Internacional "Sim" vence com 90% dos votos em referendo catalão

"Sim" vence com 90% dos votos em referendo catalão

Catalunha pedirá proclamação da independência após resultado

No total, 2.262.424 pessoas votaram no referendo realizado neste domingo (1º)

No total, 2.262.424 pessoas votaram no referendo realizado neste domingo (1º)

REUTERS/Susana Vera

O governo da Catalunha informou que 90% dos eleitores votaram "sim" pela independência da região e 7,8% votaram "não". Os dados foram apresentados pelo porta-voz da Generalitat (governo catalão), Jordi Turull.

No total, 2.262.424 pessoas votaram no referendo realizado neste domingo (1º).

Mais cedo, o governo catalão já havia anunciado que iria comunicar nos próximos dias o Parlamento regional os resultados da votação deste domingo (1º) para que aplique o previsto na lei catalã de referendo e proclame a independência caso o "sim" vencesse.

Em uma declaração institucional, o presidente catalão Carles Puigdemont defendeu que a Catalunha ganhou “o direito de ser um Estado independente” após o referendo deste domingo (1º), quando as pessoas foram convocadas a responder se queriam ou não que a Catalunha se transformasse em uma república independente.

Eleitores comemoram resultado em Barcelona: líder catalão ressaltou que milhões de pessoas se mobilizaram neste domingo

Eleitores comemoram resultado em Barcelona: líder catalão ressaltou que milhões de pessoas se mobilizaram neste domingo

REUTERS/Susana Vera

Puigdemont argumentou que a Catalunha ganhou à força sua soberania e que as instituições catalãs têm o dever de respeitar e desenvolver o que disseram seus cidadãos. Ele ressaltou que milhões de pessoas se mobilizaram neste domingo e que, apesar das ameaças do Estado espanhol, elas têm direito de decidir seu futuro em liberdade.

Governo da Espanha

Já o presidente da Espanha, Mariano Rajoy, declarou que "não houve um referendo" e que todos os espanhóis constataram que o Estado de Direito se mantém “forte e vigente”. Além de não reconhecer a consulta, responsabilizou o governo autonômico catalão, promotor da iniciativa, de ter agido contra a convivência democrática.

Puigdemont denunciou as violações de direitos e liberdades derivadas da intervenção da Polícia Nacional e da Guarda Civil, que foram acionadas pelo governo central espanhol para impedir o referendo. Ele afirmou que as autoridades contabilizam mais de 800 feridos, dois dos quais estão em estado grave, segundo informações do Departamento de Saúde da Catalunha. "Queremos viver em paz", fora de um Estado "incapaz" de propor "algo diferente da força bruta", disse.

Segundo Puigdemont, alguns casos foram “claras violações” de direitos humanos, algo que definiu como uma das páginas mais “vergonhosas” da relação do Estado espanhol com a região autônoma. Por isso, além de defender que as agressões não fiquem impunes, apelou à União Europeia para que exerça sua autoridade e atua no caso.

Twitter do governo catalão informava a diferença de botos após o resultado oficial

Twitter do governo catalão informava a diferença de botos após o resultado oficial

Reprodução (Twitter)

Enquanto acompanhavam a apuração dos votos do referendo na Praça da Catalunha, em Barcelona, representantes de diversas organizações representativas, entre as quais a União Geral dos Trabalhadores (UGT) e a Confederação Nacional do Trabalho (CNT), anunciaram que será realizada uma greve geral na próxima terça-feira (3).

Polícia fechou locais de votação

Mais cedo, as ruas da Catalunha, uma potência industrial e turística que responde por um quinto da economia espanhola, entraram em ebulição quando a polícia nacional fechou locais de votação fazendo uso de cacetetes e arrastando os eleitores para longe. A ação atraiu críticas em casa e no exterior.

"Eu proponho que todos os partidos políticos com representação parlamentar se encontrem e, juntos, reflitam sobre o futuro que todos enfrentamos", disse Rajoy em um pronunciamento televisionado. No entanto, manteve sua posição firme contra a independência catalã e elogiou a polícia.

A polícia de choque espanhola entrou em estações de votação em toda a Catalunha, confiscando cédulas e documentos de votação para tentar suspender um referendo proibido sobre a divisão da Espanha.

A polícia arrebentou portas para forçar a entrada nos locais de votação, enquanto catalães gritavam "Fora forças de ocupação" e cantavam o hino da rica região. Em um incidente em Barcelona, ​​a polícia disparou balas de borracha.

O referendo, declarado ilegal pelo governo central da Espanha, lançou o país em sua pior crise constitucional em décadas e aprofundou um racha centenário entre Madri e Barcelona.

Apesar da ação policial, filas com centenas de pessoas foram formadas em cidades e vilas em toda a região para votar. Em um local de votação em Barcelona, ​​pessoas idosas e crianças tiveram preferência na entrada.

"Estou tão satisfeito porque, apesar de todos os obstáculos que colocaram, consegui votar", disse Teresa, uma aposentada de 72 anos em Barcelona, ​​que ficou em fila por seis horas.

Multidões fazem fila para votar em Barcelona

Multidões fazem fila para votar em Barcelona

REUTERS/Yves Herman

A votação não tem status legal, já que foi bloqueada pelo Tribunal Constitucional da Espanha e por Madri por estar em desacordo com a Constituição de 1978.

Contudo, o chefe do governo regional catalão no domingo abriu a porta para uma possível declaração de independência da Catalunha, ao dizer que enviaria o resultado do referendo para o Parlamento catalão.

"Neste dia de esperança e sofrimento, os cidadãos da Catalunha ganharam o direito de ter um Estado independente sob a forma de uma república", disse Carles Puigdemont em um pronunciamento televisionado, cercado por membros de seu governo.

"O meu governo, nos próximos dias, enviará os resultados do voto de hoje ao Parlamento da Catalunha, onde reside a soberania do nosso povo, para que possa agir de acordo com a lei do referendo", disse ele.

A lei do referendo prevê uma declaração unilateral de independência pelo Parlamento regional da Catalunha se a maioria votar para deixar a Espanha.

Os resultados preliminares apontam que uma esmagadora maioria votou pela independência catalã

Uma minoria de cerca de 40 por cento dos catalães apoia a independência, mostraram as pesquisas, embora a maioria queira um referendo sobre o assunto. A região de 7,5 milhões de pessoas tem uma economia maior que a de Portugal.

É altamente provável que o voto "sim" vença, considerando que a maioria daqueles que apoiam a independência deveriam votar, enquanto a maioria daqueles que são contra não compareceriam.

Grandes multidões

Organizadores pediram que os eleitores comparecessem antes do dia amanhecer, na esperança de que a primeira imagem da votação fosse de grandes filas.

“Isto é uma grande oportunidade. Eu esperei 80 anos por isso”, disse Ramon Jordana, de 92 anos, ex-motorista de táxi que estava aguardando para votar em Sant Pere de Torello, uma cidade aos pés do Pirineus e um bastião pró-independência.

Em outros lugares, as pessoas não conseguiram acessar as urnas. Em uma cidade na província de Girona onde o líder catalão deveria votar, a Guarda Civil destruiu painéis de vidro para abrir a porta e fazer uma busca por urnas.

Puigdemont votou em uma cidade diferente da província. Ele acusou a Espanha de violência injustificada para impedir o voto e disse que isso criou uma imagem ruim da Espanha.

“A violência injustificada, desproporcional e irresponsável do Estado espanhol hoje não apenas falhou em parar o desejo dos catalães de votar... mas ajudou a esclarecer todas as dúvidas que tínhamos que resolver hoje”, ele disse.

Nicola Sturgeon, líder pró-independência da Escócia, que votou para permanecer como parte do Reino Unido em um referendo em 2014, disse que ela estava preocupada com as imagens que estava vendo na Catalunha.

“Indiferentemente das visões sobre a independência, nós devemos condenar as cenas que estão sendo vistas e pedir que a Espanha mude de direção antes que alguém seja seriamente ferido”, disse ela no Twitter.

O primeiro-ministro belga, Charles Michel, tuítou: “A violência nunca pode ser a resposta! Nós condenamos todas as formas de violência e reafirmamos nosso pedido para um diálogo político”.

A vice-primeira-ministra da Espanha, Soraya Saenz de Santamaría, disse que a polícia agiu de maneira proporcional.

“Nós fomos forçados a fazer algo que não queríamos”, disse Enric Millo, representante do governo central na Catalunha, em uma coletiva de imprensa.

Um analista disse que as cenas vistas na Catalunha no domingo tornam mais difícil para Madri e Barcelona encontraram uma saída.

“Eu acho que isso vai deixar os confrontos mais intensos e ficará mais difícil encontrar uma solução”, disse Antonio Barroso, da Teneo Intelligence.

Os mercados reagiram cautelosamente mas calmamente à situação até agora, embora a agência de classificação de risco S&P ter dito na sexta-feira que as tensões prolongadas na Catalunha podem atingir as perspectivas econômicas da Espanha. A região responde por um quinto da economia espanhola.