Como o antipetismo se consolidou nas camadas médias da população brasileira
O mensalão foi o marco do distanciamento de setores da classe média em relação ao Partido dos Trabalhadores
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Existe um Brasil que se divorciou do Partido dos Trabalhadores há vinte anos e nunca mais voltou. Não é o Brasil dos mais ricos, tampouco o dos mais pobres. É o Brasil da classe média-média, das famílias que trabalham, pagam impostos, financiam a casa, parcelam o carro, tentam manter os filhos numa escola particular e fazem um esforço extraordinário para não depender dos serviços públicos. Um Brasil que ganha mais do que os pobres, mas vive muito distante da tranquilidade financeira dos ricos.
Esse Brasil tem endereço social. Está concentrado nas classes B2 e C1, dois segmentos fundamentais para compreender uma das mais importantes transformações eleitorais do país desde 2006: a consolidação do antipetismo como identidade política de uma parcela expressiva da classe média brasileira.
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A ruptura começou com o mensalão. Até 2002, o PT havia construído parte relevante de sua identidade política junto à classe média urbana, aos profissionais escolarizados, ao funcionalismo público, ao movimento sindical e aos setores intelectuais. Lula chegou à Presidência com uma coalizão social ampla, que reunia diferentes estratos de renda em torno da expectativa de mudança.
As denúncias de corrupção de 2005 alteraram essa relação. O mensalão representou mais do que uma crise política. Foi o marco do distanciamento de setores da classe média em relação ao partido.
Nas eleições seguintes, o PT consolidou sua presença entre os eleitores de menor renda, especialmente nos grandes bolsões de pobreza do Nordeste, enquanto parcelas importantes dos segmentos intermediários passaram a se identificar com as candidaturas de oposição.
Primeiro, esse eleitor encontrou representação no PSDB. Votou em José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves. Depois, diante do esgotamento da oposição tradicional, aproximou-se de Jair Bolsonaro. Mudaram os candidatos, os partidos e até a linguagem da oposição, mas permaneceu um elemento de continuidade: a rejeição ao PT.
O que torna esse comportamento especialmente interessante é que não estamos falando de uma elite econômica protegida das dificuldades do país. Estamos falando de famílias que vivem permanentemente pressionadas entre o custo de vida e a necessidade de preservar um padrão mínimo de conforto.
Segundo o Critério Brasil de 2026, da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), a renda média domiciliar mensal da classe B2 é de R$ 7.874,72. Na classe C1, é de R$ 4.526,88. São rendimentos familiares, e não individuais. Nas regiões metropolitanas pesquisadas pela entidade, a classe B2 representa aproximadamente 19% dos domicílios, enquanto o conjunto das classes C1 e C2 corresponde a cerca de 52%.
É uma parcela expressiva da sociedade, especialmente presente nas grandes cidades, nos municípios economicamente desenvolvidos e nas regiões urbanas do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Mas talvez a principal característica desse grupo não esteja exatamente no quanto ganha, e sim no quanto precisa gastar para manter o padrão de vida que conquistou.
Essa é a classe do achatamento.
É a família que não possui renda suficientemente baixa para acessar os principais programas de transferência de renda, mas tampouco ganha o necessário para contratar serviços privados sem grandes sacrifícios.
Quando a escola pública não corresponde às expectativas, tenta pagar uma mensalidade escolar. Quando o atendimento de saúde é insuficiente, procura um plano de saúde. Quando a segurança pública falha, paga condomínio, vigilância ou outras formas de proteção.
O resultado é uma renda que, embora superior à dos segmentos mais pobres, encontra-se comprometida antes mesmo de chegar ao final do mês.
Essa classe não necessariamente se sente beneficiada pelos indicadores positivos da economia. Sua percepção de prosperidade é construída a partir daquilo que sobra depois de pagar as contas. E frequentemente sobra muito pouco.
O período posterior à pandemia aprofundou algumas dessas contradições. O consumo de serviços ganhou importância no orçamento das famílias, enquanto despesas com educação, saúde, moradia e transporte continuaram pressionando o rendimento disponível. O endividamento passou a fazer parte da organização financeira de muitos desses domicílios.
É uma classe que trabalha, paga e cobra. E que, em muitos casos, desenvolveu a percepção de que o Estado não olha para ela.
Enquanto os governos petistas construíram uma identidade política fortemente associada à proteção dos mais pobres, parte da classe média passou a interpretar que suas próprias dificuldades não recebiam a mesma atenção.
Não significa que as políticas sociais sejam responsáveis por seus problemas econômicos, mas que a percepção de ausência de representação se tornou um componente importante de sua relação com o poder.
Esse eleitor não quer apenas proteção social. Quer desenvolvimento econômico. Quer oportunidades para prosperar. Quer que seu esforço produza resultados concretos.
Existe ainda outra transformação fundamental nessa classe média: a mudança na relação com o trabalho.
Durante décadas, a carteira assinada representou o grande símbolo de estabilidade e ascensão social. O emprego formal, com salário previsível, férias e benefícios, era uma das principais aspirações das famílias brasileiras.
Essa realidade se tornou mais complexa. A expansão do trabalho autônomo, da prestação de serviços, do empreendedorismo e das plataformas digitais alterou a maneira como parte da população organiza sua vida econômica.
O brasileiro da classe média-média pode ser empregado, prestador de serviços, pequeno empreendedor e trabalhador informal em atividades complementares. Não significa que tenha abandonado o desejo de estabilidade, mas que passou a procurar diferentes caminhos para melhorar sua renda.
É uma classe que se arrisca porque precisa crescer. Que trabalha mais porque deseja melhorar. Que procura novas atividades porque percebe que o salário tradicional já não é suficiente para sustentar suas aspirações.
E essa transformação também modifica sua relação com a política.
O cidadão que precisa conquistar clientes, negociar contratos, administrar custos e assumir riscos para garantir seu rendimento tende a observar com especial atenção temas como tributação, burocracia, crédito e oportunidades econômicas.
É nesse ambiente que o discurso de valorização do empreendedorismo e da autonomia individual encontra espaço. E foi justamente esse discurso, associado à segurança pública, ao conservadorismo e à rejeição ao sistema político tradicional, que ajudou Jair Bolsonaro a estabelecer uma conexão com parcelas da classe média brasileira em 2018.
O bolsonarismo não criou o antipetismo. Ele encontrou um sentimento que já estava consolidado e ofereceu uma nova identidade política para esse eleitorado.
Em 2006, a rejeição ao PT estava fortemente associada às denúncias de corrupção. Nos anos seguintes, incorporou críticas à condução da economia, à qualidade dos serviços públicos e à capacidade do governo de produzir desenvolvimento. Em 2018, encontrou no bolsonarismo uma expressão eleitoral distinta daquela representada anteriormente pelo PSDB.
Essa trajetória ajuda a compreender a configuração política de 2026.
Na leitura que faço da eleição, Flávio Bolsonaro passou a concentrar parte importante da expectativa de alternância política entre eleitores que não se reconhecem no governo Lula. Não necessariamente porque todos estejam entusiasmados com sua candidatura, mas porque enxergam no campo bolsonarista a principal alternativa política ao petismo.
Existe uma diferença importante entre votar por identificação e votar por oposição. O primeiro comportamento pressupõe uma conexão afirmativa com determinado projeto. O segundo pode estar fundamentado principalmente na rejeição à continuidade de um governo.
Nas classes B2 e C1, essa segunda dimensão merece atenção especial.
Há também uma reorganização importante no outro campo político. Enquanto o lulismo preservou sua força entre os mais pobres, parte da esquerda urbana, especialmente entre jovens escolarizados e setores progressistas, passou a encontrar no PSOL uma representação partidária mais próxima de suas prioridades culturais e identitárias.
O PT, portanto, enfrenta movimentos distintos em diferentes segmentos sociais. Entre os mais pobres, precisa preservar uma identificação histórica diante de expectativas econômicas frustradas. Em determinados setores urbanos progressistas, disputa espaço com uma esquerda de nova geração. E, nas camadas intermediárias, convive com uma rejeição política construída ao longo de duas décadas.
É evidente que renda não determina automaticamente voto. Existem eleitores petistas nas classes B2 e C1, assim como existem eleitores bolsonaristas entre os mais pobres. Escolaridade, religião, território, geração e trajetória familiar também influenciam as escolhas políticas. A intensidade do antipetismo em cada classe precisa ser demonstrada pelas pesquisas, e não apenas presumida a partir de sua condição econômica.
Mas existe uma hipótese sociológica que considero fundamental para compreender o Brasil contemporâneo: a classe média-média passou a interpretar sua relação com o Estado a partir de uma sensação persistente de desequilíbrio entre esforço e recompensa.
É o brasileiro que trabalha, assume riscos, contrai dívidas e tenta oferecer melhores condições de vida à família, mas que nem sempre percebe uma melhora proporcional em seu padrão de vida.
Quando precisa trabalhar cada vez mais para preservar o mesmo consumo, desenvolve uma sensação de estagnação. Quando paga por serviços privados porque os públicos não atendem às suas necessidades, questiona a contrapartida recebida do Estado. Quando entende que o governo não reconhece suas dificuldades, transforma insatisfação econômica em distanciamento político.
O mensalão abriu uma ruptura. A crise econômica aprofundou esse distanciamento. O bolsonarismo ofereceu uma nova identidade. E a persistência das dificuldades cotidianas ajuda a explicar por que o antipetismo continua sendo uma força relevante na política brasileira.
O Brasil da classe média-média não está necessariamente procurando um governo que lhe ofereça benefícios. Está procurando um ambiente em que seu esforço produza prosperidade.
Talvez essa seja uma das principais chaves para compreender a transformação eleitoral brasileira desde 2006.
Porque, no fundo, essa classe não deseja apenas preservar o que conquistou. Ela quer continuar subindo. E quando a expectativa de ascensão dá lugar à sensação de estagnação, a promessa de mudança passa a adquirir um significado político muito maior.
O grande problema para qualquer governo não é apenas perder o apoio de quem piorou de vida. É perder a confiança de quem trabalha todos os dias, acredita que deveria estar melhor e já não enxerga no poder uma possibilidade de futuro.
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