Deepfakes: veja como se proteger de golpes de ameaças em vídeo e voz
Descubra como criminosos estão utilizando tecnologia avançada para aplicar fraudes e de que forma se prevenir
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A campainha do celular toca num domingo à tarde. Dona Maria vê o número aparecer: é seu filho Lucas, aquele que está viajando a trabalho em São Paulo. Ela atende.
Do outro lado, uma voz que ela reconheceria em qualquer lugar. Ligeiramente ofegante, como se estivesse em pânico. “Mãe, aconteceu uma emergência aqui. Bati o carro, estou ferido. A polícia quer uma multa pesada para soltar o carro: R$ 3,5 mil. Mãe, por favor, você consegue fazer um Pix agora? Rápido, antes de piorar.”
A voz é dele. Não há dúvida. O timbre familiar, até aquele leve sotaque carioca que Lucas carregava desde criança. Dona Maria começa a tremer de preocupação. Ela abre seu aplicativo bancário, digita o número que a “voz de Lucas” passou e faz a transferência.
Trinta minutos depois, Lucas liga para ela.
“Oi, mãe, tudo bem? Cheguei no hotel, relaxando aqui.”
O coração dela cai. O pânico se transforma em horror. Nem precisa perguntar — já sabe. Caiu num golpe. Um dos mais sofisticados do Brasil em 2025: o golpe do falso familiar com clonagem de voz por inteligência artificial.
O que estava acontecendo por trás dessa ligação?
A tecnologia de clonagem de voz não é ficção científica. Não é coisa de filme futurista. Está aqui, agora, sendo usada por criminosos.
Semanas ou meses antes dessa ligação, alguém — talvez até sem Lucas saber — havia coletado amostras de sua voz. Pode ter vindo de um Stories no Instagram, de um vídeo no TikTok, até de uma ligação automática “muda” que Lucas atendeu pensando ser um erro.
Bastam três segundos de áudio para que um software de IA aprenda:
- O timbre da voz
- O ritmo de fala
- A entonação e emoção
- Os sotaques e inflexões.
Com apenas esses dados, a inteligência artificial consegue gerar uma voz 93% idêntica à original — tão parecida que uma máquina tem dificuldade em distinguir. E quando você está em pânico, recebendo uma ligação urgente de quem você mais ama? Sua defesa racional desaparece. É exatamente com o que os criminosos contam.
A dimensão real do problema
Você pode estar pensando: “Isso é raro, vai que acontece comigo”. Infelizmente, não.
No Brasil:
- 51% dos brasileiros foram vítimas de algum tipo de fraude digital em 2024
- 24% especificamente (cerca de 40 milhões de pessoas) enfrentaram golpes digitais nos últimos 12 meses
- As perdas financeiras atingiram R$ 10,1 bilhões em 2024 - um aumento de 17% em relação a 2023
- Apenas com transferências por Pix, o prejuízo foi de R$ 2,7 bilhões, crescimento assustador de 43%
- Em apenas cinco meses de 2025, foram identificados 18 casos de deepfakes em golpes - o dobro de todo o ano anterior.
Globalmente, os golpes de personificação impulsionados por IA cresceram 148% entre 2024 e 2025. Os golpes de voz especificamente subiram 100%.
E tem mais: criminosos conseguem clonar sua voz com amostras cada vez menores. No Brasil — que lidera o ranking global de spam calls com 26 ligações indesejadas por mês, por residente — os golpistas exploram esse apelo emocional, imitando vozes de filhos, netos e cônjuges em situações que parecem emergências.
Como os criminosos conseguem os dados para criar as vozes falsas
Isso é o que mais assusta. Os dados que os criminosos precisam estão em toda parte:
Nas redes sociais:
- Suas fotos, nome, nomes de parentes, aniversários
- Check-ins que mostram sua localização
- Conversas públicas com detalhes de família
- Vídeos e Stories onde você fala.
Na internet:
- Vazamentos de dados de empresas (CPF, endereço, renda — tudo à venda na dark web)
- Documentos furtados
- Até ligações com você mesmo.
Do seu próprio comportamento:
- Você posta sobre ir viajar? Criminosos ficam de olho
- Fala sobre problemas financeiros? É alvo potencial
- Frequentemente faz ligações para família? Coletam amostra.
E tem um detalhe que piora tudo: existem “kits de fraude” sendo vendidos no Telegram. Uma foto de documento custa R$ 20. Se você comprar seis unidades, sai R$ 10 cada. O “kit completo” com selfie? R$ 150. É um mercado organizado de crime.
Mas espera: tem mais tecnologias perigosas! A clonagem de voz é apenas a ponta do iceberg. Os criminosos também usam:
Deepfakes de vídeo
Vídeos praticamente perfeitos onde pessoas famosas (celebridades, ministros, presidentes) parecem estar em chamadas de vídeo com você, pedindo dinheiro ou prometendo investimentos “milagrosos”. Apenas 60% das pessoas conseguem identificar corretamente fotos e vídeos falsos criados por IA.
Validação biométrica fraudulenta
Criminosos criam deep fakes do seu rosto para validar sistemas de reconhecimento facial. Resultado: empréstimos e contas bancárias abertas em seu nome. Uma quadrilha presa pela Polícia Federal em 2025 usava essa técnica — o prejuízo foi de R$ 50 milhões.
Clonagem de rosto e voz combinadas
Imagine receber uma chamada de vídeo de um amigo próximo. Você vê a face dele na tela, ouve a voz dele pedindo um favor urgente. Tudo parece real, porque, tecnicamente, é tudo manipulado por IA.
Como detectar e evitar esse golpe: confira dicas práticas
Quando você recebe a ligação de “emergência”:
Primeira linha de defesa — Pergunte coisas que só vocês sabem:
- Qual era o nome do seu primeiro cachorro?
- Qual foi o presente que você mais gostou que eu dei?
- Qual era aquele lugar que sempre íamos durante férias?
- Qual é o nome de apelido que você me dá?
Criminosos podem ter informações públicas sobre você, mas essas memórias compartilhadas? São impossíveis de conseguir sem conhecer você realmente.
Segunda linha de defesa - Exija uma chamada de vídeo: se a pessoa se recusar ou colocar desculpas (“minha câmera está com problemas”, “estou em lugar público”), é um forte indício de fraude. Um verdadeiro familiar em emergência provavelmente tentaria usar vídeo para provar quem é.
Terceira linha de defesa — Mude de canal de comunicação: desligue a chamada. Tire alguns segundos de ar. Depois, ligue de volta para o número que você conhece — não o número que apareceu na ligação. Você pode ligar para a casa dele, para o telefone de trabalho, para qualquer número que você já tenha guardado há tempos.
Se foi uma emergência de verdade, ele vai confirmar. Se foi golpe, você nunca vai conseguir chegar a ele por esse caminho.
Dicas de proteção que você faz AGORA, antes de cair num golpe:
Privacidade nas redes sociais:
- Deixe seu perfil privado, não aberto para o público
- Evite postar quando está viajando ou longe de casa
- Não compartilhe números de familiares ou nomes de filhos nos seus Stories
- Cuidado com check-ins que revelam sua localização.
Senhas e autenticação:
- Use verificação em dois passos no WhatsApp e Instagram
- Isso impede que alguém clone seu número.
Conversas com família:
- Fale com seus pais, avós e pessoas mais velhas sobre esse golpe
- Estabeleçam uma “senha de segurança familiar” — uma palavra código que vocês concordam
- Quando alguém ligando de qualquer membro da família pedir dinheiro urgentemente, essa pessoa diz a senha. Se não disser, é golpe.
Monitoramento:
- Verifique suas contas bancárias regularmente
- Procure por transações que você não reconheça.
A defesa mais forte: o contato pessoal
E aqui está o ponto mais importante que ninguém destaca suficientemente: se a situação é realmente urgente, você pode e deve entrar em contato pessoal.
Não é exagero. Se seu “filho” está numa emergência em São Paulo e você está em Rio de Janeiro, existe Uber. Existe amigo dele lá que você pode ligar. Existe a possibilidade de você simplesmente pegar o carro e ir até lá — ou ir à delegacia/hospital confirmar que a emergência existe.
Criminosos contam com a velocidade e o pânico para agir. Eles contam com você estar sozinho, sem pensar racionalmente, transferindo dinheiro em segundos.
Quanto mais você desacelera, mais você vence esse jogo.
Aqui estão as ações concretas:
- Ligue para outro membro da família que você sabe que está em contato com a pessoa
- Visite a casa/trabalho se for possível (especialmente para emergências)
- Ligue para amigos da pessoa supostamente em emergência
- Contate hospitais e delegacias para verificar se há registro da emergência
Qualquer criminoso vai desistir antes disso acontecer. Eles não podem sustentar a mentira por mais 30 minutos se você começar a fazer essas perguntas e verificações.
Se você foi vítima
Se você ou alguém que conhece caiu num desses golpes, não é o fim do mundo:
Ações imediatas:
- Denuncie na Delegacia de Crimes Virtuais (Polícia Federal)
- Se foi via PIX, dirija-se imediatamente ao banco. Às vezes é possível recuperar (a transação precisa ser contestada rapidamente)
- Bloqueie seu número em todas as redes sociais se acha que foi clonado
- Abra um boletim de ocorrência
- Se foi clonagem de número/WhatsApp, avise seus contatos.
A realidade reconfortante por trás disso tudo
Sim, a tecnologia é assustadora. Sim, os criminosos estão cada vez mais sofisticados. Mas aqui está o ponto crucial:
Eles dependem de você estar em pânico e sozinho.
Quanto mais você conhece sobre esses golpes, quanto mais você compartilha com sua família, quanto mais você estabelece protocolos simples (como ligar de volta pelo número conhecido), mais invulnerável você fica.
Meu desafio para você: Converse com seus pais, avós, tios, e qualquer pessoa que você ama nesta semana. Compartilhe essa matéria. Estabeleçam juntos uma estratégia familiar. Criem uma “senha de segurança”.
Porque a inteligência artificial pode fazer vozes incrivelmente realistas. Mas ainda não consegue simular a lógica de um familiar que desacelera, faz perguntas, e verifica as coisas.
Nós ainda temos poder. Usemos.
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