Não é falta de disciplina: é o ambiente ao seu redor sabotando o seu estudo
Iluminação, mesa, sono, alimentação e tempo de tela explicam o rendimento que você atribui à falta de foco ou inteligência
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Existe uma frase que eu escuto todo santo dia, de gente de todo canto do país: “Professor, eu sou indisciplinado”. Vem sempre com um tom de confissão, como se a pessoa estivesse admitindo um defeito de fábrica. E vem quase sempre acompanhada de um pedido: me dá um método melhor, me dá um cronograma mais apertado, me indica um curso novo.
Depois de acompanhar mais de 60 mil alunos, eu aprendi a desconfiar dessa frase. Na imensa maioria das vezes, o problema não está na cabeça de quem estuda. Está em volta.
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Eu falo isso com alguma autoridade porque fui um péssimo aluno na escola. Passei anos acreditando que existia um tipo de pessoa que nasce com foco e outro tipo que nasce sem.
Só fui entender que isso era mentira quando comecei a arrumar coisas que não tinham relação nenhuma com o conteúdo das provas. A hora em que eu dormia. O que eu comia antes de sentar. Onde eu sentava. Quem estava por perto.
Depois disso vieram as aprovações no Tribunal de Justiça de São Paulo e no Ministério Público. O meu cérebro continuou exatamente o mesmo. O que mudou foi o contexto ao redor dele.
O estudo é a última peça de uma engrenagem. Quando a engrenagem está torta, você pode caprichar o quanto quiser nessa última peça, que ela vai continuar rodando em falso.
O corpo é o equipamento, e ninguém trata dele
Ninguém tenta rodar um programa pesado num computador velho e culpa o programa. Mas é isso que a gente faz com o próprio corpo.
Dormir cinco horas e sentar para estudar às sete da manhã não é disciplina, é desperdício. A pessoa passa três horas na cadeira, relê o mesmo parágrafo quatro vezes, não fixa nada, levanta com a sensação de que estudou.
Estudou, sim: estudou mal, com um cérebro que estava operando em modo de sobrevivência. No fim do mês, ela vai olhar as horas anotadas na planilha e não vai entender por que o desempenho no simulado não subiu.
A alimentação segue a mesma lógica. Quem vive de café, pão e açúcar durante o dia inteiro entra num ciclo de picos e quedas de energia que joga o rendimento no chão exatamente no meio da tarde, que costuma ser o horário mais precioso de quem estuda depois do trabalho.
Não estou pedindo dieta de atleta nem oito horas de sono garantidas, porque eu sei que a realidade de quem trabalha o dia inteiro e estuda à noite não permite isso. Estou pedindo que você pare de tratar sono e comida como assuntos separados do estudo. Eles são o estudo.
O lugar onde você senta define quanto tempo você aguenta
Essa é a parte mais subestimada de todas, e é a mais fácil de resolver.
Cadeira ruim significa dor lombar em quarenta minutos. Dor lombar em quarenta minutos significa que você levanta, anda pela casa, mexe no celular e volta vinte minutos depois. Faça isso três vezes numa noite e a sua sessão de três horas virou uma hora e meia de estudo real, com o agravante de que cada retomada custa mais alguns minutos até a cabeça voltar ao ponto onde parou.
Iluminação ruim é a mesma história por outro caminho. Estudar num ambiente mal iluminado, ou com a luz vindo por trás da tela, cansa a vista muito antes do que deveria. A pessoa acha que perdeu o foco. Ela não perdeu o foco, ela perdeu a visão confortável.
E tem o ruído. Televisão ligada na sala, gente entrando e saindo, notificação de grupo de família tocando a cada dois minutos. Cada interrupção parece pequena e inofensiva, mas o custo não é o tempo da interrupção, é o tempo de voltar.
Uma mesa firme, uma cadeira decente, uma luminária apontada para o material e um lugar fixo da casa que o seu corpo reconheça como lugar de estudo. É pouca coisa, custa pouco, e muda mais o seu rendimento do que trocar de curso pela terceira vez.
O celular não rouba tempo, rouba profundidade
Todo mundo já sabe que o celular atrapalha, então eu quero apontar para o que as pessoas ainda não perceberam. O problema maior não é o tempo que você passa nas redes. É o que elas fazem com a sua capacidade de aguentar uma coisa chata por muito tempo.
Direito Administrativo é chato. Português é chato. Redação é chata. O estudo para concurso é feito, em grande parte, de tolerância ao tédio. E o vídeo curto, o corte, o conteúdo fútil que você consome nos intervalos, treina exatamente o contrário disso: treina você a trocar de estímulo assim que o interesse cai um pouquinho.
Aí você senta para estudar, o assunto fica difícil, e a mão vai no aparelho por reflexo. Não é fraqueza moral. É um hábito que você vinha treinando com afinco várias horas por dia.
O celular em outro cômodo durante o bloco de estudo resolve boa parte disso. Não no bolso, não virado para baixo na mesa: em outro cômodo.
As pessoas ao seu redor são o fator mais caro
Deixei esse por último porque é o que mais dói e o que menos se discute.
Tem o efeito óbvio, que é o comentário desanimador. O tio que fala que concurso hoje é loteria. A amiga que lembra que tem gente com pós-graduação disputando a mesma vaga. O colega de trabalho que dá risada quando você diz o que está estudando. Ouvir isso uma vez não faz mal a ninguém. Ouvir isso toda semana, durante um ano, corrói.
Mas o efeito mais perigoso é outro, e é mais silencioso: a busca por validação. É a pessoa que precisa que a família ache bonito o que ela está fazendo. Que precisa que o namorado elogie o cronograma. Que conta para todo mundo que vai prestar o concurso e passa a estudar com uma plateia imaginária julgando cada semana ruim.
Isso é veneno por dois motivos. Primeiro, porque entrega o controle do seu ânimo para gente que não entende nada do processo e que vai avaliar você pelo critério errado. Segundo, porque a validação vira o prêmio. Contar que estuda passa a dar uma satisfação parecida com a de estudar, só que sem o custo, e o cérebro é preguiçoso o bastante para preferir o caminho barato.
Quem está começando precisa de menos gente sabendo e de mais gente certa por perto. Um ou dois interlocutores que estejam no mesmo caminho valem mais do que a aprovação da mesa de almoço inteira.
A auditoria que eu peço para todo aluno travado
Antes de trocar de método, faça o seguinte exercício, que leva quinze minutos.
Pegue papel e responda com honestidade: a que horas eu durmo e quantas horas eu durmo de verdade. O que eu como nas quatro horas anteriores ao meu bloco de estudo. Onde eu sento, em que cadeira, com que luz. Onde está o meu celular enquanto eu estudo. Quantas vezes eu falo do meu concurso com pessoas que não estudam. Quem, no meu círculo, me deixa pior depois de uma conversa.
Se cinco dessas seis respostas estiverem ruins, o seu problema não é cronograma. Nenhum método do mundo compensa um contexto que trabalha contra você todos os dias.
Disciplina não é um traço de caráter que uns têm e outros não. Disciplina é o que sobra quando você tira do caminho o que estava atrapalhando. Arrume o entorno primeiro. Depois a gente conversa sobre técnica de estudo.
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