Por que os alertas sobre o estoque de munições dos EUA parecem cada vez mais decisivos
Apesar de afirmar que os arsenais estão abastecidos, o governo Trump admite dificuldades para repor armamentos de alta tecnologia
Internacional|Aaron Blake, da CNN Internacional
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Apenas alguns dias antes do início da guerra contra o Irã, o principal oficial militar dos Estados Unidos, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, demonstrou preocupação.
Uma das maiores inquietações de Caine? Como um conflito com o Irã poderia reduzir ainda mais os estoques de munições dos EUA, que já haviam sido diminuídos devido ao apoio militar fornecido à Ucrânia e a Israel em seus conflitos nos últimos anos, segundo reportagens do Washington Post e da CNN.
Esse alerta parece agora cada vez mais pertinente e decisivo, à medida que o governo Trump enfrenta dificuldades para encerrar uma guerra que já dura muito mais do que havia previsto.
Mas a administração está tendo dificuldades para conciliar exatamente qual é a situação em torno da questão crucial dos estoques de munição.
Por um lado, afirma que os EUA têm munições mais do que suficientes — chegando a dizer que Trump aumentou amplamente os estoques e que a quantidade é “ilimitada”. Por outro, culpa o governo Biden por ter esgotado os arsenais e pede grandes quantias de dinheiro para reabastecê-los, ao mesmo tempo em que alerta para possíveis déficits caso o Congresso não aprove os recursos.
“Estamos em ótima situação”, disse Trump na segunda-feira (27). “Mas, quando falamos de alguns equipamentos mais sofisticados, certamente gostaríamos de ter mais. O (ex-presidente Joe) Biden distribuiu muito disso.”
O presidente afirmou que seu antecessor entregou quantidades “como ninguém jamais viu antes”.
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A entrevista do embaixador dos EUA na ONU, Michael Waltz, ao programa Meet the Press, da NBC News, no domingo (26), também ilustrou bem a mensagem confusa do governo.
Questionado sobre reportagens da CNN e de outros veículos de que Caine voltou a demonstrar preocupação com os estoques nos últimos dias — pouco antes de os EUA suspenderem seus ataques ao Irã na sexta-feira (24) — Waltz, assim como Trump, responsabilizou o governo Biden.
“O secretário de Defesa, Pete Hegseth, herdou uma situação enfraquecida não apenas por causa da Ucrânia, mas também pela luta contínua contra os houthis durante o governo Biden e por um Exército enfraquecido sob Biden”, afirmou.
Mas, pressionado pela jornalista Kristen Welker sobre se estava admitindo que os estoques realmente estavam reduzidos, Waltz negou.
“Não. Quero deixar absolutamente claro: as Forças Armadas dos EUA — e eu verifiquei isso de todas as formas possíveis — têm tudo o que precisam para conduzir esta campanha de maneira tão eficaz quanto necessário”, respondeu.
A declaração de Waltz caminha numa linha tênue.
Como a CNN informou, o risco relacionado aos estoques de munição não é exatamente que os EUA não tenham recursos suficientes para concluir a guerra contra o Irã, mas sim até que ponto esse conflito pode comprometer a capacidade do país de enfrentar futuras guerras nas quais se sinta obrigado a se envolver.
Isso inclui cenários como uma eventual invasão chinesa de Taiwan. Um estoque reduzido dos EUA poderia até encorajar a China a tomar medidas que talvez não considerasse em outras circunstâncias.
As mensagens contraditórias do governo sobre munições remontam aos primeiros dias do conflito com o Irã.
Após várias reportagens destacando essas preocupações no início da guerra, a administração minimizou completamente o problema.
“Temos enormes quantidades de munição”, disse Trump em 4 de março.
No dia seguinte, Hegseth afirmou que “não há escassez de munições” e que “nossos estoques estão completamente abastecidos”.
“Temos quantidades tremendas de munição”, reforçou Trump em 26 de março, acrescentando que os Estados Unidos estavam “lotados”.
Mas, mesmo em suas declarações de 4 de março, o presidente pareceu sugerir — assim como fez novamente na segunda-feira — que determinados tipos de armamentos poderiam ser motivo de preocupação.
Embora tenha afirmado que os EUA possuíam munição de nível médio e superior “ilimitada”, tratou as munições de alta tecnologia de forma diferente. Sobre elas, disse: “Doamos muitas das mais avançadas, mas ainda temos bastante.”
Em 21 de abril, a CNN informou que dados sigilosos do Pentágono coincidiam com uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), indicando quedas acentuadas em alguns desses armamentos de alta tecnologia.
Segundo o estudo, o governo já havia utilizado:
- Pelo menos 45% dos seus mísseis Precision Strike;
- Pelo menos metade dos mísseis THAAD;
- Quase 50% dos interceptadores Patriot;
- Cerca de 30% dos mísseis Tomahawk.
Em 30 de abril, durante audiência na Comissão de Serviços Armados do Senado, Hegseth aparentemente confirmou que seriam necessários “meses e anos” para recompor certos tipos de munição — embora depois tenha tentado enfatizar os “meses” mais do que os “anos”.
Em uma audiência na Câmara dos Representantes em 12 de maio, Hegseth afirmou que a questão havia sido “tolamente e desnecessariamente exagerada” pela imprensa, insistindo que “temos tudo o que precisamos”.
Já Caine foi mais cauteloso na mesma audiência. Limitou-se a afirmar que os militares tinham “munição suficiente para o que somos encarregados de fazer neste momento” — e as palavras “neste momento” podem ter grande relevância.
Em junho, Hegseth declarou ao programa Face the Nation, da CBS, que “nossos estoques estão excelentes e só ficam mais fortes”, apesar de ter dito menos de dois meses antes que levaria meses ou anos para reabastecê-los.
No entanto, na semana passada, ao pedir mais recursos ao Congresso durante uma audiência no Senado, Hegseth alertou que, sem esse financiamento, “enfrentaremos déficits críticos que ameaçam nossa capacidade de repor rapidamente equipamentos e munições”.
Na mesma sessão, a presidente da Comissão de Apropriações, senadora Susan Collins, citou duas vezes as “deficiências” nos estoques de munição e afirmou que elas são conhecidas pelo comitê “há bastante tempo”. Hegseth não contestou a observação.
A questão das munições é, sem dúvida, complexa.
Por um lado, é potencialmente preocupante se o governo estiver consumindo em ritmo acelerado armamentos sofisticados, especialmente em uma guerra impopular que não parece próxima do fim.
É um pouco como insistir em investir recursos em uma causa que já pode estar perdida. E, como o próprio Hegseth reconheceu, substituir essas munições não depende apenas de dinheiro, mas também do tempo necessário para produzi-las.
Isso levanta a possibilidade de que a guerra contra o Irã não apenas tenha sido uma causa perdida, mas que também possa ter prejudicado a segurança nacional dos EUA e sua capacidade de dissuadir atores estrangeiros hostis no futuro próximo.
Por outro lado, se os estoques realmente estiverem sendo reduzidos significativamente, não é exatamente útil para os Estados Unidos que seus adversários saibam disso.
Seja qual for a real situação dos arsenais americanos, a questão das munições representa um problema latente e de enorme importância para o governo Trump.
Trata-se de um tema que influencia não apenas por quanto tempo a administração conseguirá sustentar a guerra contra o Irã, mas que pode continuar pesando sobre a política externa dos Estados Unidos muito depois do fim do conflito.
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