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Estudar para dois concursos ao mesmo tempo é o jeito mais rápido de não passar em nenhum

Trabalhando com mais de 60 mil alunos, eu te digo: dividir a preparação não dobra sua chance, ela corta pela metade

Radar dos Concursos|Felipe GratonOpens in new window

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Todos os dias temos editais publicados no Brasil, é importante saber administrar os estudos para não se perder Imagem gerada por IA via ChatGPT

Recebo essa pergunta praticamente toda semana. Ela chega em versões diferentes, mas o miolo é sempre o mesmo: “Felipe, saiu o edital de um e o outro que eu quero deve sair logo. Consigo estudar para os dois ao mesmo tempo?”

Minha resposta é curta: não. E eu vou explicar o motivo sem rodeio, porque essa decisão custa aprovação.


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O problema não é falta de tempo, é falta de profundidade

Quem tenta conciliar dois editais faz uma conta errada na cabeça. Imagina que está somando duas oportunidades quando, na prática, está dividindo uma preparação em duas metades incompletas.

Pense em quem você vai enfrentar na sala de prova. A maioria absoluta dos seus concorrentes está estudando para aquele concurso e só para aquele. Cada hora que eles investem vai inteira para o edital que está na mesa. Você chega dividindo atenção, dividindo revisão, dividindo caderno de erros.


Concurso público não é decidido por quem sabe mais matéria no geral. É decidido no detalhe, no decimal, na questão que você errou porque viu o assunto uma vez e não voltou nele. Quem estuda para dois editais quase sempre entrega uma prova morna nos dois. E prova morna, em concurso concorrido, é reprovação com sabor de “faltou pouco”.

Tem outro custo que quase ninguém calcula: você queima uma ficha. Cada concurso que sai é uma ficha na sua mão, e ela não volta. Se você entra numa prova sabendo por dentro que chegou pela metade, você não está fazendo o concurso, está fazendo um simulado caro, com inscrição paga, deslocamento e desgaste emocional. Pior: sai de lá com a autoestima arranhada, e isso atrasa o ciclo seguinte.


O caminho que funciona: escolher uma área, não um concurso

Entender isso é o que define o seu bom planejamento. Você não escolhe um concurso, você escolhe uma área. E, dentro dessa área, você ataca os editais em fila, um de cada vez, com foco total em cada um.

Parece mais lento. É exatamente o contrário. Porque, dentro de uma mesma área, os editais conversam entre si, e o estudo que você fez para o primeiro não morre quando a prova acaba. Ele vira base para o próximo.


Deixa eu mostrar com casos concretos.

Área bancária. Você foca no Banco do Brasil. Estuda com tudo, faz a prova inteira, dá o seu melhor. Depois vem a Caixa. Quando esse edital sair, você já viu a maior parte do conteúdo, algo perto de 80% da matéria, e chega na reta final ajustando o que é específico em vez de começar do zero. Agora inverte o cenário: se você tivesse tentado estudar para os dois em paralelo, chegaria em desvantagem na prova do BB, contra gente 100% dedicada, e ainda queimaria a sua ficha lá.

Área judiciária em São Paulo. TJSP e MPSP têm editais praticamente iguais. Não faz sentido nenhum rachar a preparação. Foca no TJSP, que sai com mais frequência, e, quando o MPSP abrir, você aproveita quase todo o estudo que já fez. Foi assim que eu construí as minhas aprovações: não estudei para várias coisas ao mesmo tempo, estudei para uma coisa por vez dentro do mesmo caminho.

Tribunais em geral. TRTs, TJs, TRFs. É o exemplo mais claro de área que se alimenta sozinha. Quem entra nesse circuito e vai encarando edital por edital chega no terceiro ou quarto concurso com uma base que o iniciante não tem como construir em seis meses de estudo.

Carreiras específicas. Quem quer delegado, promotor, juiz, defensor, o raciocínio é idêntico. O candidato foca no próximo edital que aparece na carreira, faz a prova, e a cada certame que passa a base fica mais espessa. Não existe atalho aqui, existe acúmulo. E acúmulo só acontece quando você repete o mesmo terreno em vez de trocar de terreno toda hora.

Repara no padrão: em nenhum desses casos o candidato “abre mão” do segundo concurso. Ele só entende que o segundo concurso vai ser disputado com o estudo do primeiro já dentro dele. É foco progressivo, não sacrifício.

A única exceção que eu aceito

Existe um cenário em que dá para fazer algo parecido com conciliação, e eu preciso ser honesto sobre ele porque o problema real é frequente: às vezes a prova que vem primeiro não é a que você mais quer. O concurso dos seus sonhos está na fila logo atrás.

Nesse caso, a minha recomendação pessoal é essa: foca a preparação na prova que você quer de verdade e trata a que vem antes com uma carga muito mais leve, olhando apenas as matérias que forem diferentes. Você não reorganiza a sua vida em torno do primeiro concurso; você faz um ajuste cirúrgico.

Só que vem com aviso, e o aviso é importante. Isso funciona apenas quando os dois editais são muito parecidos. Se as bancas, o nível de cobrança e o conteúdo forem distantes, você não está fazendo um ajuste, está criando duas preparações mancas com nome de estratégia. E precisa ser feito com muita cautela, porque a tentação de “só dar uma olhadinha” na matéria extra é justamente o que corrói a prova principal.

O que eu faria no seu lugar

Se eu estivesse começando hoje, faria três perguntas antes de qualquer coisa:

  1. Qual área eu quero de verdade, olhando os próximos anos e não o próximo mês?
  2. Dentro dessa área, qual edital está na mesa agora ou sai com mais frequência?
  3. Esse é o concurso em que eu quero gastar a minha ficha desta temporada?

Respondidas essas três, o resto do plano se resolve sozinho. Você para de perseguir edital e passa a construir base. E base, diferente de ansiedade, é cumulativa.

Concurso não premia quem tenta abraçar tudo. Premia quem escolhe, aprofunda e volta. Uma prova por vez, dentro do mesmo caminho, é o jeito mais rápido de chegar ao fim. Por mais contraditório que isso pareça para quem está com dois editais abertos na tela agora.

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