Vinho brasileiro busca espaço na Europa com estratégia, identidade e valor agregado
Concorrência, construção de marca e posicionamento passam a ganhar peso nos movimentos de expansão do setor

O acordo entre Mercosul e União Europeia vai movimentar o mercado de vinhos nos próximos anos, mas especialistas avaliam que as mudanças vão muito além do preço das garrafas nas prateleiras. A disputa passa também pela construção de marca, reputação e posicionamento dos produtos em mercados tradicionais, como o europeu.
O Vin du Brésil é uma iniciativa criada para ampliar a presença e fortalecer a imagem dos vinhos brasileiros na Europa, apostando em curadoria, identidade e posicionamento de mercado.
O Mundo Agro conversou com o chef francês Benoit Mathurin, o jornalista francês Xavier Vankerrebrouck e o brasileiro Guilherme França, integrantes do projeto Vin du Brésil, para entender quais oportunidades e desafios surgem nesse novo cenário.

Mundo Agro: O acordo entre Mercosul e a União Europeia deve impactar mais o preço do vinho ou a dinâmica competitiva do mercado brasileiro?
Guilherme França: O efeito mais relevante tende a ser sobre a dinâmica competitiva — e não, diretamente, sobre o preço. A expectativa de “vinho mais barato” precisa ser tratada com cautela: pode haver algum alívio ao longo do tempo, mas não há um mecanismo de repasse automático para o consumidor. O preço final do vinho no Brasil é resultado de uma soma de fatores — logística, carga tributária interna, câmbio e margens da cadeia — o que torna qualquer ajuste gradual e desigual. Na prática, o acordo funciona como um acelerador estrutural do mercado: aumenta a concorrência, eleva a exigência por eficiência e força importadores, varejo e produtores nacionais a refinarem posicionamento, portfólio e execução. Há ainda um componente menos óbvio, mas decisivo: o acordo cria uma disputa por timing. Quem se antecipa tende a garantir melhores parceiros, aprender o canal com antecedência e consolidar presença. Quem espera a implementação completa corre o risco de entrar quando o mercado já estiver mais disputado — e com menos espaço para construir vantagem.
Mundo Agro: O que ainda impede o vinho brasileiro de avançar com mais força na Europa: preço, escala ou construção de marca?
Guilherme França: O principal entrave é a construção de marca, entendida como reputação, referência e legitimidade. Na Europa, sobretudo em mercados como a França, o vinho é também linguagem cultural: não basta qualidade técnica; é preciso ser reconhecido como origem e fazer sentido dentro de um repertório simbólico já muito consolidado. Quando falta referência, a disputa não acontece apenas “na taça”, mas no imaginário do consumidor e dos formadores de opinião. Preço e escala importam, mas raramente são o primeiro obstáculo. Antes disso, o produtor brasileiro encontra um conjunto de exigências que pesa bastante: conformidade regulatória, certificações, burocracia e percepção de mercado. A porta de entrada é estreita — e exige preparo técnico e administrativo consistente. Superada a entrada, começa a parte mais longa: reputação se constrói com presença contínua, consistência e narrativa, não com uma exportação pontual. É por isso que a ambição, neste momento, não deveria ser apenas “exportar mais”, mas criar mercado: traduzir identidade, origem e emoção com consistência, até que a legitimidade venha com o tempo. A partir daí, a escala deixa de ser pré-condição e passa a ser consequência.
Mundo Agro: Qual é o papel do Vin du Brésil na construção da imagem do vinho brasileiro na Europa e como ele pretende se diferenciar em um mercado tão tradicional como o francês?
Benoit Mathurin: O papel do Vin du Brésil começa pela divulgação, porque o produto ainda não é muito conhecido na França. E como se diferenciar é muito simples: pela qualidade. Justamente por ser um produto tão tradicional na França, a ideia é trazer algo novo, desconhecido e de qualidade. O objetivo é não “envergonhar” na frente dos clássicos — são castas, vinificações, visões e terroirs diferentes. É uma outra ideia do vinho: uma base clássica europeia, mas com um tom brasileiro, que aparece tanto nas barricas quanto nas vinificações e no terroir brasileiro puro.
Mundo Agro: Com a maior entrada de rótulos europeus, como o vinho brasileiro pode se diferenciar e ganhar espaço, tanto no mercado interno quanto no exterior?
Benoit Mathurin: Sobre o desenvolvimento dos vinhos brasileiros, a percepção na Europa é totalmente diferente da que existe no Brasil. Lá, é um mercado praticamente “virgem” para os vinhos brasileiros. Não existe preconceito; pelo contrário, as pessoas estão abertas e existe uma visão muito positiva do Brasil. Fomos muito bem recebidos. No Brasil, é quase o oposto. Ainda existe bastante preconceito, embora isso tenha diminuído muito nos últimos cinco anos. A pandemia, de certa forma, ajudou a conscientizar as pessoas sobre apoiar a economia nacional, e o nível dos vinhos brasileiros cresceu bastante, tanto em qualidade quanto em volume. Então, no Brasil, o trabalho é continuar quebrando essa síndrome do vira-lata, os preconceitos, e fazer as pessoas provarem os vinhos. No Esther Rooftop, por exemplo, muitas pessoas chegam questionando por que trabalhamos apenas com vinhos brasileiros, com certa desconfiança. Mas, quando provam, 99% se convencem e gostam. A única pessoa que criticou um vinho brasileiro nesse contexto foi uma francesa — mas que, na verdade, não entendia de vinho. E, quando estávamos na França, as pessoas com comentários mais críticos eram justamente brasileiros morando lá. Então, de fato, são dois mercados completamente diferentes.
Mundo Agro: Priorizar valor e posicionamento em vez de volume, o projeto aposta em um caminho mais sustentável para a internacionalização do vinho brasileiro? Projetos como o Vin du Brésil mostram que o caminho passa por posicionamento e narrativa. Isso pode ser mais decisivo do que a própria redução de tarifas?
Xavier Vankerrebrouck: O mercado de vinhos evoluiu. O vinho não é mais consumido diariamente. As compras agora são pensadas para um jantar, um evento ou simplesmente para o fim de semana. O preço é importante, mas não é o único critério. Os consumidores também passaram a entender que a qualidade tem seu preço. O posicionamento do vinho brasileiro como artesanal, com história e autenticidade, garantiu seu lugar no mercado europeu.
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