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Primavera dos extremos e dos contrastes: o que esperar da estação com o super El Niño?

Normalmente, o fenômeno já causa mudanças; com a expectativa de ser mais intenso, os efeitos podem ser acentuados

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MARCO AMBROSIO/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Marco Ambrosio/Ato Press/Estadão Conteúdo - 22.09.2026

A primavera, que começou às 21h05 desta terça-feira (22), marca a transição entre o período mais seco e frio e uma fase de maior umidade e elevação das temperaturas em grande parte do Brasil.

Mas, em um cenário de mudanças climáticas e sob influência de fenômenos como o El Niño, os padrões tradicionais da estação podem sofrer alterações e trazer novos desafios.


Mais do que acompanhar a previsão de chuvas e temperaturas, entender essas mudanças é importante para setores como a agricultura, o planejamento das cidades e a gestão dos recursos naturais.

A adaptação a um clima cada vez mais variável também passa por escolhas que envolvem infraestrutura, energia e redução das emissões de gases de efeito estufa.


Para entender o que podemos esperar desta primavera e quais são os principais impactos para o país, conversamos com a meteorologista e porta-voz da Climatempo, Maria Clara Sassaki.

Ela explica as projeções para o início da estação, as diferenças esperadas entre as regiões brasileiras, os possíveis efeitos sobre a agricultura e os desafios que ainda temos pela frente quando o assunto é adaptação às mudanças climáticas. Leia a entrevista a seguir:


1. Tradicionalmente, a primavera é uma estação de transição, marcada por variações de temperatura e chuvas mais frequentes. Mas, em um ano de forte influência do El Niño, é preciso se preparar para algo além do que já é esperado para a estação?

Maria Clara Sassak — Sim. A primavera já é naturalmente uma estação de bastante variabilidade, mas neste ano temos um outro fenômeno: a presença de um El Niño que já está na categoria mais forte da escala e pode se tornar o mais intenso da história. Os dados mais recentes da NOAA apontam mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno esteja na categoria muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro.


Normalmente esse fenômeno já causa mudanças nas condições do tempo e do clima no mundo todo. E, com a expectativa de ser um fenômeno mais intenso, os efeitos podem ser acentuados.

Mas isso não significa que teremos os mesmos impactos em todo o país, mas aumenta a probabilidade de extremos climáticos. Podemos ter, de um lado, períodos de chuva mais intensa no Sul e em partes do Sudeste e, de outro, calor e períodos mais secos no Norte, Nordeste e em áreas do Brasil Central.

Outro ponto importante é que o El Niño não atua sozinho. As condições do Atlântico, a circulação atmosférica e a atuação de sistemas como frentes frias e a ZCAS também interferem no resultado final. Por isso, mais do que pensar apenas em uma primavera “mais quente” ou “mais chuvosa”, é importante estar preparado para maior variabilidade e episódios extremos.

2. O que os modelos climáticos indicam para o começo da primavera em cada região do país? Quais áreas devem ter mais chuva e quais podem enfrentar períodos de calor ou de estiagem?

Maria Clara Sassak — O cenário é bastante contrastante.

No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, a tendência é de chuvas acima da média. Partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul também aparecem com sinal de precipitação acima da média. Isso não significa chuva constante, mas aumenta a possibilidade de episódios de chuva volumosa e tempestades.

No Sudeste, o cenário é mais heterogêneo. São Paulo aparece entre as áreas com tendência de chuva acima da média no trimestre, enquanto Minas Gerais e Espírito Santo têm maior probabilidade de precipitação abaixo da média. A atuação de frentes frias e da ZCAS pode provocar mudanças rápidas no padrão de tempo.

No Centro-Oeste, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás apresentam diferenças importantes entre si. Mato Grosso e norte de Goiás aparecem com tendência mais seca, enquanto parte de Mato Grosso do Sul tem sinal de chuva acima da média.

No Norte e Nordeste, a tendência é de maior déficit de chuva. Na Amazônia Legal, inclusive, o El Niño pode atrasar a transição entre a estação seca e a chuvosa. Isso é particularmente preocupante porque algumas áreas já vêm acumulando déficit hídrico.

E há um elemento comum a praticamente todo o país: temperaturas acima da média. A Climatempo aponta essa tendência para grande parte do território, com possibilidade de ondas de calor, especialmente durante os períodos de bloqueio atmosférico.

3. Pensando na agricultura, podemos esperar uma primavera favorável às lavouras? Ou as condições climáticas previstas podem trazer algum risco para o setor?

Maria Clara Sassak — A resposta depende muito da região e da cultura. Não dá para classificar a primavera como simplesmente favorável ou desfavorável para a agricultura.

A primavera é fundamental porque marca o início ou a intensificação do plantio de várias culturas de verão. A regularização das chuvas é positiva para a implantação das lavouras, mas a distribuição dessa chuva ao longo do tempo é tão importante quanto o volume acumulado.

No Sul, por exemplo, o excesso de chuva pode trazer problemas relacionados à saturação do solo, erosão, doenças e dificuldade de operação das máquinas. Já nas áreas em que a chuva pode ficar abaixo da média, o risco é justamente o oposto: atraso no plantio, necessidade maior de irrigação e estresse hídrico.

E existe ainda a combinação entre calor e falta de chuva, que aumenta a evapotranspiração e acelera a perda de água do solo.

Então, para o produtor rural, talvez a palavra mais importante nesta primavera seja planejamento: acompanhar as previsões, o balanço hídrico e as condições do solo e adaptar o calendário e as práticas agrícolas às condições observadas.

4. Quando falamos em adaptação às mudanças climáticas, quais são hoje os principais pontos em que o Brasil ainda precisa avançar?

Maria Clara Sassak — Um dos principais desafios é deixar de pensar apenas na resposta ao desastre e avançar cada vez mais para prevenção e adaptação.

Isso passa por melhorar o monitoramento meteorológico e hidrológico, ampliar sistemas de alerta, preparar municípios, melhorar a infraestrutura de drenagem e reduzir a ocupação de áreas de risco. Também envolve segurança hídrica, planejamento agrícola e adaptação das cidades às ondas de calor.

Outro ponto fundamental é transformar informação científica em decisão prática. O Brasil possui uma quantidade enorme de dados e instituições capazes de monitorar o clima, mas precisamos fazer com que essa informação chegue de maneira rápida e compreensível a quem precisa tomar decisões.

O próprio Plano Clima Adaptação, do governo federal, estabelece estratégias e planos setoriais para reduzir a vulnerabilidade do país aos impactos climáticos, envolvendo áreas como agricultura, recursos hídricos, cidades, saúde, energia e gestão de riscos e desastres.

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