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Trabalhar duro deixou de ser suficiente para subir de vida no Brasil; estudar para concurso é

Pesquisa expõe a desigualdade de oportunidades e o caminho que continua ao alcance de quem não tem diploma

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O Atlas da Mobilidade Social revela que trabalhar duro não é mais suficiente para ascender economicamente no Brasil.
  • A pesquisa mostra que a mobilidade social é limitada, com apenas 8,32% dos mais pobres alcançando os 25% mais ricos.
  • A educação é apontada como o fator mais associado à mobilidade social, destacando a importância de estudar para concursos públicos.
  • Concursos públicos oferecem uma oportunidade justa de ascensão, sem depender de fatores como origem familiar ou experiência prévia.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

concurseiros em prova.
O concurso público é, tradicionalmente, a maior ferramenta para subir de classe social no Brasil Inteligência Artificial/Gemini

Todo brasileiro cresceu ouvindo a mesma frase. Trabalhe duro, seja honesto, acorde cedo, e a vida melhora. Meus pais me disseram isso. Os seus provavelmente disseram também. É uma frase bonita, e durante muito tempo eu acreditei nela sem fazer nenhuma pergunta.

O problema é que agora existe um estudo grande, sério, feito com os dados reais do país, dizendo que essa frase parou de funcionar.


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No fim de julho foi divulgado o Atlas da Mobilidade Social, uma plataforma pública desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social em parceria com o grupo de pesquisa Prospera Lab.

Não é pesquisa de opinião, não é enquete. As estimativas foram construídas a partir de dados administrativos da Receita Federal, dos Ministérios do Trabalho e Emprego e do Desenvolvimento Social, somados às pesquisas domiciliares do IBGE, seguindo a metodologia de um artigo acadêmico publicado no ano passado.


Em outras palavras: alguém pegou o Brasil inteiro, cruzou a renda dos pais com a renda dos filhos décadas depois, e mediu quanta gente conseguiu mesmo subir.

O resultado é o retrato mais honesto que eu já vi do país em que a gente vive.


O que a pesquisa encontrou

Comece pelo número principal. Quem nasce em uma família que está entre os 25% mais pobres do Brasil tem 48% de chance de permanecer exatamente nesse mesmo grupo quando adulto. Quase metade não sai do lugar. Não é que sobe pouco: é que não sobe.

E subir de verdade é mais raro ainda. Apenas 8,32% de quem começa na base consegue alcançar o grupo dos 25% mais ricos ao longo da vida. Chegar aos 10% de maior renda do país, aquilo que a gente chamaria de vencer na vida, acontece com 1,28%. Um em cada setenta e oito.


Agora inverta o retrato, porque é aqui que ele fica difícil de engolir. Entre os filhos de famílias que já estavam entre os 25% mais ricos, 56,5% continuam ali quando adultos, e 30,8% chegam ao topo dos 10%. Ou seja: quem nasce em cima tem quase um terço de chance de chegar ao topo. Quem nasce embaixo tem 1,28%. É a mesma corrida, com o mesmo esforço sendo exigido de todo mundo, e com uma diferença de mais de vinte vezes na linha de chegada.

Quem nasce no meio da distribuição, aquela família que trabalha, paga as contas e não se considera pobre, tem 17,5% de probabilidade de alcançar os 25% mais ricos. É melhor do que a base, mas continua sendo uma minoria.

O tempo não está resolvendo isso

A parte que mais me incomodou na pesquisa não foi nenhum desses números. Foi a comparação entre gerações.

O Atlas comparou brasileiros nascidos entre 1983 e 1987 com brasileiros nascidos entre 1988 e 1990. Gente que hoje tem quarenta e poucos e gente que tem trinta e poucos. Entre os nascidos no grupo mais antigo, vindos de famílias pobres, 7,9% conseguiram chegar aos 25% mais ricos. No grupo mais novo, esse número subiu para 8,8%.

Menos de um ponto percentual de avanço. Uma geração inteira do Brasil se passou, com todas as mudanças econômicas, políticas e tecnológicas que a gente viveu nesse intervalo, e a chance de um filho de família pobre chegar ao topo praticamente não se moveu. Na faixa de renda média o comportamento foi o mesmo, de 16,6% para 18,6%.

Eu quero que você leia essa parte devagar, porque ela tem uma consequência prática enorme. Se o ritmo de melhora do país é esse, esperar que o Brasil melhore e te carregue junto não é um plano de vida. É uma aposta em que você não vai viver o suficiente para ver o resultado.

O CEP também decide

O Atlas ainda mostrou onde a trava é mais forte. As maiores probabilidades de ascensão se concentram no Sul, no Sudeste e em partes do Centro-Oeste. Boa parte do Norte e do Nordeste aparece com as menores taxas, com a pobreza se repetindo de pais para filhos de forma muito mais intensa.

O contraste entre municípios é quase absurdo. Em Assis Brasil, no Acre, 84,4% dos jovens que vieram de famílias pobres continuam pobres na vida adulta. Em Ponte Serrada, em Santa Catarina, esse número é de 2,13%. É o mesmo país, a mesma moeda, a mesma Constituição, e duas realidades que não conversam.

E o fator que a pesquisa apontou como o mais associado à mobilidade, entre todos os indicadores analisados, foi a educação. Municípios com melhores resultados no Ideb e com menor distorção idade-série são justamente os que oferecem mais chance de ascensão.

Guarde isso, porque é o gancho de tudo o que eu quero te dizer a seguir.

Por que o mercado tradicional não resolve o seu caso

Quando alguém lê esses dados, a reação natural é dizer que a solução é estudar e trabalhar. E é. O detalhe é que o caminho tradicional para transformar estudo em renda é longo demais para quem começa embaixo.

Pensa no que o mercado exige de você para pagar bem. Diploma, que custa anos e dinheiro. Experiência, que você não tem porque ninguém te deu a primeira chance. Rede de contatos, que é a coisa mais desigualmente distribuída do Brasil, porque ela se herda da família. Inglês. Estágio não remunerado. Disponibilidade para se mudar para uma capital cara. Some tudo isso e você entende por que a promoção que muda a sua faixa de renda demora quinze, vinte anos, quando chega.

E o patamar de chegada, na média, não é alto. O rendimento médio mensal do trabalhador brasileiro está em R$ 3.722, o maior valor de toda a série histórica da Pnad Contínua, que começou em 2012. Esse é o recorde do país, com o salário mínimo em R$ 1.621. É a régua real do mercado de trabalho brasileiro, não a régua do LinkedIn.

É por isso que a pesquisa mostra o que mostra. Não é falta de esforço da população. É que o caminho normal cobra caro demais na entrada e paga pouco demais na saída.

O que o concurso não pergunta

Agora eu quero te apresentar a exceção, e ela existe.

Faça a lista de tudo o que decide a sua vida profissional no Brasil e que você não controla. De que família você veio. Em que bairro cresceu. Quem você conhece. Se você tem faculdade. Se você tem experiência. Como você se apresenta em uma entrevista. Sua idade. Sua aparência.

Agora repare em uma coisa: nenhum desses itens entra na correção de uma prova objetiva.

O concurso público é o único mecanismo de larga escala no Brasil em que a decisão é tomada por um gabarito. Não existe entrevista. Não existe indicação. Não existe currículo. Não existe alguém do outro lado da mesa decidindo se gostou de você. Existe um cartão de respostas com o seu número de inscrição, e ele vale exatamente o mesmo que o cartão do filho do desembargador que fez a prova na carteira ao lado.

Para os cargos de nível médio, e é deles que eu falo todos os dias, nem diploma é exigido. Também não há limite de idade. E as vagas são distribuídas pelo Brasil inteiro, o que responde diretamente àquela parte territorial da pesquisa: você não precisa ter nascido em Ponte Serrada nem se mudar para uma capital cara. A oportunidade vai até a sua cidade.

A conta que muda tudo

Deixe eu colocar números lado a lado, porque é aqui que a tese fecha.

O trabalhador brasileiro ganha, em média, R$ 3.722 por mês, no melhor momento da série histórica. Um escriturário do Banco do Brasil, cargo de nível médio, sem exigência de faculdade, começa com remuneração inicial de R$ 6.412,42, além de participação nos lucros e gratificações, com jornada de seis horas diárias e trinta horas semanais.

É quase o dobro da média nacional. São praticamente quatro salários mínimos. No primeiro mês. Sem diploma. Com uma jornada que ainda deixa espaço para você estudar mais, fazer faculdade se quiser, ou simplesmente viver.

E não estamos falando de uma oportunidade rara. O Banco do Brasil opera hoje com um déficit superior a 10 mil cargos vagos, o processo de escolha da banca organizadora está em andamento, e a expectativa é de edital pouco tempo depois dessa definição. É uma janela real, se abrindo agora, para o cargo de entrada mais acessível do país.

Compare com a curva do mercado privado, aquela de quinze anos de degrau em degrau, e me diga qual das duas trajetórias parece mais racional para quem está começando de baixo.

Eu sou o dado que virou exceção

Eu não escrevo isso de fora. Eu venho de um histórico escolar ruim, do tipo que a pesquisa do Imds descreveria sem dificuldade. Eu era o aluno que ninguém apostaria.

O que mudou a minha vida não foi um contato, não foi uma herança e não foi sorte. Foi descobrir que existia uma porta em que ninguém ia me perguntar quem eu era. Fui aprovado no MPSP em 2023.

No TJSP, tirei o sexto lugar na Grande São Paulo com 91% de acerto, e o trigésimo nono na Capital, em um concurso com mais de cem mil candidatos, com o mesmo aproveitamento.

Não conto isso para me exibir. Conto porque eu já vi esse mesmo caminho acontecer com gente demais. Mais de sessenta mil alunos passaram pelas minhas mãos, e o padrão se repete: gente que trabalhava em loja, em call center, em obra, e que hoje ganha acima da média nacional porque acertou mais questões que a concorrência em uma manhã de domingo.

A pesquisa está certa sobre o Brasil. Ela só não consegue enxergar quem decidiu jogar em outro tabuleiro.

O que fazer com essa informação

Se você chegou até aqui, deixo o conselho mais prático que eu tenho.

Escolha uma área e ataque os editais em fila, um por vez. Não tente estudar para dois concursos ao mesmo tempo, porque você perde para quem focou em um só. A matéria do primeiro vira base do próximo, e o segundo custa uma fração do esforço do primeiro.

Comece antes do edital sair. Quem espera o edital para começar já entra devendo tempo, e tempo é a única coisa que não dá para comprar depois.

E entenda o tamanho do que está em jogo. A pesquisa diz que 1,28% dos brasileiros nascidos na base chegam ao topo. Esse número descreve o país que existe. Não descreve o que acontece dentro de uma sala de prova, onde a única variável que resta é quanto você estudou.

Trabalhar duro deixou de ser suficiente. Estudar para uma prova ainda é. E essa é a melhor notícia que existe para quem começou de baixo.

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