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Um ano de guerra na Ucrânia

Dia 24 de Fevereiro de 2022 foi o dia mais aterrorizante da minha vida como repórter. E olha, que já passei por algumas situações de arrepiar o cabelo...

Crônicas do Stoliar|Do R7

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Um ano antes de começar a escrever esse texto, eu estava lá. Dia 24 de Fevereiro de 2022 foi o dia mais aterrorizante da minha vida como repórter. E olha, que já passei por algumas situações de arrepiar o cabelo...

O cinegrafista Luís Felipe Silveira e eu fomos dormir num lugar aparentemente tranquilo e acordamos no mais perigoso do mundo.


Poucas horas antes da guerra começar, fiz uma entrada ao vivo para o Jornal da Record direto de Mariupol, no leste da Ucrânia. O assunto era o perigo de uma possível invasão russa ao país e as chances disso acontecer. Nem os ucranianos acreditavam que haveria uma guerra, mas há.

Começou às 5 da manhã daquele dia 24.


Estava escuro e ouvi o barulho de alguém batendo na porta do quarto do hotel, que ficava a cerca de 800 metros da fronteira com a região de Donetsk. O barulho era alto. Por causa do fuso local, havia dormido às duas da manhã e ainda estava muito cansado. Essas coberturas são assim mesmo. Saí da cama sem ver um palmo na frente do nariz, enquanto a porta continuava sendo esmurrada. Quando abri, Luís Felipe, o tradutor e uma funcionária do hotel me aguardavam. A ordem era sair urgente do prédio, porque a Rússia estava invadindo o país. Vladimir Putin negava a intenção de invadir. Mentira.

Só tive tempo de pegar as malas (que já estavam prontas) e sair às pressas.


Não tínhamos carro, nem colete à prova de balas, muito menos lugar para ir. O motorista (um morador local que havia topado nos ajudar durante nossa estadia na cidade), não atendia o telefone. Fazia 7 graus negativos na rua. O som dos tiros e das bombas eram assustadores. De um lado, a funcionária fechava a porta do hotel para fugir. Do outro, um jovem de aproximadamente 18 anos, saía de casa com um fuzil pendurado no ombro. Ele fazia parte da resistência ucraniana.

Nosso tradutor tentava ligar para o motorista e nada. Foram quase 30 minutos sozinhos, no frio, com as malas no chão ao som das bombas e dos caças russos. Uma cidade de pouco mais de 400 mil habitantes sendo invadida pelo segundo maior exército do mundo. Nós, do lado mais fraco...


Foi impossível não pensar na morte. Mas depois de tanto tempo nessa situação, o motorista apareceu e nos tirou da cidade. Até hoje não sei explicar como isso aconteceu. A partir desse momento, passamos três dias sem comer, dormir ou tomar banho até entrar num trem cheio de refugiados que tentavam sair do país. As histórias que ouvimos no trem eram de dar nó na garganta. Mas minha memória ficou presa naquele primeiro dia de guerra.

Ainda lembro das pessoas correndo nas ruas e penso naquelas que não tiveram a mesma sorte que nós.

Aonde devem estar todos os ucranianos e ucranianas que nos deram entrevista, que nos contaram suas histórias, que abriram as portas de casa para nos receber com tanta hospitalidade? Não sei.

A única certeza hoje é que, depois de 1 ano, a guerra ainda está longe do fim.

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