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Por que eu continuo dizendo para as pessoas estudarem para concurso

Não escolhi concurso porque previ alguma crise. Escolhi porque cansei de depender de fatores que eu não controlava

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Armínio Fraga alerta sobre risco de recessão em 2027 devido à insustentabilidade fiscal e recomenda cautela financeira.
  • O BTG Pactual projeta retração econômica com base no endividamento crescente das famílias brasileiras.
  • O Ministério da Fazenda nega a possibilidade de recessão em 2027, considerando as previsões exageradas.
  • Estudar para concursos é recomendado como uma estratégia de carreira segura, independente das previsões econômicas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Notas de reais espalhadas pela mesa.
A economia e a segurança financeira são os dois fatores mais fortes na decisão do estudo para concursos. Inteligência Artificial/ChatGPT

Em julho, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga deu uma entrevista dizendo que o Brasil corre risco concreto de entrar em recessão em 2027. Falou que a situação fiscal do país não é sustentável, que o mercado de crédito dá sinais preocupantes e recomendou algo bem específico às famílias e às empresas: preservem caixa, não peguem empréstimo.

Três dias depois, o ministro da Fazenda foi ao rádio dizer que não existe possibilidade de recessão em 2027, que falar nisso é exagero e que parece tentativa de forçar a barra em ano eleitoral.


No meio dos dois, o BTG Pactual publicou uma projeção de retração para 2027, baseada no endividamento das famílias brasileiras. O número que sustenta a análise é este: as famílias hoje devem o equivalente a 49,7% da renda, contra 38,2% em 2014. E a fatia da renda que vai embora todo mês só para pagar dívida subiu de 22,9% para 29,3%.

Um ex-presidente do Banco Central, o banco de investimento e o Ministério da Fazenda. Três fontes que ninguém pode chamar de amadoras, olhando para o mesmo país, chegando a conclusões opostas.


E é aqui que eu quero começar a conversa de verdade.

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Eu não faço previsão econômica

Não vou fingir que sei quem está certo. Não é o meu trabalho, não é a minha formação, e desconfio profundamente de quem aparece na internet com certeza sobre o PIB de daqui a dezoito meses.


O que eu faço há anos é outra coisa: ajudar pessoas a tomarem uma decisão de carreira. E percebi, ao longo desse tempo, que a maioria das pessoas toma essa decisão do jeito errado. Elas tentam adivinhar o cenário e escolher a carreira que se encaixa nele. Se a economia parece boa, arriscam. Se parece ruim, recuam. Ficam reféns de manchete.

O problema é que essa lógica só funciona para quem acerta a previsão. E ninguém acerta a previsão com consistência, incluindo as três fontes que citei ali em cima, já que pelo menos uma delas vai estar errada em 2027.


Existe outra forma de decidir, e ela não exige adivinhar nada.

A pergunta que quase ninguém faz

Quando alguém me pergunta se vale a pena estudar para concurso, a pergunta que vem junto é sempre sobre salário. Quanto paga? Se compensa. Se o mercado privado não paga mais.

É uma pergunta legítima e uma pergunta incompleta. Porque ela só olha para o cenário em que tudo dá certo.

A pergunta que falta é esta: o que acontece com você se der errado?

Não é uma pergunta pessimista. É a mesma pergunta que qualquer pessoa faz antes de contratar um seguro, antes de assinar um financiamento, antes de decidir quanto pode gastar por mês.

É a pergunta que o Armínio Fraga fez, aliás, quando recomendou preservar caixa e não pegar empréstimo. Ele não estava dizendo que a recessão vem com certeza. Estava dizendo que o custo de estar errado é alto demais para ignorar.

Aplique isso à sua carreira e você tem dois cenários.

Cenário um: a recessão não vem. O ministro estava certo, os juros caem, a economia cresce. Nesse caso, quem passou os últimos anos estudando para concurso e passou está num cargo público com salário previsível, enquanto alguns colegas do setor privado ganharam mais. Você perdeu alguma coisa. Perdeu vantagem sobre os outros.

Cenário dois: a recessão vem. Aí a empresa corta custo, e corte de custo tem nome e sobrenome de gente. Quem está no privado descobre que aquele salário maior vinha embutido de um risco que ninguém colocava na conta. Quem está no serviço público continua recebendo no quinto dia útil.

Repare que os dois cenários não custam a mesma coisa. Num deles você ganha menos do que poderia. No outro, você perde a renda inteira. Essa assimetria é o argumento, e ela existe independentemente de quem está certo sobre 2027.

O que os dados dizem hoje, para ser justo

Não quero vender catástrofe, então preciso apresentar o outro lado, e ele é forte.

O mercado de trabalho brasileiro está no melhor momento da série histórica. O desemprego no segundo trimestre de 2026 ficou em 5,4%, o menor patamar desde que o IBGE começou a medir, em 2012. O país chegou a 103,1 milhões de pessoas ocupadas, recorde absoluto. Nunca houve tanta gente trabalhando no Brasil.

Se você olhar só para isso, minha tese parece fora de hora.

Mas olhe o resto da mesma pesquisa. A informalidade está em 37,4%. Quase quatro em cada dez brasileiros que estão trabalhando não têm carteira, não têm décimo terceiro, não têm férias e não têm seguro-desemprego. E o rendimento médio do trabalhador ficou em R$ 3.738, abaixo do que era no trimestre anterior.

Ou seja: o Brasil resolveu o problema de arrumar ocupação e não resolveu o de arrumar uma ocupação que sustente uma vida com alguma tranquilidade. Muita gente está empregada e completamente exposta.

E existe um detalhe histórico complicado. O ciclo que antecedeu a recessão de 2014 a 2016 também começou com crédito farto, consumo aquecido e emprego em alta. O endividamento de hoje é maior que o daquela época.

Não estou dizendo que a história vai se repetir. Estou dizendo que os melhores momentos costumam ser exatamente os momentos em que ninguém se protege.

Onde eu preciso ser honesto com você

O serviço público não é imune a nada disso, e seria desonesto da minha parte vender isso.

Ajuste fiscal atinge o setor público também, só que de outro jeito. Ele atinge o fluxo de entrada, não quem já entrou. Trava autorização de vaga, atrasa edital, adia nomeação. É frustrante e é real, e quem acompanha concursos sabe exatamente do que estou falando.

Mas veja a diferença prática. Atraso na entrada se resolve com tempo de estudo, que é justamente o recurso que você tem enquanto espera. Demissão não se resolve com nada disso.

Por que eu continuo dizendo a mesma coisa

Eu comecei a estudar vindo de um histórico escolar ruim, sem nada que indicasse que aquilo daria certo. Não escolhi concurso porque previ alguma crise. Escolhi porque cansei de depender de fatores que eu não controlava.

E essa, no fundo, é a única coisa que a discussão sobre 2027 revela com clareza. Não revela o futuro. Revela quanta gente vive numa posição em que o futuro decide tudo por ela.

Se a recessão vier, você vai querer estar num lugar onde ela não te alcance. Se não vier, você continua num lugar bom, com renda previsível e uma carreira construída. Nenhum dos dois cenários exige que eu tenha acertado a previsão.

É por isso que continuo dizendo a mesma coisa que dizia no ano passado e que vou dizer no ano que vem: comece agora. Não porque o país vai quebrar, mas porque você não deveria precisar saber se ele vai.

Fontes: entrevista de Armínio Fraga à revista Veja (julho de 2026); declaração do ministro da Fazenda, Dario Durigan, à Rádio Jornal (julho de 2026); análise do BTG Pactual sobre endividamento das famílias e projeção para 2027; PNAD Contínua Trimestral, IBGE, segundo trimestre de 2026.

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