Guilherme Matiello: O Brasil ficou complexo demais para operações remotas de e-commerce?
Como a complexidade do mercado brasileiro está mudando a abordagem das empresas de tecnologia
Espaço Prisma|Guilherme Matiello, especial para o R7*
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Durante anos, a expansão internacional de empresas de tecnologia seguiu uma lógica relativamente previsível. As marcas definiam sua estratégia global, adaptavam algumas iniciativas para mercados específicos e buscavam replicar modelos que já haviam funcionado em outras regiões.
Em muitos casos, acreditava-se que a digitalização dos negócios reduziria as barreiras geográficas e tornaria a gestão de operações cada vez mais centralizada.
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Não existe uma resposta única para todas as empresas. O que parece cada vez mais claro, porém, é que o Brasil deixou de ser um mercado em que a presença digital pode ser administrada como uma extensão de outra operação internacional.
O crescimento do comércio eletrônico elevou o nível de sofisticação exigido das marcas e transformou a execução local em um diferencial competitivo.
Talvez essa seja uma das principais mudanças do e-commerce brasileiro nos últimos anos. O desafio já não é apenas entrar no mercado. É entender que, para crescer de forma consistente, é preciso operar como quem realmente conhece o mercado em que está inserido.
O que estamos observando no Brasil aponta para a direção oposta
À medida que o comércio eletrônico amadureceu, a operação local deixou de ser uma simples etapa de execução e passou a exigir um nível de especialização difícil de coordenar à distância.
Não por acaso, muitas empresas globais de tecnologia têm revisitado a forma como estruturam sua presença no país, transferindo parte da operação para equipes e parceiros com conhecimento profundo do mercado brasileiro.
A mudança acontece em um momento particularmente relevante. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce nacional deve movimentar mais de R$ 259 bilhões em 2026, mantendo uma trajetória consistente de crescimento.
O dado ajuda a explicar por que tantas marcas continuam olhando para o Brasil como um mercado estratégico. Mas o tamanho da oportunidade também traz um efeito colateral: quanto maior o mercado, maior a complexidade necessária para competir nele.
Existe uma percepção recorrente entre empresas que iniciam sua atuação no país de que o principal desafio está na adaptação comercial ou na localização do produto. Na prática, a operação costuma ser muito mais complexa.
Questões tributárias, integração com marketplaces, gestão logística, atendimento ao consumidor, meios de pagamento e particularidades regulatórias formam um ambiente que exige decisões rápidas e conhecimento local. São elementos que raramente aparecem nos planejamentos globais, mas que influenciam diretamente nos resultados.
A ascensão dos marketplaces tornou esse cenário ainda mais evidente. Diferentemente de outros mercados, nos quais o canal próprio concentra parcela relevante das vendas, o consumidor brasileiro está profundamente conectado a grandes ecossistemas digitais.
Entender a dinâmica comercial dessas plataformas, suas regras de ranqueamento, estratégias promocionais e comportamento de consumo tornou-se uma competência estratégica. E essa é uma competência que dificilmente pode ser desenvolvida apenas por equipes localizadas fora do país.
Por isso, a discussão que muitas multinacionais estão fazendo atualmente não gira em torno da redução de custos, como frequentemente se imagina. O debate é sobre eficiência operacional.
Vale mais a pena construir internamente toda a estrutura necessária para navegar um mercado complexo ou concentrar esforços em inovação, produto e estratégia, deixando a execução nas mãos de especialistas que já conhecem o terreno?
Não existe uma resposta única para todas as empresas. O que parece cada vez mais claro, porém, é que o Brasil deixou de ser um mercado em que a presença digital pode ser administrada como uma extensão de outra operação internacional.
O crescimento do comércio eletrônico elevou o nível de sofisticação exigido das marcas e transformou a execução local em um diferencial competitivo.
Talvez essa seja uma das principais mudanças do e-commerce brasileiro nos últimos anos. O desafio já não é apenas entrar no mercado.
É entender que, para crescer de forma consistente, é preciso operar como quem realmente conhece o mercado em que está inserido.
*Guilherme Matiello é vice-presidente de empresa de importação e exportação.
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