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Da vanguarda à reação: a esquerda que parou no tempo

O desafio não deveria ser conservar o passado, mas compreender o presente para propor o futuro

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Apoiadores de Lula realizam ato na Avenida Paulista, em SP Wagner Origenes/Ato Press/Estadão Conteúdo - 11.10.2026

A esquerda nasceu da contestação. Sua origem política está associada à inconformidade com a ordem estabelecida, à disposição de enfrentar privilégios e à capacidade de propor transformações na sociedade. Durante boa parte de sua história, foi a esquerda que levantou os debates mais incômodos, questionou estruturas de poder e apresentou novas respostas para problemas que pareciam insolúveis. Era, por definição, uma força de mudança.

O problema é que, depois de chegar ao poder, uma parte importante da esquerda brasileira parece ter se acostumado a conservar aquilo que antes pretendia transformar.

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Há uma contradição bastante evidente nesse processo. Uma corrente política que construiu sua identidade na defesa das transformações sociais passou, em diversas áreas, a tratar qualquer proposta de mudança como uma ameaça. O discurso que antes era de vanguarda tornou-se, muitas vezes, uma reação à modernização. A esquerda, que pretendia mudar o mundo, passou a defender a preservação de um mundo que já não existe.

O Brasil de 2026 não é o Brasil de 2002. Mudaram as relações de trabalho, os padrões de consumo, a composição das famílias, as aspirações da classe média e até mesmo a maneira como as pessoas compreendem o papel do Estado. A tecnologia transformou a economia, novas profissões surgiram e milhões de brasileiros passaram a organizar suas vidas em modelos que simplesmente não existiam duas décadas atrás.

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Entretanto, parte da esquerda continua oferecendo respostas elaboradas para uma sociedade que deixou de existir.

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Relação trabalhista

Talvez o exemplo mais evidente seja a relação com a legislação trabalhista. A Consolidação das Leis do Trabalho, criada durante o governo de Getúlio Vargas, em 1943, representou um marco na organização das relações de trabalho no Brasil. Sua importância histórica é inegável. Mas reconhecer a importância de uma conquista não significa transformá-la em um instrumento intocável.

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Durante o debate da reforma trabalhista de 2017, setores importantes da esquerda preferiram concentrar sua atuação na resistência às mudanças, em vez de liderar uma discussão mais ampla sobre como proteger o trabalhador diante das novas formas de emprego. Evidentemente, havia críticas legítimas à reforma, sobretudo quanto ao risco de precarização. O problema está em confundir a defesa dos direitos com a preservação obrigatória de todos os mecanismos existentes.

O trabalhador de uma plataforma digital, o profissional autônomo, o pequeno empreendedor e o jovem que presta serviços para empresas de diferentes países não cabem necessariamente nas estruturas concebidas para a economia industrial do século passado. Essas pessoas continuam precisando de proteção social, segurança econômica e direitos. Mas isso exige novas respostas, e não apenas a repetição de soluções antigas.

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A esquerda poderia ter liderado esse debate. Poderia ter construído uma agenda de modernização das relações de trabalho que combinasse flexibilidade, produtividade e proteção social. Em vez disso, frequentemente deixou que a discussão sobre o futuro do trabalho fosse conduzida por seus adversários.

E aqui está uma questão central: quando uma força política deixa de compreender as transformações da sociedade, ela começa a perder a capacidade de representar as pessoas que pretende defender.

Problemas concretos

Há, entretanto, um movimento interessante acontecendo em outras partes do mundo. Uma nova geração de lideranças de esquerda começa a perceber que a recuperação de sua relevância política depende menos da defesa abstrata de identidades ideológicas e mais da capacidade de compreender os problemas concretos da população.

O custo da moradia talvez seja o exemplo mais significativo.

Em Nova York, Zohran Mamdani venceu a eleição para a prefeitura em 2025, colocando a crise do custo de vida no centro de sua campanha. A proposta de congelamento dos aluguéis de imóveis submetidos à regulação municipal foi uma de suas principais bandeiras. Não se tratava apenas de um debate tradicional entre esquerda e direita. Tratava-se de responder a uma angústia cotidiana de milhões de pessoas: trabalhar, receber um salário e descobrir que uma parcela cada vez maior da renda precisa ser destinada simplesmente a ter onde morar.

A pauta teve resultados eleitorais concretos. Mamdani conseguiu transformar um problema econômico em uma discussão política compreensível, especialmente entre os mais jovens. Em junho de 2026, a autoridade responsável pelos reajustes aprovou o congelamento temporário dos aluguéis de aproximadamente um milhão de apartamentos regulados.

Na Espanha, o Partido Socialista Operário Espanhol, o PSOE, também tenta colocar a crise habitacional no centro da discussão política. Diante das eleições antecipadas de novembro, Pedro Sánchez procura transformar a insatisfação com os preços dos imóveis e dos aluguéis em uma agenda capaz de reorganizar o debate público. As pesquisas ainda apontam dificuldades importantes para os socialistas, mas o tema da moradia voltou a ocupar um espaço central na disputa política.

São experiências diferentes, com resultados e circunstâncias distintos, mas que apontam para uma questão relevante: a política precisa voltar a conversar sobre aquilo que compromete o orçamento e o futuro das famílias.

E esse debate deveria ser particularmente importante no Brasil.

Custo de vida

O país passou por transformações econômicas profundas nas últimas décadas. Cidades médias cresceram, novas fronteiras de desenvolvimento foram consolidadas e regiões antes periféricas se transformaram em importantes centros de produção e geração de riqueza. Entretanto, o crescimento econômico não foi acompanhado, necessariamente, por uma expansão proporcional da oferta de moradias.

O resultado é uma pressão crescente sobre o custo de vida, inclusive em municípios que apresentam indicadores econômicos positivos.

Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, é um exemplo interessante dessa contradição. Localizada em uma das regiões mais dinâmicas do agronegócio brasileiro, a cidade reúne crescimento econômico, geração de empregos e uma demanda habitacional pressionada pela expansão de suas atividades produtivas. O preço dos aluguéis tornou-se um desafio importante para parte de seus moradores.

Estamos falando de uma cidade que, no primeiro turno da eleição presidencial de 2026, deu 74,18% dos votos válidos a Flávio Bolsonaro.

Esse dado deveria provocar uma reflexão importante na esquerda brasileira.

O eleitor de Lucas do Rio Verde pode ser conservador nos costumes, favorável ao agronegócio, crítico ao PT e identificado com o bolsonarismo. Nada disso significa que ele não enfrente dificuldades para pagar aluguel, comprar uma casa ou garantir condições melhores de vida para sua família.

É justamente nessa distinção que está uma das questões mais relevantes da política contemporânea. As preferências ideológicas de uma população não eliminam suas necessidades materiais. E os problemas econômicos enfrentados por eleitores de direita não são necessariamente diferentes daqueles vividos por eleitores de esquerda.

A questão não é imaginar que uma proposta habitacional seria suficiente para alterar o comportamento eleitoral de uma cidade profundamente identificada com o bolsonarismo. Seria uma simplificação equivocada. A questão é perceber que existem problemas concretos que atravessam as fronteiras ideológicas e que merecem ser discutidos independentemente da preferência partidária dos moradores.

Crescimento do agronegócio

O crescimento do agronegócio, por exemplo, produziu prosperidade e oportunidades em diversas regiões do país. Mas também trouxe desafios urbanos, como expansão desordenada, pressão sobre infraestrutura, aumento do custo dos terrenos e encarecimento da moradia. É uma agenda social que nasce justamente do desenvolvimento econômico.

Enquanto parte da esquerda insiste em interpretar essas regiões quase exclusivamente pela sua identidade política, deixa de observar as transformações sociais que acontecem dentro delas.

O mesmo vale para a classe média brasileira. O cidadão que ganha mais do que o suficiente para ficar fora das políticas assistenciais, mas não o bastante para viver com tranquilidade, enfrenta uma pressão permanente. Paga impostos, tenta manter um plano de saúde, procura uma escola privada para os filhos, financia um automóvel e compromete uma parcela significativa da renda com habitação.

É uma população que experimentou mudanças importantes em seus padrões de consumo, sobretudo depois da pandemia. Hoje, mais do que simplesmente adquirir bens, muitas famílias procuram ter acesso a serviços, mobilidade, segurança e qualidade de vida. O problema é que o custo dessa estrutura cresceu de maneira significativa.

Compreender o Brasil

Uma esquerda preocupada em compreender o Brasil contemporâneo precisaria olhar para esse eleitor sem preconceitos e sem pressupor que sua identidade política determina automaticamente suas necessidades sociais.

Isso não significa abandonar a defesa dos trabalhadores, a redução das desigualdades ou a proteção dos mais vulneráveis. Pelo contrário. Significa reconhecer que essas bandeiras precisam ser reinterpretadas diante de uma sociedade que mudou.

A defesa do trabalhador no século XXI não pode se limitar à legislação do século XX. A política habitacional não pode ser pensada apenas como construção de moradias populares. Precisa envolver oferta de imóveis, financiamento, planejamento urbano, mobilidade e condições de acesso ao aluguel. E a discussão sobre desigualdade precisa considerar também o custo dos serviços e as dificuldades de ascensão social de quem trabalha e não consegue acumular patrimônio.

O desafio da esquerda não deveria ser conservar o passado, mas compreender o presente para propor o futuro.

É evidente que existem setores progressistas que já fazem esse movimento, assim como existem forças de direita que resistem a transformações quando elas contrariam seus interesses. O conservadorismo institucional não é exclusividade de uma corrente ideológica. Mas a contradição se torna particularmente relevante quando aparece justamente entre aqueles que construíram sua identidade política na promessa de mudança.

Talvez a maior transformação necessária à esquerda brasileira não seja eleitoral, mas intelectual. Voltar a ouvir antes de classificar. Compreender antes de condenar. Debater antes de rejeitar. E, principalmente, aceitar que uma política pública não se torna inadequada simplesmente porque foi proposta por um adversário, assim como uma ideia não permanece correta apenas porque foi defendida historicamente pelo próprio campo político.

A esquerda nasceu quando decidiu questionar aquilo que parecia permanente. Sua capacidade de renovação dependerá de recuperar essa disposição, inclusive para questionar as próprias certezas.

Porque uma força política que nasceu para transformar a realidade não pode se contentar em defender que a realidade permaneça como era.

Afinal, quando a vanguarda passa a ter medo da mudança, corre o risco de se transformar justamente naquilo que nasceu para combater: uma força de reação.

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