38 mil candidatos, menos de 15 aprovados: o que aconteceu nessa prova de concurso?
Meus comentários sobre as polêmicas recentes com bancas e provas impossíveis

Imagine estudar por anos. Abrir mão de fim de semana, festa, série, família e sono. Chegar no dia da prova confiante e, ao virar o caderno, perceber que aquilo não parece ter sido feito pra aprovar ninguém.
Não é cena de filme. Foi exatamente o que milhares de candidatos sentiram nos últimos meses. E o nome que aparece no centro dessa história vem se repetindo: FGV.
O caso que ninguém consegue esquecer
No começo do ano, a prova da Polícia Civil do Piauí virou o símbolo dessa discussão. Foram quase 38 mil inscritos e, segundo levantamentos de sites que ranqueiam notas, menos de 15 candidatos teriam alcançado o mínimo pra passar em um cargo com 150 vagas imediatas.
Sim, 150 vagas, e a conta não fechou nem pra preencher uma parte delas.
Pouco depois veio o concurso do IBGE, com mais de 400 mil pessoas disputando vagas de nível médio. E de novo a mesma reclamação: uma prova pesada demais pro perfil do cargo e pro salário em disputa.
A insatisfação virou movimento organizado. Um abaixo-assinado pedindo revisão na conduta da banca passou de 10 mil assinaturas, com foco em pontos como a cláusula de barreira, aquela regra que exige acerto mínimo por disciplina e derruba quem foi bem no geral, mas tropeçou numa única matéria.
E aqui está o que mais me incomoda: não é a primeira vez
Um especialista da área resumiu o sentimento geral com uma frase curta ao ver a prova do IBGE: “a FGV fez de novo”.
Fez de novo porque já tinha feito antes. Em 2024, um concurso da ADAB, na Bahia, ofertou 120 vagas e terminou com apenas 15 aprovados. Quando o padrão se repete, deixa de ser azar e passa a ser característica.
Deixa eu ser claro no meu posicionamento, porque odeio texto em cima do muro: eu não sou contra prova difícil. Nunca fui. Prova difícil separa quem estudou de quem passou perto do conteúdo, e isso é justo, é o que dá valor à sua aprovação.
O problema é outro. É quando a prova para de medir se você sabe e passa a medir se você teve sorte. Se acertou a fonte obscura que professor nenhum indicou, se aguentou uma maratona de pegadinhas montadas pra confundir até quem domina o assunto. Aí a seleção perde o propósito. Um concurso existe pra escolher os melhores pra exercer a função, não pra reprovar quase todo mundo e ainda sobrar vaga.
E tem um efeito colateral que pouca gente enxerga. Cada prova impossível dá munição pra quem defende o fim do concurso público. Quando uma pessoa de fora olha uma questão que candidato nenhum conseguiu responder, fica fácil dizer que concurso é loteria, que não seleciona coisa alguma. Nós, que acreditamos no concurso como a porta mais democrática que existe pra mudar de vida, deveríamos ser os primeiros a cobrar bancas melhores.
A FGV não está sozinha nesse jogo
Cada banca tem a sua própria forma de apertar, e vale você conhecer isso antes de escolher o seu concurso.
O Cebraspe, por exemplo, é conhecido pelo modelo certo e errado, em que uma questão que você marca errada anula uma que você acertou. Parece um detalhe técnico, mas muda tudo na sua estratégia de prova. Naquele formato, o chute deixa de ser neutro e vira risco puro. Você pode saber a matéria, marcar no impulso duas ou três que não tinha certeza, e ver a sua nota derreter na sua frente.
Não é uma prova impossível como as que citei ali em cima, o Cebraspe ainda possui certo senso. É uma prova impiedosa, de outra natureza, que pune a insegurança e premia quem tem disciplina pra deixar em branco o que não domina.
Formatos diferentes, mesma lição: a banca sempre vai ter um jeito de complicar a sua vida. Faz parte do jogo, e sempre fez.
Agora, o que realmente está ao nosso alcance
Prova difícil é difícil pra todo mundo.
Aqueles quase 38 mil inscritos do Piauí encararam exatamente a mesma prova que você encararia. A dificuldade não escolhe alvo, não tem preferência, não persegue você em particular. Ela cai igual pra todos que sentam naquela sala.
E isso traz um pensamento libertador quando você entende a lógica por trás. Se a prova for fácil, ela é fácil pra todo mundo, e aí todo mundo vai bem, e a sua nota alta não te diferencia de absolutamente nada.
É na prova brutal que a diferença aparece. É quando quase todo mundo trava que quem preparou o psicológico, quem estudou a fundo, quem treinou pra resolver questão sob pressão, sobe no ranking.
A dificuldade não é a sua inimiga. Ela é o filtro que trabalha a seu favor, desde que você esteja do lado certo do filtro.
Por isso eu repito pros meus alunos até cansar de falar: o seu único concorrente é você mesmo. Não é a FGV. Não é o Cebraspe. Não é o candidato do lado. É a versão de você que estudou menos do que podia, que desistiu na primeira questão estranha, que gastou energia xingando a banca em vez de virar a página e resolver a próxima.
Banca difícil você não controla. A sua preparação, sim.
Então, da próxima vez que você ouvir que uma prova foi impossível, respira fundo e lembra: impossível pra todos é oportunidade pra quem estava pronto. Continue estudando. O jogo é esse, e ele é justo com quem insiste.
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