Quais são os impactos do super El Niño e o que é mito ou verdade sobre o fenômeno
Responsável pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, será que ele está por trás de episódios extremos dos últimos meses?
Muito tem se falado sobre a influência do super El Niño em eventos climáticos registrados nos mais diferentes pontos do planeta. Mas será que o fenômeno, responsável pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, realmente está por trás de tantos episódios extremos registrados nos últimos meses?
Para esclarecer essa questão, reunimos algumas das principais dúvidas sobre o tema. Com a ajuda do meteorologista da Climatempo, Rennan Barbosa Suares, explicamos quais são, de fato, os impactos do super El Niño e o que é mito ou verdade sobre a influência do fenômeno nas mudanças climáticas que vêm colocando vidas e ecossistemas em risco.
1. Mito ou verdade: O super El Niño aumenta a frequência e a intensidade de eventos extremos, como ondas de calor, secas e chuvas intensas.
Verdade, com uma ressalva importante. Um super El Niño (evento de El Niño muito intenso) aumenta a probabilidade de ocorrência de eventos climáticos extremos em diversas partes do mundo, mas não significa que todos os extremos serão causados exclusivamente pelo fenômeno. A resposta depende da região e da interação com outros padrões atmosféricos. No caso do Brasil, os principais impactos esperados são:
• Sul do Brasil: aumento da frequência de frentes frias e sistemas de baixa pressão, favorecendo episódios de chuva intensa, enchentes e deslizamentos.
• Norte e Nordeste: tendência de redução das chuvas, elevando o risco de estiagem, seca e queimadas.
• Centro-Oeste e parte do Sudeste: maior probabilidade de temperaturas acima da média, com aumento da ocorrência e da duração de ondas de calor, veranicos, especialmente durante a primavera e o verão.
2. O super El Niño foi o principal responsável pelo frio intenso no Sul do Brasil e pelo calor recorde registrado na Europa?
Mito. Embora o El Niño já esteja atuando, as projeções indicam que a intensidade máxima deve ocorrer entre os meses de dezembro e janeiro, quando seus impactos climáticos tendem a ser mais evidentes. Além disso, o El Niño pode influenciar o clima em escala global, mas não explica, isoladamente, o frio intenso registrado no Sul do Brasil nem o calor recorde observado na Europa.
Esses eventos são resultado da interação entre diversos sistemas atmosféricos e fatores climáticos. No caso das ondas de calor na Europa, por exemplo, o aquecimento global desempenha um papel fundamental ao elevar a temperatura média do planeta e aumentar a frequência, a intensidade e a duração desses episódios extremos. Já o frio intenso no Sul do Brasil está relacionado, principalmente, à atuação de massas de ar polar e à configuração da circulação atmosférica.
3. O super El Niño afeta apenas os países banhados pelo Oceano Pacífico e não interfere no clima do Brasil.
Mito. Embora o fenômeno se forme no Oceano Pacífico Equatorial, seus efeitos não ficam restritos aos países banhados por esse oceano. O El Niño, independentemente da sua intensidade, modifica a circulação atmosférica em escala global por meio de teleconexões climáticas, influenciando o regime de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta, incluindo o Brasil.
4. Um episódio de super El Niño pode influenciar a produção agrícola, provocando perdas em algumas culturas e favorecendo outras?
Verdade. O El Niño pode afetar a produção agrícola ao modificar os padrões de chuva e temperatura. Algumas culturas podem registrar perdas por excesso de chuva, seca ou calor intenso, enquanto outras podem ser favorecidas, dependendo da região, da cultura e do estágio de desenvolvimento da lavoura. Por isso, seus impactos variam bastante entre as diferentes áreas produtoras do país.
5. Mito ou verdade: As mudanças provocadas por um super El Niño podem ter impactos na geração de energia, especialmente nas hidrelétricas?
Verdade. As alterações nos padrões de chuva e temperatura provocadas pelo El Niño podem impactar diretamente a geração de energia, especialmente a hidrelétrica, que ainda é a principal fonte da matriz elétrica brasileira.
Os efeitos variam conforme a região:
• Sul: o aumento das chuvas tende a elevar as vazões dos rios e a afluência aos reservatórios, favorecendo a geração hidrelétrica.
• Sudeste e Centro-Oeste: os impactos são mais variáveis. Em eventos de El Niño, é comum ocorrer redução das chuvas no interior dessas regiões, o que pode diminuir as afluências nas principais bacias do SE/CO.
• Norte: algumas bacias podem registrar redução das chuvas e das vazões, afetando usinas importantes, como Belo Monte e Tucuruí.
Além da oferta de energia, o El Niño também pode influenciar a demanda. Temperaturas acima da média aumentam o uso de aparelhos de ar-condicionado e ventiladores, elevando o consumo de eletricidade, principalmente nas regiões mais populosas.
6. O aquecimento global pode potencializar os impactos de um super El Niño, tornando alguns eventos climáticos ainda mais severos?
Verdade. O aquecimento global não causa o El Niño, mas pode intensificar seus impactos. Como a atmosfera e os oceanos estão mais quentes, eventos como ondas de calor, chuvas intensas e secas tendem a ser mais severos quando ocorrem durante um episódio de El Niño. A combinação desses dois fatores aumenta a probabilidade de extremos climáticos em diversas regiões do planeta, incluindo o Brasil.
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