estação – não se trata só da condição decrépita dessa estação que já foi tão grandiosa, afirmou Imran. Esse é um retrato do próprio Paquistão.


"As linhas de trem são a verdadeira imagem de nosso país", afirmou, bebendo chá no calor da tarde. "Se quiser saber a quantas anda o Paquistão, conheça suas linhas de trem."

Apesar de todas as maravilhas oferecidas pela jornada de trem através do Paquistão – um país com paisagens de cair o queixo, dotado de uma história riquíssima e repleto de prazeres inesperados – ela também nos oferece imagens profundamente perturbadoras.

Em cada estação da linha de Peshawar, no nordeste do país, que leva à cidade portuária de Karachi, encontram-se sinais de porque o país causa tanta preocupação a seus habitantes e ao resto do mundo: desastres naturais e revoltas constantes, pobreza descomunal e cleptocratas feudais, além de uma economia prestes a entrar em colapso.

A eleição do fim de semana passado representou um momento de esperança e uma democracia problemática, com o partido do ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif vencendo com grande margem um pleito que contou com a presença de quase 60% dos eleitores. Contudo, a votação não foi suficiente para afastar a desilusão popular. Em um país pautado pela religião, os paquistaneses estão perdendo a fé. As pessoas procuram desesperadamente por uma mudança – por qualquer melhoria que seu governo nuclear possa fazer, mas não fez até agora.

A falta constante de eletricidade, por até 18 horas por dia, afetou a indústria e causou descontentamento público. Os sistemas de educação e saúde são inadequados e estão sucateados. A companhia aérea estatal, a Pakistan International Airlines, que perdeu 32 milhões de dólares no ano passado, apresenta resultados ruins na bolsa de valores. A polícia é mal paga e corrupta, levando a militância religiosa a se espalhar. Um senso desagradável de caos paira no ar.

Essa falência é o legado de décadas de desgraças, governos ruins e falta de sorte para líderes civis e militares, mas quem paga o pato são os 180 milhões de habitantes do país.

Para eles, as notícias tristes sobre ataques do Talibã e as discussões inúteis sobre a falência do Estado não significam quase nada. Suas preocupações são mais prosaicas, embora sejam vitais. O povo quer emprego e educação para os filhos, tratamento igualitário da justiça e que a eletricidade não acabe o tempo todo.

O povo quer trens que saiam e cheguem na hora certa.

No início da jornada, policiais portando AK-47s guardavam a estação de trem de Peshawar, à beira das montanhas escarpadas que se elevam no Afeganistão – um dos cerca de 40 postos policiais de uma cidade que há muito tempo é centro de intrigas, mas que atualmente vive em meio a uma guerra declarada. Desde os primeiros ataques do Taleban, há cerca de seis anos, a cidade enfrenta os ataques constantes de homens bomba. Nenhum local pode se considerar imune: hotéis cinco estrelas e templos religiosos, mercados cheios e aeroportos internacionais, delegacias e consulados estrangeiros. Centenas de pessoas morreram.

O sistema ferroviário foi profundamente afetado. Até poucos anos atrás, as linhas iam até o lendário Passo Khyber, a 48,2 km a oeste, onde um dos últimos trens a vapor cruzava o cinturão tribal. Agora essa linha está fechada e os trilhos foram levados por inundações, embora fosse perigosa demais, mesmo que estivesse intacta, em vista da violência dos insurgentes.

O Khyber também deu seu nome ao serviço férreo mais famoso do país, o Correio Khyber, imortalizado por autores de viagem como Paul Theroux. Ele remonta ao auge das ferrovias paquistanesas, quando o trem era um meio de transporte elegante e popular, utilizado por ricos e por trabalhadores, com garçons que levavam bandejas de chá e com lençóis de linho e chuveiros nos vagões da primeira classe.

Mas o Expresso Awami, que esperava na plataforma, tinha pouco do charme do velho mundo: os vagões eram austeros e empoeirados. Funcionários passavam com uniformes puídos, aceitando pequenas gorjetas dos passageiros. Só há bilhetes de uma classe, a econômica. Sem geradores, a empresa não oferecia ar condicionado.

"Estamos em crise", afirmou Khair ul Bashar, chefe da estação de Peshawar, cercado por alavancas gigantes usadas para mudar as linhas. "Não temos dinheiro, engenheiros, nem locomotivas. Por isso estamos sempre atrasados."

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