Por que o setor público emprega muito mais gente de 40 a 60 anos que o mercado privado?
O que os dados sobre etarismo revelam sobre a única porta de entrada do país que não descarta ninguém por idade
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Toda semana eu recebo a mesma mensagem escrita com palavras diferentes. Um homem de 44 anos, uma mulher de 51, alguém que acabou de fazer 39 e resolveu me escrever num domingo à noite. O texto muda, a pergunta é sempre idêntica: será que ainda dá tempo?
Eu já percebi que essa pergunta não é sobre cronograma de estudos. Ninguém me manda mensagem no domingo à noite para saber quantas horas precisa estudar por dia.
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Quem escreve aquilo está pedindo permissão. Está querendo ouvir de alguém que a vida dele ainda comporta um recomeço, porque faz tempo que o mercado de trabalho vem dizendo o contrário.
E o mercado vem dizendo isso de forma bastante organizada.
O número que ninguém comenta
Pesquisadores da Unifesp cruzaram dados da Relação Anual de Informações Sociais ao longo de 20 anos para entender onde o brasileiro trabalha em cada faixa de idade. Encontraram um padrão que diz muito sobre o país: proporcionalmente, o setor público concentra bem mais trabalhadores entre 40 e 60 anos do que a iniciativa privada.
Não é coincidência, e também não é porque o serviço público adora gente grisalha. É porque, depois de certa idade, o mercado privado simplesmente para de abrir a porta.
Quando você olha os dados de etarismo, o desenho fica óbvio. A plataforma de empregos InfoJobs ouviu mais de 4,5 mil profissionais a partir dos 40 anos e encontrou o seguinte: 70,4% deles já sentiram preconceito por causa da idade dentro de um processo seletivo. Sete em cada dez. E 78,5% afirmaram que o mercado simplesmente não oferece a eles as mesmas chances que oferece aos mais jovens.
Antes que alguém diga que isso é impressão de quem está do lado de fora, vale olhar o dado que vem do outro lado do balcão. A Ernst & Young, em parceria com a agência Maturi, ouviu cerca de 190 empresas de treze setores diferentes. Nada menos que 78% delas reconheceram que o mercado é etarista e cria barreiras para contratar quem passou dos 50.
E o mais revelador: 80% dessas mesmas empresas não tinham qualquer política intencional para combater a discriminação por idade nos seus processos seletivos. Elas enxergam o problema com clareza e não fazem nada a respeito dele.
O problema também não é só nosso, mas aqui ele é pior. A consultoria Michael Page ouviu 50 mil trabalhadores em 36 países para o relatório Talent Trends 2025. No Brasil, 41% dos profissionais relataram já ter sofrido etarismo ao longo da carreira. A média mundial ficou em 36% e a da América Latina em 35%. Estamos acima das duas.
Eu preciso fazer um parêntese honesto aqui, porque tem gente jovem lendo esta coluna. O etarismo não escolhe só um lado. Quem está começando também apanha, ouve que não tem experiência, que não preenche todos os requisitos, que precisa de dois anos de bagagem para uma vaga de entrada, que deveria ser justamente onde a bagagem começa.
A régua é diferente, o mecanismo é o mesmo: alguém olha um número no seu documento e decide antes de te conhecer.
Três coisas que o concurso não faz com você
Depois de acompanhar mais de 60 mil pessoas se preparando para concursos, eu enxergo o serviço público de um jeito que raramente aparece nas discussões sobre carreira. Ele não é apenas um emprego bem pago. Ele é o único processo seletivo relevante deste país que não te avalia como pessoa antes de te avaliar como candidato.
A prova não pergunta sua idade
No mercado privado, seu currículo chega antes de você. Ele carrega o ano em que você se formou, a foto que você postou no LinkedIn, a lacuna de dois anos que você levou para explicar em três linhas. Alguém do outro lado lê aquilo e forma uma opinião sobre a sua capacidade sem nunca ter medido a sua capacidade.
No concurso, o que chega antes de você é o seu gabarito. A banca corrige o cartão de resposta e não faz ideia se você tem 24 ou 54 anos. É a definição literal de mérito, e nós temos tão poucos exemplos disso que a maioria das pessoas nem percebe o quanto é raro.
O edital não exige experiência prévia
Essa é a armadilha que trava mais gente madura do que qualquer outra. A pessoa passou quinze anos num setor, o setor encolheu, e agora ela descobre que a experiência dela vale zero para o mercado ao lado e nada para o mercado de cima.
Existem centenas de cargos públicos de nível médio que pedem exatamente um requisito: você comprovar que aprendeu o conteúdo cobrado. Não existe entrevista comportamental, não existe dinâmica de grupo, não existe alguém avaliando se você tem “fit cultural” com um time de 26 anos de idade média.
E, uma vez lá dentro, ninguém é descartado por causa da idade
Repare no que a pesquisa da Stato, em parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie, encontrou sobre o profissional acima de 50 anos. A imagem dele é ótima: 77,3% dos entrevistados o consideram confiável e 80,7% o veem como agradável de conviver.
O problema aparece quando o assunto vira competência e futuro. Nada menos que 44% acreditam que ele tem dificuldade de se adaptar a mudanças, e 70% percebem que profissionais mais velhos recebem menos oportunidades de promoção, além de sofrerem pressão para se aposentar e abrir espaço. Ou seja: gostam de você, mas não te promovem.
No serviço público, a progressão obedece à regra escrita, tempo e critério objetivo, e não à impressão que um gestor tem sobre a sua disposição de aprender coisas novas.
O etarismo mais caro é o que você aplica em si mesmo
Existe um conceito na literatura sobre envelhecimento chamado etarismo autodirigido. É quando a pessoa absorve o preconceito que ouviu a vida inteira e passa a aplicá-lo contra ela própria. Ela para de se inscrever em processos, deixa de estudar, desiste de começar um curso, não porque alguém a barrou, mas porque ela mesma já se barrou antes.
Eu vejo isso todo dia, e é a barreira que mais me incomoda, porque é a única que não tem dado nenhum sustentando ela.
O concurso é medido, público e objetivo. Você não precisa acreditar em mim. Basta olhar a lista de aprovados de qualquer certame recente e contar quantas pessoas ali passaram dos 40. Elas não passaram apesar da idade. Elas passaram porque entraram no único jogo em que a idade não é uma das variáveis.
Eu venho de um histórico escolar fraco, comecei do zero e fui aprovado no MPSP e no TJSP, disputando com mais de cem mil candidatos. Não conto isso por vaidade, conto porque, se o processo levasse em consideração de onde eu vinha, eu não teria a menor chance. Ele não levou. Ele só olhou quantas questões eu acertei.
Se você tem 40, 45, 50 anos e está lendo isto se perguntando se ainda dá tempo, eu te devolvo a pergunta em outro formato: qual é a alternativa? Continuar mandando currículo para um mercado em que oito em cada dez empresas não têm nenhuma política para impedir que a sua idade seja usada contra você, ou estudar um edital que nem sabe quantos anos você tem?
A resposta parece difícil, mas não é. E o melhor momento para começar é sempre antes de o edital sair.
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