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Maurício Noriega: 10 anos após a Rio 2016, esporte brasileiro segue sem projeto

Apesar do sucesso dos Jogos no país, seguimos vivendo de fenômenos esporádicos e modalidades consagradas vivem graves crises

Espaço Prisma|Maurício Noriega, especial para o R7*

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Parque Olímpico é um dos legados dos Jogos Rio 2016 Divulgação/Candidatura Rio-Niterói Pan 2031

Foi bonita a festa, pá! O canto de Chico Buarque em “Tanto Mar” é um bom resumo dos dias de sonho vividos no Rio de Janeiro entre 5 e 21 de agosto de 2016. O cartão-postal do Brasil recebeu a primeira edição dos Jogos Olímpicos na América do Sul.

Abertura maravilhosa, festa incrível, grandes atletas desfilando pelo Rio. As despedidas de Michael Phelps, o maior nadador da história, do velocista Usain Bolt, as medalhas de ouro do futebol, do vôlei, do judô, da vela. Ficamos contentes.

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Dez anos depois de anestesiados pelo espírito olímpico, qual o legado que ficou para o esporte brasileiro?

Uma análise livre de ufanismos revela um quadro preocupante. O Brasil conquistou 19 medalhas nos Jogos de 2016. Até então, a melhor participação em termos históricos, com sete de ouro, seis de prata e seis de bronze.

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Cinco anos depois, atrasada pela pandemia, a segunda Olimpíada de Tóquio teve desempenho ainda melhor do Brasil: 21 medalhas, sendo sete de ouro, seis de prata e oito de bronze. Em Paris, 2024, uma queda: 20 metais, sendo três de ouro, sete de prata e dez de bronze.

O debate não pode se restringir ao quadro de medalhas. O que de fato ocorreu com o esporte brasileiro desde 2016? Havia a vaga promessa do então presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB) de que o país se transformaria em potência olímpica a partir de então.

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Em vez disso, o esporte viveu um retrocesso, e Nuzman foi afastado do Movimento Olímpico por suspeita de compra de votos para realizar os Jogos no Brasil.

O vôlei, catapultado por Nuzman ao topo quando ele presidiu a Confederação Brasileira, vive grave crise na modalidade masculina. O basquete feminino, medalha de prata em 1996, não disputa os Jogos desde 2016. O masculino voltou em 2024, após oito anos de ausência.

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A natação saiu sem medalhas de Paris. Em Tóquio, o Brasil teve seu pior desempenho histórico no judô, esporte em que é uma potência. A recuperação veio com a melhor campanha de todos os tempos em Paris. A Vela, de Robert Scheidt e da Família Grael, passou em branco em 2024.

Pinçar resultados positivos e negativos é mera ilustração

O esporte brasileiro segue vivendo de fenômenos esporádicos. Não existe e nunca existiu um projeto esportivo nacional. O acesso ao esporte segue um modelo arcaico: escola, clube competitivo e alto rendimento.

Não há projeto de Estado para o esporte, uma linha de trabalho consistente que possa inserir a atividade esportiva no contexto educacional e, a partir disso, trabalhar o setor competitivo.

A oferta de equipamentos esportivos públicos no Brasil é irrisória. Quantas cidades têm pista de atletismo, piscina, campos e academias públicas?

Modalidades de sucesso comprovado, como o voleibol masculino, vivem uma grave crise nas categorias de base.

Há escolas no Brasil em que a figura do professor de educação física simplesmente não existe. Ouvi relatos de professores de matemática e português dando aula de educação física.

Claro que houve resultados importantes na Rio 2016. Segundo estudo de 2024 da Fundação Getúlio Vargas, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos geraram R$ 99 bilhões de impacto sobre o Valor Bruto de Produção, R$51,2 bilhões sobre o PIB, R$ 5,3 bilhões em impostos e R$ 36,2 bilhões sobre a renda das famílias do Rio de Janeiro. Foram criados 465,4 mil empregos na cidade e 167,8 mil no Estado do Rio.

A questão está no que aconteceu, ou melhor, no que não aconteceu com o esporte brasileiro. Segue vivendo de fenômenos. O basquete teve Paula, Hortência, Amaury, Wlamir, Oscar e não gerou tração. O atletismo teve Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo, Joaquim Cruz, Maurren Maggi, Thiago Braz e não gerou tração.

O handebol foi campeão mundial feminino e não gerou tração. A natação teve Gustavo Borges, Xuxa, Cielo e não gerou tração. O tênis teve Maria Esther, Guga, tem Bia e Fonseca e não gera tração.

As notícias de afastamentos de dirigentes seguem mais frequentes que as de grandes conquistas. O judô e o vôlei têm continuidade, mas não se viram livres de sérios problemas e escândalos administrativos.

O esporte olímpico brasileiro não tem uma grande liga competitiva que seja referência. A Superliga de Vôlei, que viveu essa realidade, enfrenta crise administrativa e reclamações por custos elevados.

O esporte brasileiro continua sendo uma reprodução dos velhos sistemas feudais da Idade Média. Nichos de poder muitas vezes ocupados pelas mesmas pessoas ou famílias por décadas.

O desperdício de talento é de fazer chorar

Temos a impressão de que o brasileiro adora esporte. Não é bem assim. O torcedor brasileiro adora as vitórias no esporte. Ainda nos falta a cultura esportiva, a compreensão e o entendimento dos processos e de que leva tempo para se construir essa cultura e ainda mais tempo para consolidá-la.

Uma das mais dolorosas evidências da falta de projeto esportivo no Brasil está no ramo estudantil. Aquele que seria o principal braço de captação de talento não tem uma visão sistêmica implantada.

Em especial no esporte universitário, que em nosso país pode ser enquadrado na categoria entretenimento. É motivo para festa e balada.

Dez anos depois da Rio 2016, novamente peço licença ao grande Chico Buarque para fechar esse texto.

Canta primavera, pá. Cá estou carente. Manda novamente algum cheirinho de alecrim para o esporte brasileiro!

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