Luana Piovani e Pedro Scooby: quando os pais dão munição para o bullying com a filha
Crianças e adolescentes têm direito à dignidade, ao respeito, à imagem e à preservação de sua intimidade
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Os piolhos da filha de Luana Piovani e Pedro Scooby são brasileiros ou portugueses? A pergunta parece uma piada, mas talvez seja uma das discussões mais tristes que a internet nos entregou nos últimos dias.
Luana e Scooby, que tiveram três filhos durante o casamento, voltaram ao centro das atenções por uma discussão que chegou a um nível absolutamente inimaginável: a origem dos piolhos dos filhos.
De um lado, Brasil. Do outro, Portugal. Mas pouco importa de onde vieram os piolhos.
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O que realmente deveria nos incomodar é outra coisa: por que nós sabemos que essas crianças tiveram piolho? Essa informação precisava ser pública?
Você conta para seus amigos, seus colegas de trabalho e seus vizinhos quando seu filho está com piolho? Você publica nas redes sociais? Você acha que seu filho gostaria que seus colegas de escola soubessem?
Provavelmente, não. E é justamente aí que uma discussão aparentemente banal começa a ficar muito séria.
Quando os próprios pais entregam a munição para o bullying
Falamos cada vez mais sobre bullying nas escolas. Cobramos professores, diretores, coordenadores e até outros pais. Ensinamos nossos filhos que determinadas características pessoais não devem ser utilizadas para humilhar ninguém.
Mas quem protege uma criança quando são os próprios pais que expõem sua intimidade?
Piolho não é motivo de vergonha. É algo comum, especialmente entre crianças, e pode acontecer em qualquer família.
A vergonha não está nisso.
O problema é transformar uma questão privada de uma criança em assunto para milhões de pessoas.
A partir do momento em que uma informação dessas ganha a internet, ela deixa de pertencer à família. Pode virar comentário, apelido, meme, provocação na escola e conteúdo que permanecerá disponível durante anos.
As crianças passam a ser, para algumas pessoas, “os filhos que estavam com piolho”.
E foram elas que escolheram isso?
Não.

Nesse sentido, talvez exista uma pergunta ainda mais desconfortável: quando um pai expõe desnecessariamente uma informação íntima do filho para atacar o outro genitor, ele não está também contribuindo para o constrangimento que diz querer evitar?
Não seria uma espécie de bullying produzido dentro da própria família?
O casamento acabou. A guerra, não.
O caso também revela um comportamento que observo com frequência na advocacia de família.
Existem pessoas que se divorciam juridicamente, mas permanecem emocionalmente casadas pelo conflito.
O relacionamento acabou, cada um seguiu sua vida, novas relações surgiram, os anos passaram, mas permanece uma necessidade quase permanente de fiscalizar o outro.
Como educa.
Como alimenta.
Como veste.
Onde leva.
Com quem deixa.
O que permite.
O que proíbe.
E, agora, aparentemente, até onde o filho pegou piolho.
É como se o divórcio tivesse encerrado o casamento, mas criado uma nova relação: a relação baseada na disputa.
E os filhos acabam funcionando como ponte permanente entre duas pessoas que não conseguiram efetivamente encerrar a própria história.
Seu ex não precisa ser o pai ou a mãe que você gostaria
Existe uma verdade difícil de aceitar depois de uma separação. Você não escolhe como seu ex vai exercer a maternidade ou a paternidade. E mais: na maioria das vezes, aquela pessoa já era exatamente quem é hoje.
Nós escolhemos nossos companheiros. Construímos relações. Decidimos ter filhos com eles. Evidentemente, pessoas mudam e existem situações graves que exigem intervenção, inclusive judicial.
Mas diferenças na maneira de educar não transformam automaticamente o outro em um pai ou uma mãe incapaz.
Seu ex pode fazer diferente de você.
Pode ter outra rotina.
Pode permitir coisas que você não permitiria.
Pode ser mais rígido ou mais flexível.
E os filhos, dentro dos limites daquilo que é saudável e seguro, também precisam aprender a conviver com essas diferenças.
Porque eles têm aquele pai. E têm aquela mãe.
O divórcio não dá a ninguém o direito de reconstruir o outro de acordo com as próprias expectativas.
Existe uma diferença enorme entre proteger e controlar
Se existe violência, negligência, abuso, abandono ou uma situação que coloque a criança efetivamente em risco, evidentemente os responsáveis devem agir.
Conselho Tutelar, Ministério Público e Poder Judiciário existem justamente para situações que demandem intervenção.
Mas isso é completamente diferente de transformar cada divergência parental em um tribunal público nas redes sociais.
Instagram não é Vara de Família.
Seguidores não são desembargadores.
Curtidas não são provas.
E comentários favoráveis não transformam ninguém automaticamente em um bom pai ou uma boa mãe.
Talvez esse seja um dos grandes problemas da nossa época: pessoas passaram a buscar na internet a sentença emocional que não conseguiram obter no relacionamento.
Publicam um pedaço da história e aguardam o júri popular.
Só que existe alguém que normalmente não pediu para participar desse julgamento: o filho.
Criança não pode ser conteúdo da guerra dos pais
Há ainda uma questão jurídica importante.
Crianças e adolescentes têm direito à dignidade, ao respeito, à imagem e à preservação de sua intimidade. A proteção integral da infância não desaparece porque quem está expondo determinada informação é o próprio pai ou a própria mãe.
Ser responsável por uma criança não significa ser proprietário da intimidade dela.
Essa distinção será cada vez mais importante em uma sociedade na qual praticamente toda infância pode ser documentada e publicada.
Existe uma geração crescendo com uma biografia digital que começou a ser construída antes mesmo que ela pudesse compreender o significado de exposição.
Fotos, doenças, crises, castigos, notas escolares, dificuldades emocionais, brigas familiares e episódios constrangedores são publicados por adultos.
Um dia essas crianças crescerão.
E talvez façam uma pergunta muito simples aos próprios pais:
“Por que você contou isso para todo mundo?”
Qual será a resposta?
Talvez esteja na hora de os adultos crescerem
Separações são dolorosas. Existem mágoas, frustrações e ressentimentos legítimos.
Ninguém precisa fingir que um casamento terminou maravilhosamente quando não terminou.
Mas existe uma diferença entre sentir raiva e transformar o filho em instrumento dessa raiva.
Quando nasce uma criança, algumas discussões deixam de ser apenas sobre o que queremos.
Porque alguém passou a depender da nossa capacidade de sermos adultos.
Talvez seja essa a grande reflexão deixada por essa história.
Não interessa se os piolhos são brasileiros.
Não interessa se são portugueses.
Não interessa quem estava certo.
Interessa que estamos falando de crianças que não pediram para que milhões de pessoas soubessem de uma questão íntima delas.
Pais separados não precisam gostar um do outro.
Não precisam ser amigos.
Não precisam concordar sobre tudo.
Mas precisam compreender que existe uma linha que não deveria ser atravessada.
A intimidade dos filhos não pode ser o preço pago pela incapacidade dos adultos de encerrar suas próprias guerras.
No final das contas, o problema nunca foram os piolhos.
O problema é quando os adultos continuam brigando como crianças e obrigam as crianças a suportar as consequências.
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