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O que fazer nas suas próximas duas horas de estudo

Quase todo iniciante senta, dá play na aula e improvisa o resto. Este é o circuito que eu sigo, do primeiro ao último minuto

Radar dos Concursos|Felipe GratonOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Evite a indecisão durante o estudo, que leva à procrastinação; planeje o que estudar antes de começar.
  • Estude por ciclos, não por cronogramas fixos, para manter a continuidade e evitar frustrações.
  • Substitua resumos caprichados por revisões ativas, como a técnica da folha em branco e questões de fixação.
  • Use um caderno de erros para registrar motivos de falhas, não para fazer resumos extensos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Caderno excessivamente grifado
Às vezes o nosso primeiro reflexo de como estudar é justamente o que menos funciona Inteligência Artificial/Gemini

São oito da noite. Você chegou do trabalho, jantou, abriu o notebook e sentou. E aí começa a parte difícil: quinze minutos decidindo qual matéria estudar, mais dez procurando de onde você parou, uma passada rápida no celular para “descansar antes de começar”.

Quando a aula finalmente roda, já foi quase meia hora. Você assiste, faz um resumo bonito, olha o relógio e vê que passaram duas horas. Levanta com sensação de dever cumprido e, três dias depois, não lembra de quase nada.


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Eu sei disso porque foi assim que eu comecei. Vim de um histórico escolar fraco, nunca fui o aluno que aprendia rápido, e, nos meus primeiros meses, eu confundia tempo sentado com estudo feito.

Só entendi a diferença quando parei de tratar a sessão de estudo como um bloco de tempo e passei a tratá-la como um circuito, com começo, meio e fim definidos.


Foi essa mudança que me levou ao sexto lugar no TJSP da Grande São Paulo, com 91% de acerto, e depois ao 39º lugar na Capital, num concurso com mais de cem mil inscritos.

O nome que eu dou para isso é Circuito Loop. Não é uma planilha, não é um método que exige três semanas para configurar. É o que acontece dentro de uma sessão de estudo e nos dias seguintes a ela. Se você tem duas horas hoje à noite, é isto que elas deveriam conter.


Antes de sentar: você já tem que saber o que vai fazer

Aquela meia hora perdida no começo da noite não é preguiça. É indecisão. E indecisão é o combustível da procrastinação, porque, enquanto você está escolhendo o que estudar, você ainda não começou, e a cabeça entende isso como permissão para adiar mais um pouco.

A solução não é força de vontade. É tirar a decisão da hora do estudo.


É aqui que entra a diferença entre estudar por ciclo e estudar por cronograma fixo. O cronograma fixo diz: “segunda é dia de Português, terça é dia de Matemática”.

Parece organizado e quebra na primeira semana real da sua vida. Você perdeu a terça porque o expediente esticou. E agora? Matemática fica para a próxima terça, sete dias depois. Faltou dois dias seguidos e a semana inteira desmoronou. O cronograma fixo produz culpa, não aprendizado.

O ciclo é uma lista de matérias em rodízio. Você percorre a lista em pedaços e, quando termina, recomeça. Não importa que dia é hoje. Importa onde você parou. Se você faltou ontem, hoje você continua exatamente de onde estava, sem nenhum débito, sem nenhuma remarcação.

Na prática, isso significa uma coisa muito simples e muito poderosa: você senta e já sabe o que vai fazer. Não escolhe, não decide, não negocia consigo mesmo. Abre o ciclo, vê o próximo bloco e começa. Você recupera aquela meia hora todo santo dia, e recupera junto a energia mental que ia embora na decisão.

A aula serve para entender, não para guardar

Primeira inversão que o iniciante precisa fazer.

Isso muda o comportamento na hora. Você para de pausar o vídeo de dez em dez segundos para copiar a tela. Para de tentar transcrever o professor. Assiste com atenção, no ritmo normal, e a única coisa que anota é o que não entendeu, para voltar depois.

O erro clássico dessa etapa é o resumo caprichado, com marca-texto e letra bonita. Ele entrega uma sensação enorme de produtividade e quase nenhuma retenção, porque copiar não exige esforço mental. Sua mão trabalha e o seu cérebro descansa.

O fim do dia é inegociável: a folha em branco

Se você tirar tudo desta coluna e guardar uma coisa só, guarde esta.

Nenhum dia de estudo pode terminar sem revisão. Nenhum. E a revisão do dia não precisa ser sofisticada. Ela pode acontecer de duas formas.

A primeira é a técnica da folha em branco. Você fecha o caderno, fecha o PDF, fecha a aba do curso, pega uma folha em branco e escreve tudo o que viu no dia, sem olhar o material. Tudo o que a sua memória entregar. Vai ser desconfortável. Você vai travar, vai perceber que entendeu bem menos do que achava, vai lembrar de três coisas quando esperava lembrar de dez.

Esse desconforto não é sinal de que a aula foi ruim. É o mecanismo funcionando. A pesquisa de Roediger e Karpicke sobre prática de recuperação mostra que o esforço de puxar a informação da memória fixa mais do que várias releituras do mesmo conteúdo. Ler de novo é confortável e ineficiente. Tentar lembrar é constrangedor e eficaz.

A segunda forma é fazer algumas questões de fixação sobre o que você acabou de ver. Poucas, cinco ou dez, só para forçar a mesma coisa que a folha em branco força, que é sair do modo de reconhecer e entrar no modo de recuperar.

Dez minutos resolvem. Depois abra o material e confira o que ficou de fora. O que ficou de fora é ouro, porque é exatamente aquilo que você juraria que sabia.

Quando o tópico acaba: lista de questões

Aqui está uma distinção que evita muita frustração no começo.

Questão de fixação, aquela do fim do dia, é revisão. Bateria de questões é outra coisa e tem outro momento. Ela acontece quando você termina um tópico inteiro, não a cada sessão. Terminou a concordância verbal? Agora sim, trinta, quarenta questões de concordância verbal, na banca do seu concurso, se você já tiver banca definida.

O motivo é simples. Um tópico pela metade gera erro que não ensina nada, porque você errou por não ter visto ainda. Tópico fechado gera erro que ensina, porque ele revela a distância entre o que o professor explicou e o que a banca cobra. E essa distância costuma ser bem maior do que parece.

O objetivo aqui não é acertar. Iniciante que erra sete de dez está no lugar certo. O objetivo é descobrir que você entendeu o conceito e ainda não sabe aplicar.

O erro vira registro, não vira resumo

Segundo maior mal-entendido do estudo para concursos, e vale dizer com todas as letras: caderno de erros não é um segundo resumo.

Eu vejo candidato copiando a lei inteira para o caderno de erros, transcrevendo o comentário do professor, montando um material paralelo que nunca mais vai abrir. Isso é retrabalho.

O caderno de erros nasce da questão que você errou e registra uma coisa só: por que você errou. Não o que era certo, e sim o motivo da sua falha. Os motivos costumam ser poucos e repetidos. Você não sabia o conteúdo. Você sabia e leu com pressa. Você confundiu dois institutos parecidos. Você caiu na pegadinha do “sempre” e do “nunca”.

Uma linha por erro, duas no máximo. Em algumas semanas você terá um mapa do seu padrão de falha, e ele vale mais que qualquer resumo bonito, porque é sobre você e não sobre a matéria.

Feche o circuito hoje

Repare no que fizemos com as suas duas horas. Nenhuma técnica exótica, nenhum aplicativo, nada importado. Teve um ciclo que disse o que estudar antes de você sentar, uma aula assistida com propósito, uma revisão obrigatória no fim, e mais adiante uma bateria de questões e um registro curto do que deu errado.

Quando o circuito fecha, você não termina a sessão com sensação de produtividade. Termina com evidência de aprendizado, que é coisa bem diferente.

Se você está começando agora, não tente reformar a sua vida inteira nesta semana. Monte seu ciclo, mesmo que rústico, e faça um loop completo hoje à noite, nem que seja em uma hora em vez de duas. Amanhã faça outro. Em duas semanas, quando abrir uma bateria de questões daquele assunto, você vai entender por que eu insisto tanto em algo que parece tão simples.

E se você passou meses estudando sem fechar o circuito, não se culpe. Ninguém ensina isso. Quase todo mundo aprende errado no começo, inclusive eu.

Fonte: ROEDIGER, H. L.; KARPICKE, J. D. Test-Enhanced Learning: Taking Memory Tests Improves Long-Term Retention. Psychological Science, v. 17, n. 3, 2006.

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