Logo R7.com
RecordPlus

Estudo investiga por que o risco de AVC aumenta após picada de cobra

Revisão conduzida por pesquisadores brasileiros mostra que complicação neurológica é mais comum do que se imaginava

Saúde|Fernanda Bassette, da Agência Einstein

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Estudo brasileiro revela que picadas de cobra podem causar AVC, mesmo com atendimento rápido.
  • A pesquisa analisou 130 casos de AVC pós-envenenamento, com alta taxa de mortalidade e sequelas neurológicas.
  • O AVC isquêmico é mais comum, mas o veneno pode causar diferentes tipos de complicações no sistema circulatório.
  • A identificação rápida dos sintomas e o acesso a tratamento adequado são cruciais para mitigar riscos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Soro antiofídico é essencial, mas não elimina o risco de AVC Pexels/Karol Czinege

Uma investigação realizada por cientistas da UEA (Universidade do Estado do Amazonas) e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado indica que picadas de cobra podem provocar AVC (acidente vascular cerebral) mesmo após atendimento rápido.

O trabalho foi uma revisão com metanálise e reuniu dados de 130 pacientes que sofreram um AVC após envenenamento ofídico. Os resultados foram publicados na revista PLoS Neglected Tropical Diseases.


Os casos analisados estavam distribuídos principalmente na Índia (36,9%), no Brasil (13,9%) e no Sri Lanka (10,8%), além de registros em outros 19 países.

Veja Também

A taxa de mortalidade chegou a 23,4%, e muitos sobreviventes apresentaram sequelas neurológicas.


O AVC isquêmico foi mais frequente que o hemorrágico (61,5% contra 38,5%), mas ambos os tipos foram registrados, indicando que o impacto do veneno no organismo é amplo e complexo.

“Na Amazônia, a população é muito mais afetada por esse problema, seja em número de casos ou na gravidade e mortalidade”, afirma o farmacêutico-bioquímico Wuelton Marcelo Monteiro, autor do estudo.


O acesso difícil a serviços de saúde, com longas distâncias e concentração do atendimento em áreas urbanas, contribui para o atraso no diagnóstico e no tratamento, deixando populações indígenas e ribeirinhas mais vulneráveis.

Um relatório da iniciativa global SOS (Strike Out Snakebite), divulgado em janeiro, aponta as dificuldades no manejo clínico desses casos.


Feito com profissionais de saúde de países como Brasil, Índia e Nigéria, indica problemas na administração do soro antiofídico e no reconhecimento de complicações graves, muitas vezes agravados por longas distâncias e falta de estrutura.

Nesse contexto, eventos como o AVC tendem a ser ainda mais difíceis de diagnosticar e tratar precocemente, aumentando o risco de morte e sequelas.

Em 2025, o Brasil registrou 28.626 acidentes envolvendo picadas de serpentes e 149 óbitos, cerca de uma morte a cada dois dias, segundo o Ministério da Saúde.

Embora já houvesse relatos isolados na literatura sobre o risco de AVC após picada de cobra, faltava uma visão mais ampla do problema.

“Existiam muitos casos publicados, mas de forma esparsa. O que fizemos foi sumarizar esse conhecimento”, relata Monteiro. Ainda assim, o AVC provavelmente é subdiagnosticado, sobretudo em regiões com pouca infraestrutura e sem acesso a exames de imagem.

“As complicações secundárias que levam ao óbito pós-AVC decorrente de envenenamento ofídico poderiam ser melhor mitigadas por meio de um acesso mais amplo a serviços de saúde estruturados”, ressalta.

O AVC não é uma complicação isolada nem necessariamente evitada pelo atendimento precoce. “Uma proporção importante de pacientes foi atendida e recebeu soro antiofídico em menos de seis horas após a picada e, mesmo assim, desenvolveu AVC, hemorrágico ou isquêmico”, afirma o autor do estudo.

Isso indica que o tempo até o atendimento, embora crucial para o manejo geral, nem sempre impede a complicação neurológica.

Efeitos complexos

Do ponto de vista fisiológico, a explicação para o aumento do risco de AVC após picada de cobra está nos efeitos complexos do veneno sobre o sistema circulatório.

Diferentes toxinas podem atuar de formas opostas, dependendo da espécie envolvida no acidente.

“Alguns venenos podem provocar um evento hemorrágico ao causar uma alteração importante na coagulação do sangue, reduzindo as plaquetas ou interferindo nos fatores de coagulação, responsáveis por evitar sangramento. Outros fazem o contrário: provocam inflamação no endotélio e formação de trombos, deixando o sangue mais propenso à coagulação”, diz o neurologista João Brainer de Andrade, pesquisador do Einstein Hospital Israelita.

O resultado é que o paciente pode desenvolver tanto AVC isquêmico quanto hemorrágico, além de trombose ou hemorragias sistêmicas em outros órgãos.

“Da mesma forma que pode causar uma trombose na cabeça, pode acontecer nas coronárias, nos pulmões ou nos rins”, alerta João Brainer.

Outro ponto que chama atenção é a gravidade desses casos. Diferentemente do AVC clássico, geralmente associado a fatores como hipertensão ou aterosclerose, os eventos relacionados a picadas de cobra tendem a ser mais extensos.

“Eles podem atingir vários territórios cerebrais ao mesmo tempo e provocar uma reação em cascata, às vezes acometendo os dois lados do cérebro”, explica o neurologista.

Os sinais de alerta, no entanto, são semelhantes aos de qualquer AVC: fraqueza súbita, dificuldade para falar, perda de visão ou alteração do nível de consciência.

A diferença é que, nesses casos, eles aparecem no contexto de um envenenamento, muitas vezes em locais remotos e áreas rurais.

“A identificação precoce de sinais como diminuição do nível de consciência, náuseas, vômitos ou déficits neurológicos deve motivar o encaminhamento rápido para centros com tomografia e suporte intensivo”, orienta Wuelton Monteiro.

Emergência médica

No Brasil, há mais de 400 espécies de serpentes, das quais cerca de 15% são peçonhentas.

Por aqui, a maioria dos acidentes está relacionada a espécies do gênero Bothrops, as conhecidas jararacas, responsáveis por cerca de 90% dos casos.

O soro antiofídico continua sendo o principal tratamento e é fundamental para reduzir os efeitos sistêmicos do envenenamento, especialmente os distúrbios de coagulação.

Ainda assim, ele não elimina completamente o risco de AVC. “Não há como garantir que o soro vá evitar 100% dos casos, porque o paciente pode demorar a recebê-lo, e o tempo em que o veneno fica circulando já pode ser suficiente para desencadear a cascata que leva ao evento. Mas certamente o soro ajuda a reduzir esse risco”, observa João Brainer.

A principal orientação ao sofrer um acidente com serpente é buscar atendimento imediatamente.

“Qualquer picada de cobra deve ser tratada como emergência médica. Não devemos esperar os sintomas aparecerem. Também não devemos fazer torniquetes, que podem piorar o quadro e levar à perda do membro afetado. O ideal é buscar ajuda o mais rápido possível”, orienta o médico do Einstein.

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.