Noriega: Sim, Abel, o futebol está doente. Eu, tu, eles, nós, vós, eles somos responsáveis
Desabafo importante do treinador do Palmeiras é correto, mas ele precisa assumir sua parcela no diagnóstico
Espaço Prisma|Maurício Noriega, especial para o R7*
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Abel Ferreira fez um duro e importante desabafo após a vitória do Palmeiras sobre o Cerro Porteño. Classificado às quartas de final da Libertadores, o treinador português soltou o verbo e fez ataques diretos a um alvo bem definido.
“Eu acho que o futebol, de um modo geral, está doente. Porque, se você não ganhar, você é fraco; se não ficar em primeiro, não presta; o segundo é uma merda”, disse Abel.
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Visivelmente incomodado com as críticas feitas ao fraco desempenho de seu time nos últimos jogos, o treinador disparou recados, sem rodeios. “Se não prestarem atenção, vamos nos contaminar com o que está ao redor.
A forma como andamos a ver o futebol é doentia. Se não for o melhor aluno na escola, se não der o retorno, o meu esforço não é valorizado? Chegar e competir sempre, por perder me faz um perdedor? Perdedor é o que desiste”.
O endereço das pancadas de Abel é claro: a imprensa esportiva. Ou parte dela, como ele procurou dividir na resposta a um repórter. “Tem alguns colegas seus que admiro, mas tem outros que vou ter que começar a pôr os nomes, porque muitos de vocês da imprensa, da forma como falam, intoxicam o futebol brasileiro”.
Evitarei o caminho fácil do espírito de corpo. Abel tem razão quando aponta comportamentos tóxicos. Boa parte deles é de responsabilidade de um tipo de jornalismo com o qual não compactuo. Exercido por gente que nem jornalista é, mas vive do jornalismo e adora criticar o jornalismo.
Também não me eximirei de minha parcela de responsabilidade. Faço parte do quadro e, claro, cometo excessos em análises e cobranças, mas dentro de um limite que considero razoável.
Ainda assim acho que algumas cobranças que eventualmente faço são precipitadas e desproporcionais. A análise de futebol no Brasil navega ao sabor do resultado. No Brasil e no mundo.
Quando há uma doença, é preciso identificar os fatores que levam a ela. Ao fazer um check-up completo do futebol brasileiro, os exames mostram que também há responsabilidade de Abel, treinadores, jogadores e dirigentes pelas patologias.
O comportamento agressivo e desproporcional de Abel e seus auxiliares à beira do gramado é um sintoma. Os xingamentos, chutes em copos e microfones denotam descontrole. Ao ponto de já ter arrancado o celular da mão de um repórter em área permitida ao profissional. Abel é seletivo em suas críticas.
Em alguns momentos, quando perde, é sorte do adversário ou responsabilidade do gramado ruim. Em outros, aponta os erros de arbitragem contra seu time e esquece daqueles que acontecem a seu favor. Também é um sintoma, pá!
Os bate-bocas infantis de presidentes de clubes, que muitas vezes evoluem para ataques verbais mais pesados, também são detectados no sangue do nosso futebol. Jogadores que simulam faltas inexistentes, tentam enganar a arbitragem o tempo todo, goleiros que se atiram ao gramado para ganhar tempo, provocações em redes sociais.
Árbitros despreparados que estragam jogos. As dívidas acumuladas por clubes que gastam muito mais do que arrecadam e pagam salários de superestrelas para jogadores comuns.
A falta de apreço pela qualidade do jogo também é um sintoma grave do futebol brasileiro, no qual, vindo a vitória, está sempre tudo certo. Os fins justificam os meios.
Abel, o futebol está doente, você tem razão. Eu, tu, eles, nós, vós, eles, somos todos responsáveis por isso. Quando cada um assumir sua parcela de culpa e fizer um exame de consciência, estaremos dando um passo importante para identificar a bactéria e aplicar o antibiótico mais eficaz.
*Maurício Noriega é comentarista esportivo da RECORD
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