Lula e Flávio Bolsonaro buscam capital político em disputa por autoria do Pix
Pressão dos EUA contra a ferramenta vira centro de embate entre pré-candidatos, de olho no forte apelo popular do sistema nacional
Brasília|Débora Sobreira*, do R7, em Brasília
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A disputa eleitoral entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) pelo Palácio do Planalto foi potencializada nos últimos dias após a ameaça dos EUA de impor uma tarifa de 25% a produtos brasileiros.
Anunciada pelo governo Trump na última terça-feira (2), sob o argumento de práticas comerciais “desleais”, a medida mira, entre outros alvos, o Pix. Para os EUA, o sistema de pagamento instantâneo gera concorrência desleal em detrimento das bandeiras de cartão de crédito norte-americanas.
Como reação à pressão externa, o governo federal passou a adotar o slogan “O Pix é do Brasil”. Durante agenda em Goiás na última terça-feira (2), Lula afirmou que a tecnologia brasileira “assusta os americanos” e tem potencial para abalar o mercado de cartões de crédito estadunidenses.
No dia seguinte (3), o senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, também se pronunciou. Ele ressaltou a nacionalidade do modelo de transação, mas acrescentou: “O Pix é brasileiro e do Bolsonaro”.
Para especialistas ouvidos pelo R7, ao transformar o Pix em combustível para a polarização, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro passaram a modular seus discursos a fim de atrair o eleitorado. Eles ressaltam, contudo, que o Pix é um projeto de Estado, desenvolvido ao longo de diferentes gestões.
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Afinal, de quem é o Pix?
Consultor de Análise Política da BMJ Consultores Associados, Érico Oyama salienta que o Pix é uma criação institucional do BC (Banco Central) e não possui um único “pai” político.
Ele lembra que o projeto surgiu ao final do governo Dilma Rousseff, em 2016, foi aprimorado e regulamentado sob a gestão de Michel Temer e implementado em novembro de 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, sob o qual seu desenvolvimento tecnológico foi concluído.
“Politicamente, Bolsonaro colhe os louros por inaugurar a ferramenta, mas a paternidade intelectual e técnica pertence exclusivamente aos servidores concursados do BC”, sustenta Oyama.
O consultor se refere especificamente à equipe da autarquia sob gestão de Ilan Goldfajn, então presidente do Banco Central entre os anos de 2016 e 2019.
Para Oyama, a decisão de usar o Pix nos discursos dos pré-candidatos à Presidência tem o potencial de engajar o eleitor, uma vez que o sistema de pagamento é usado de forma massiva pela população brasileira.
“Disputar a paternidade ou a defesa do Pix é disputar a simpatia direta do bolso do eleitor. Mexer no Pix gera um engajamento passional imediato na opinião pública, o que explica por que ele virou um ativo político tão cobiçado”, observa, ressaltando a abrangência do sistema, que alcançou “uma taxa de aprovação que poucas políticas públicas obtiveram na história recente do país”.
Dados do BC mostram que o instrumento de pagamento instantâneo é o mais utilizado pelos brasileiros, responsável por 54,7% das transações efetuadas no segundo semestre de 2025.
Sistema acessível
O publicitário e estrategista em Marketing Político da Arko Comunicação, Adriano Canutto, reforça que o Pix se transformou em um poderoso ativo de engajamento popular devido à sua acessibilidade.
“A esfera financeira que envolveu toda a criação do PIX, sendo uma digitalização, uma transação gratuita, se tornou alvo de capital social e político”, destaca.
“É uma política pública voltada para uma maior aproximação da população, principalmente a com menor ganho de capital. Taxas de operações como DOC, TED e outras tarifas que os bancos costumam colocar em suas operações de crédito e débito passaram a não existir mais”, complementa Canutto.
Guerra de narrativas
Os dois especialistas apostam que, enquanto durarem as ameaças de Donald Trump sobre a tecnologia brasileira, haverá um embate direto entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. De um lado, o governo investe no discurso sobre soberania nacional. De outro lado, o pré-candidato pelo PL faz uso de uma narrativa que atribui à gestão do pai, Jair Bolsonaro, o mérito pela “criação” da medida.
“O debate se encaixa perfeitamente nos arquétipos políticos de ambos. Para Lula, a pauta resgata o discurso de defesa da soberania nacional contra a interferência externa nas instituições brasileiras. Para Flávio Bolsonaro, o Pix reforça a narrativa de que o governo anterior desburocratizou o país e gerou inovação real, ao mesmo tempo em que usam o embate para reforçar o alinhamento ideológico e estratégico com Donald Trump”, avalia Érico Oyama.
Na opinião de Adriano Canutto, o pré-candidato que melhor se apropriar do discurso acerca do Pix conseguirá expandir sua zona de influência. “Quem for visto como defensor do Pix vai conseguir conter as influências, como a do governo Trump, e outras que puderem vir, e tende a colher mais dividendos. A sua imagem ficará vinculada a um produto de sucesso”, conclui o publicitário.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Letícia de Souza, editora de texto.
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