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Sucesso do cessar-fogo em Gaza deve determinar futuro internacional do Egito

Liderança pretendida pelo país é uma faca de dois gumes diante da problemática região

Internacional|Fábio Cervone, colunista do R7

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O acordo de cessar-fogo firmado entre Israel e o grupo palestino Hamas, nesta quarta-feira(21), foi um avanço diplomático comemorado por todos os envolvidos na disputa, mas até o momento, o Egito foi o maior vitorioso político em cena. O novo governo da Irmandade Muçulmana egípcia, democraticamente eleito após as revoltas da Primavera Árabe no país, foi amplamente elogiado na conciliação pelos EUA e líderes israelenses, como o ex-premiê Shimon Peres. Porém, ainda é cedo para adimirar plenamente o resultado desta inédita mediação. Enquanto palestinos celebravam nas ruas, logo após início formal do cessar-fogo às 17h (Brasília) desta quarta-feira, foguetes continuavam a ser lançados da Faixa de Gaza em direção ao território israelense, conforme foi reportado pela mídia local e confirmado ao R7 por brasileiros que vivem na região.

Por isso, a trégua liderada pelo governo do Egito ainda corre o risco de sofrer um revés dificultando as ambições internacionais do país e, consequentemente podendo alterar sua candidatura ao papel de interlocutor entre Ocidente e mundo árabe. O retorno do Egito ao tabuleiro do Oriente Médio é muito bem recebido pelos EUA, Israel e seus aliados, e pode ser, desde já um progresso positivo produzido pela Primavera Árabe. Mas, o governo da Irmandade Muçulmana surge em momento complicado da vizinhança e a liderança pretendida pelo país é uma faca de dois gumes. Se tudo der certo em relação ao acordo entre Israel e Hamas, o Egito ganhará credibilidade e deverá continuar a abrir portas. Porém, se a crise piorar, o país poderá ter que escolher um dos lados do conflito. O risco de uma radicalização egípcia está em voga sobretudo ao se considerar o delicado panorama regional: o Estado de Israel está isolado; governos islâmicos tradicionais estão ameaçados pelos movimentos revolucionários da Primavera Árabe; e a questão nuclear iraniana é latente, sem citar outros contenciosos menores. Neste delicado jogo de forças, a culpa de um fracasso nas negociações mediadas pelo Egito, poderá recair sobre esta recém instaurada democracia. Se não houver um cessar-fogo duradouro e as mortes de palestinos e israelenses continuarem, a imagem da Irmandade Muçulmana será diretamente afetada. Dessa forma, uma das manobra disponíveis que poderá salvar o país da insatisfação popular nacional e do isolamento político na região, seria se aliando ao Irã, opositor ferrenho de Israel e dos EUA. Na jaula com os leões A crise entre o grupo extremista Hamas e Israel, na Faixa de Gaza, foi o primeiro teste internacional para o novo governo do Egito. Na gestão anterior, sob o comando do ex-ditador Hosni Mubarak, o país foi fiel aliado dos EUA, portanto, também o era próximo de Israel. Por cerca de 30 anos, este fato o colocou em choque direto com outras potências islâmicas como o Irã. A escalada do partido muçulmano ao poder alterou esta situação. Recentemente, a diplomacia egípcia abriu um canal de diálogo com vários grupos políticos e de insurgentes palestinos. Diante deste imediato avanço, torna-se indiscutível que esta renovação já facilitou a conciliação vigente. O progresso desta quarta-feira era até pouco tempo quase impossível, pois não existia de fato um mediador legitimado pelos dois lados que e viabilizasse o diálogo. O papel de mediador entre os EUA, Israel e seus aliados em relação às nações islãmicas, aparentemente pleiteado pelo Egito, nasce em um ambiente hostil. O ditador sírio, Bashar Al Assad, em meio a uma guerra civil, pode entrar no conflito e utilizar a crise de Gaza como argumento para reunificar o país contra um inimigo externo. O grupo extremista Hezbollah, que utiliza o Líbano como base, também é um fator desestabilizador, já que se entrar em ação é capaz de forçar Israel o atacar território vizinho, o que poderá ser imediatamente respondido pelos libaneses. A Turquia rompeu relações com o governo de Tel Aviv, em razão da desmedida ação do exército israelense contra uma fragata de ativistas em 2010. O incidente foi grave já que acarretou na morte de cidadãos turcos. Neste sentido, os turcos foram coerentes desde o início do conflito ao acusarem internacionalmente o Estado judaico de promover uma "limpeza étnica" contra os palestinos durante os ataques. Outro país que transita facilmente entre grupos radicais da região é o Irã. A nação persa, por sua vez, não se entende com o Ocidente e é invariavelmente contra o Estado judaico e a presença americana na região. Além disso, é muito provável que os iranianos tenham colaborado no armamento de terroristas locais estando indiretamente por trás do ataques do Hamas. Assim, é muito saudável o retorno deste importante jogador ao tabuleiro político do Oriente Médio. O Egito tem uma enorme população, uma influente cultura, e um legado de liderança histórico entre os árabes, para completar, hoje é democrático e islâmico simultaneamente. Após o caos que derrubou a antiga ditadura de Mubarak, os EUA foram prestativos com a nova gestão egípcia fornecendo recursos finaceiros que garantiram a estabilidade da economia local durante a transição política. Com isso, o presidente Mohamed Mursi reconhece a atutal dependência dos cofres nacionais em relação aos recursos enviados por Washington. Por outro lado, a Irmandade Muçulmana conquistou boa parte dos votos que a elegeram devido seu perfil religioso e está sendo vigiada de perto pelos seus patrocinadores, militantes e eleitores. Dessa forma, as decisões diplomáticas que partirem dos palácios governamentais no Cairo devem cuidadosamente equilibrar a aliança com os norte-americanos e seu respaldo político doméstico e entre as nações árabes e islâmicas.

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